sábado, 4 de setembro de 2010

Roque Santeiro: a telenovela em sua melhor forma


Não pude assistir à telenovela "Roque Santeiro" nas duas vezes em que ela foi exibida na televisão: em meados dos anos 80 porque não passava de um bebê e, no início de 2000, porque trabalhava fora. Portanto, nunca compreendi porque a produção provocou uma resposta tão positiva do público e deixou a censura com os olhos bem abertos. Agora, graças ao compacto da trama em 16 DVDs que está sendo comercializado, começo a entender o motivo da celeuma gerada por ela.
Não há como definir "Roque Santeiro" em meias palavras: a novela é uma maravilha. É sem dúvida o pináculo da teledramaturgia nacional. Na edição comemorativa aos 40 anos de telenovelas, a Contigo informa que a produção atingiu 100% de audiência na exibição do último capítulo. Me emociono quando vejo que o público aprecia uma produção artística de alto nível - infelizmente isso nem sempre ocorre.
Como todas as boas comédias de costumes, "Roque Santeiro" registra sua época de forma tão bem acabada que a transcende. Os tipos que apresenta são retratos do Brasil do período da transição da ditadura militar para a democracia. O cenário em que se passa a ação - e a ação em si - tornam-se metonímias desse contexto: a cidadezinha de Asa Branca, que vivia para santificar o homem que teria morrido por ela, é um perfeito paralelo para o Brasil daqueles tempos, governado pelas mãos de ferro de tantos "pais" que, mesmo tendo o direito de vida e morte da população, eram religiosamente amados por quase toda ela.


Revista Contigo! especial: 40 anos de telenovela (dez. 2003)

Para além da construção figurada, "Roque Santeiro" nos dá a ver o Brasil interiorano dos anos 80, no qual a religião dava mãos à política, tornando-se ambas indiscerníveis. O quadro, embora seja apresentado de um modo extremamente bem humorado, é complexo. Há, nesse sentido, um salto com relação à comédia de costumes tradicional. A relevância da religião no seio da comunidade, por exemplo, é delineada de modo tão matizado que se torna tocante. Os visitantes que chegam à cidade para fazerem turismo religioso e recebem como paga a chance de ver a viúva Porcina em pose de mártir misturam-se aos devotos que se arrastam até o monumento de Roque Santeiro carregando cruzes e cheios de esperanças da cura para seus males; o comércio dos espólios do santo pelo Zé das Medalhas soma-se à necessidade de entrega mística que tem os asabranquenses - o que também acaba ecoando nas nossas próprias necessidades de comunhão com o divino.


Tudo na novela é verossímil. A crendice do povo da cidade, a violência dos mandachuvas, o ceticismo da equipe que realizará o longa-metragem sobre a vida de Roque Santeiro. E tudo é tratado de modo incrivelmente equilibrado, o que injeta vida aos tipos colocados em cena, torna-os humanos: o mandachuva não é tão truculento a ponto de brincar com os sentimentos da amante e da filha (e sua amante, por sua vez, contrapesa poder e uma fé religiosa que a torna todo o tempo ciente do pecado que cometeu quando jovem); e a equipe de cinema não deixa de ser tocada pela atmosfera etérea da qual a cidade se impregna sempre que um devoto joga-se aos pés da imagem de Roque, sob os olhos do povo crédulo que o incentiva.
As personagens todas são irresistíveis, o que se deve à qualidade do roteiro, do trabalho realizado pelo elenco e da direção. As cenas iniciais da novela provam admiravelmente o quanto pode a coesão para o sucesso do conjunto:
As tomadas curtas que apreendem o dia a dia da cidade e culminam no caminhão que flagra a chegada em Asa Branca da escultura simbolizando o martírio de Roque; o içamento da imagem no topo do pedestal enquanto soa o sino da igreja e é tomado em primeiro plano o rosto de Lucinha Lins, noiva do rapaz; a toada que narra o martírio do homem tornado santo pelo povo, cantada pelo cego da igreja enquanto nos é dado a ver o comércio religioso do qual vive a cidade.



Cinco minutos soberbos de imagens apresentam todos os elementos que serão desenvolvidos ao longo da telenovela: a paixão que Mocinha nutre num só tempo pelo homem e pelo santo e o caráter dúbio que tem a exploração da imagem do morto - meio exploração mercadológica, meio fé. Uma aula sobre como se produzir uma dramaturgia de qualidade que, além de tudo, prende a atenção do público.
De momentos densos como esse a telenovela está recheada. É fascinante ver o diálogo que ela estabelece com outras artes, como a literatura de cordel e o cinema, por exemplo, na releitura bem humorada que Roque faz da verdadeira história de seu desaparecimento ou nas reflexões sobre o cinema tecidas pelo diretor do longa que tornará o mito do santo conhecido em todo o mundo - sem contar que o envolvimento da viúva Porcina com o Roque cinematográfico ou o modo agressivo com que o delegado da cidade (que acaba por desempenhar o vilão na película) passa a tratar os habitantes do lugar são duas deliciosas remissões à identificação que se estabelece entre o artista e a personagem que ele desempenha (assunto deveras discutido pelos teóricos do cinema).
São tantos os motivos que tornam a novela imperdível...

E como não falar dos intérpretes das três personagens principais: Regina Duarte, Lima Duarte e José Wilker. Eles estão sensacionais. Não é exagero. A viúva Porcina fez muito bem à Regina. Nunca a vi tão linda e resplandecente (e esse brilho todo não se deve aos modelitos chiquérrimos que ela veste). A atriz corresponde cabalmente à personagem passional da moderna viúva (muito mais moderna que as Helenas às quais ela deu vida depois). É impossível definir a natureza do relacionamento que ela tem com Sinhozinho, tão ambíguo ele é - e nem eu quero tentar definir para não tirar a graça do futuro espectador. E o José Wilker/ Roque Santeiro, que volta para o seu aconchego trazendo na mala bastante saudade e o ostensório que roubara da matriz quando jovem (que escolhas fantásticas as dos leitmotivs das personagens) e acaba confinado na casa de sua ex-viúva... Por aqui nós estamos começando a assistir ao 4º DVD e eu já antevejo um triângulo amoroso - e, a contar pelo andamento da trama, será um triângulo amoroso memorável (não me contem!).
"Roque Santeiro" é imperdível. Se minha recomendação vale alguma coisa, recomendo uma vista d'olhos nessa maravilha.

8 comentários:

Camila Henriques disse...

Nossa, bela iniciativa da Globo de lançar o DVD de Roque Santeiro. Nunca assisti,e já coloquei esse box na minha lista de próximas compras. Tenho a maior vontade de assistir a essas novelas mais antigas. Espero que lancem o DVD de Vale Tudo, já li um livro lançado pela ed. Globo com a história da novela e ela é sensacional!!

Danielle disse...

Oi, Camila!

Menina, compre a novela que você não vai se arrepender. Eu a dei de presente de aniversário (e de Natal) para os meus pais, mas quem acabou presenteada fui eu, que coloquei os olhos nela pela primeira vez.

Na época de "Vale Tudo" eu já era noveleira (fui uma noveleira meio precoce...), mas não me lembro dela. Lembro muito bem de "Que Rei sou eu", que foi apresentada na mesma época.

A Globo está relançando todos os programas que fizeram sucesso, então é bem possível que "Vale Tudo" apareça logo.

Bjs
Dani

Edison Eduardo d:-) disse...

Oi, Danielle... Em breve tb terei o PRAZER de rever a maravilha que é essa novela... Eu a tenho toda em VHS, de quando reprisou no VPVN, mas mesmo assim terei acesso ao DVD! Agradeço a visita no nosso BLOG e já tou por aqui olhando as tuas ótimas blogadas tb!!!! Aquele bjão! Edison Eduardo d:-)

Danielle disse...

Olá, Edison!

Obrigada pelas palavras sobre meu blog! Vou adorar receber suas visitas.

Estou cada vez mais fissurada por essa telenovela. O modo como ela dialoga com a produção literária brasileira (e o que de melhor há nela, como Antonio de Alcântara Machado e Manuel Antonio de Almeida), as piscadelas de olho que dá para o cinema (aquela cena hitchcockiana de quando a Mocinha se deita com Roque pela primeira vez, com os fogos de artifício e o coro da igreja cantando "Aleluia, aleluia")... É irresistível. A Regina, o Lima e o Wilker estão perfeitos! Adoro uma comédia (concordo com os que pensam que é muito mais difícil de se fazer boa comédia que bom drama).

Que legal que você tem uma versão mais longa da novela! Mas assista ao compacto lançado que você vai ficar bem satisfeito (aqui estamos no 13º DVD e não querendo que ela acabe). A edição é bem cuidadosa - não parece que falta nada!

Bjos
Dani

Edison Eduardo d:-) disse...

Oi, Daniiii... Tinha que ser RQST a blogada um do teu blog!!! Que bacana! É isso aí... E eu ainda não parei pra rever... Bom, quero comentar tb a segunda blogada: "A Rosa Púrpura do Cairo"!!! Realmente é um filme mágico... Sempre que o via sonhava em poder tb entrar na tela e modificar os acontecimentos dos filmes... Fred e Ginger em "I'm in heaven" não lembro de outra citação melhor que neste filme do Woody Allen!!! Bjo!

Danielle disse...

Edison, você viu só isso! Foram quase 400 acessos desde que o post entrou no ar, dois meses atrás.

Você precisa revê-la! Eu já estou com saudades dela...

Humm, a segunda do ranking foi escrita no começo desse ano. Sou perdidamente apaixonada pela Ginger e pelo Fred. Eu os conheci por meio do lindíssimo "Rosa Púrpura...", que me deixou "in heaven" desde a primeira cena. Estou com vontade de revê-los também.

Bjinhos e inté mais
Dani

Anônimo disse...

Dani, Parabenizo pelos textos maravilhosos que escreve. Obrigada por fazer dessa facilidade na escrita um refúgio de aprendizado onde apreciarmos boas leituras! Bom, ainda criança comecei a ter um contato lúdico por Regina Duarte.Embora não saber discernir o artista da Personagem. Não havia uma opinião formada em diferenciar uma coisa com a outra rsrs.O Esteriótipos de Porcina é umas das coisas que mais me fascina, tanto o figuinho, sotaque, comportamentos ou seja, Porcina é sem dúvida um dos personagens mais completos que Regina já fez!
Roque Santeiro é uma das obras mais bem elaboradas que já presenciamos em telenovelas. Dias Gomes foi sem dúvida um gênio.

Bjos, querida!! com carinho
Renata Fernanda

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Renata.

Você é muito bondosa! Muito obrigada por essas palavras tão gentis direcionadas aos posts daqui.

Olha, fiquei apaixonada por "Roque Santeiro" desde sua primeira cena. Não consigo usar meias palavras pra me referir à novela: é a melhor da televisão brasileira; com o melhor par (trio) romântico; a mais poética, sofisticada, comovente, hilária de todos os tempos; e com a maior personagem que já ganhou vida ante às câmeras: a Porcina. Quando vejo "Roque...", repito pra mim que parece mentira que uma produção possa ter mantido a excelência por tanto tempo. Sorte nossa que ela foi toda preservada e agora está de novo no ar e disponível em DVD. Só de saber que posso vê-la quando quiser me dá uma alegria imensa...

bjos, querida. Cuide-se bem!
Dani