quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O show de Soledad Villamil no SESC Belenzinho, em São Paulo (25/08/2011)

Conheci Soledad Villamil primeiro em “O segredo de seus olhos”, filme que tanto me encantou que eu o vi três vezes no cinema – e escrevi aqui uma resenha pra lá de passional, como mais de um leitor fez questão de ressaltar. A qualidade do roteiro, a interação impecável entre Soledad e o co-protagonista Ricardo Darin, a direção brilhante de Juan José Campanella: o “Segredo...” me proporcionou uma daquelas revelações que raras vezes tenho nas salas de cinema – embora seja assídua freqüentadora delas; por isso, aplaudi de pé a Academia de Artes Cinematográficas por premiá-lo com o Oscar de Melhor Filme e, assim, permitir sua carreira nas salas de cinema dos quatro cantos do mundo.
O filme também me é especial porque me ofereceu chave de entrada ao cinema argentino, que eu conhecia apenas esparsamente até que Soledad, Darin e Campanella me obrigaram a buscar avidamente suas filmografias. Do percurso pela produção do país vizinho me ficou a percepção de que há nele uma homogeneidade da qual nós infelizmente carecemos. Mas isso é questão para outro post. Neste, quero me concentrar em Soledad. Por um motivo muito simples. Porque a sensibilidade artística, a dedicação ao ofício, a sensatez e a modéstia são coisas que me comovem profundamente. E como é raro encontrar tudo isso num só corpo...
Que Soledad é uma grande atriz apercebe-se tão logo se põe os olhos na sua performance em “O segredo de seus olhos”, no qual ela realiza um tour de force ao interpretar as duas fases da vida da advogada que é objeto de devoção da personagem de Ricardo Darin. Também com o co-protagonismo de Darin e a direção de Campanella, a atriz protagonizou o belíssimo “O mesmo amor, a mesma chuva” (1999), saindo-se igualmente bem num papel menos idílico e que exigia maiores rasgos de emoção. E, pelas mãos de Adrián Caetano, despiu sua faceta romântica e incorporou magistralmente bem a esposa simples de um presidiário no drama-policial “Um oso rojo” (2002) - outro dos grandes filmes de sua carreira. Desde o romance mais rasgado ao realismo mais pungente, não há algo que Soledad não possa fazer ante as câmeras. E além disso, ela ainda canta!
Porém, não vá o leitor incluí-la no rol dos artistas (tão comuns por aqui) que enveredam pelos caminhos da música sem nenhum talento, apenas para promoverem por meio dela suas carreiras na televisão e vice-versa. Soledad é cantora de verdade: sábia na escolha do repertório, afinada, inteligente, dinâmica no palco. Poder-se-ia dizer que ela é uma verdadeira diva, mas não creio que ela, tão modesta, se entusiasmaria com um rótulo assim pomposo. Quem prestigiou os shows que ela fez em Porto Alegre e em São Paulo nos dias 23 e 25 deste mês entendem o que afirmo.
No de São Paulo, no qual estive, Soledad conseguiu materializar no palco a arte pura – aquela que rompe as barreiras da língua, das classes sociais, dos gêneros. Ela começou cativando o público não apenas com sua elegância e beleza, trocando com ele algumas palavras em português quase sem sotaque – prova objetiva da admiração que explicitou ter pelo nosso país. Mas isso adiantaria pouco se não estivesse somado àquela artistry que ela tem e que por certo foi buscar do passado – nos artistas cujas músicas ela escolheu interpretar ou nos grandes cantores da música mundial. Soledad deu ao público o que de melhor tem a oferecer como atriz e como cantora. Sua faceta de atriz compareceu no modo certeiro como que ela contextualizava cada música que iria cantar. Seu talento em engendrar personagens tão dessemelhantes nas telas permitiu-lhe atingir agudamente os sentimentos que cada letra pedia. E seu timbre caía como uma luva nas milongas e nos tangos de outros tempos que ela escolheu trazer ao palco.
Se isso não bastasse, sua qualidade de entertainer perpassou cada um dos minutos da apresentação: na alternância entre canções trágicas e bem-humoradas; na interação sempre inteligente com o público e no interesse que ela conseguiu fomentar para cada uma das canções escolhidas. Não pensei que outra artista, além de Judy Garland, pudesse borboletear com essa leveza e eficácia entre os gêneros e atingir sempre o ápice da emoção estética. Que alegria saber que ainda é possível fruir isso ao vivo. Prova mais aguda disso foi quando ela cantou “Maldigo del Alto Cielo”, canção composta por uma Violeta Parra às vésperas de cometer o suicídio por amor. Sua sublime interpretação – arrebatada e sincera – vivamente emocionou o público (e, pelo que pude perceber, também a cantora). Eu, que sempre procuro manter a compostura quando estou fora de casa, me vi em lágrimas neste e noutros momentos do show. Ao final, como não podia deixar de ser, Soledad foi ovacionada pelo público que ocupava a plateia do SESC Belenzinho – muitos que nunca a haviam visto no cinema ou cantar; outros que não conheciam o espanhol, porém, juraram compreender tudo o que ela dissera: prova enfática de que a língua da emoção é uma só.

Deixo os leitores com o vídeo oficial de Soledad cantando “Maldigo Del alto cielo” e os convido enfaticamente a prestigiarem-na no teatro, no cinema, no Youtube... Nesse nosso tempo de malbarateamento da arte, como estamos precisados de artistas de verdade como ela!


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As fotos eu emprestei da página da cantora no Facebook.

sábado, 13 de agosto de 2011

Os 112 anos de Hitchcock: notas sobre “Um corpo que cai”, a indústria do cinema e outras cositas mais


Hoje os cinéfilos precisam comemorar: faz 112 anos que nasceu Alfred Hitchcock (13/8/1889-29/4/1980).
O que dizer desse inglês de alma cosmopolita cuja impecável sensibilidade artística gerou uma das obras mais densas da cinematografia mundial? Eu o amo apaixonadamente desde que era menina. Para mim, ele é quem melhor resume a Sétima Arte. Suas obras repletas de cenas de perseguição, grandes romances, traços detetivescos e bom-humor convidam o grande público à diversão. Porém, os elementos do melodrama rocambolesco são sempre sutilmente desvirtuados, para que saciem o gosto do público sem que traiam a arte.
Da primeira vez que vi “Um corpo que cai”, “Janela Indiscreta” ou “Psicose”, eu, que então devorava loucamente Agatha Christie, só queria descobrir o mistério que se escondia por detrás das personagens de Madeleine Elster, Lars Thorwald e Norman Bates. Quinze anos depois, volto a essas obras ainda com avidez. O diretor é um bruxo danado – algumas das faíscas que iluminam suas produções só se fazem visíveis para o espectador insistente.
Eu sou das devotadas, ao ponto de voltar pela 15ª vez a um filme como “Interlúdio”, por exemplo, mesmo que conheça de cor enredo e diálogos, apenas para prestar atenção nas tomadas, no modo como os planos são montados, na composição dos quadros, nas trucagens. Nem sempre dá certo. Mesmo que agora eu tenha mais maturidade e instrumentos críticos para captar as nuances dos diálogos ou o simbolismo dos objetos, muitas vezes acabo mesmo é enredada pela história. Ainda continuo torcendo para Cary Grant conseguir arrancar Ingrid Bergman da casa infestada de espiões nazistas; para ver Grace Kelly finalmente se colocar em posição de igualdade com o solteirão convicto Jimmy Stewart e, assim, dobrá-lo; para a velhinha informante de “A dama oculta” (1938) escapar do trem e cantarolar ao governo inglês a informação secreta em forma de melodia; para o belo Laurence Olivier se livrar do fantasma de Rebeca...
Tomar de passagem a filmografia de Hitchcock, apenas para o mérito da homenagem, geraria simplificações desnecessárias. Pelo menos 20 de suas 50 obras pedem mergulhos profundos que, infelizmente, não tenho meios de dar neste momento. Portanto, deixo os leitores com um bate-papo que Isabella Batista de Souza e eu fizemos sobre Hitch - e especialmente sobre "Vertigo"/"Um corpo que cai” (1958) - no final de 2010. Como eu, Isabella é da área de Letras. Vasculhando a internet em busca de referência sobre o filme para um trabalho de final de disciplina (na UFMG), ela trombou com o post que escrevi sobre ele em março de 2010. A conversa a seguir reflete o desejo dessas duas colegas de formação de entender o maior dos Hitchcocks.

I: Hitchcock é considerado o mestre do suspense e um dos melhores diretores de todos os tempos. Por que ele conquistou tamanha importância no cenário cinematográfico?

D: A obra de Hitchcock como um todo é importante para a história do cinema porque ele conseguiu elevar o filme de suspense (considerado até então um gênero menor) a objeto de arte. Os produtos do gênero hoje são influenciados pela obra do diretor – embora a massa dos filmes de suspense produzidas em nossos dias não chega aos pés da produzida por ele.
Todavia, embora hoje ninguém negue que o diretor é um dos maiores de todos os tempos, sua obra demorou para ser aceita pela Academia (apenas uma vez uma obra sua foi premiada com o Oscar de Melhor Filme – “Rebeca”, de 1940 – e ele nunca recebeu o prêmio de Melhor Diretor). Até a altura dos anos de 1960, Hitchcock era, no geral, considerado como mais um diretor da indústria do cinema, desejoso apenas de agradar o público para vender seu produto. Foi nessa época que os cineastas vanguardistas franceses enxergaram uma unidade em sua obra, o que respondia ao conceito de “autoria” criado por eles. Significava grosso modo que, mesmo produzindo seus filmes no centro da indústria cultural, alguns diretores teriam conseguido se descolar dos parâmetros meramente mercadológicos criados por ela. Exemplos de diretores de cuja obra se poderia depreender um estilo autoral seriam John Ford e Hitchcock: se se analisasse suas obras completas, seria possível perceber nelas o desenvolvimento e amadurecimento, ao longo do tempo, de alguns traços ou temas. Em 1962, François Truffaut, fundador da revista francesa Cahiers du Cinema, conduziu uma série de entrevistas históricas com Hitchcock, buscando derrubar por terra a ideia vulgarizada de que o diretor não produzia obras dignas de debate. As entrevistas, compiladas em português no ótimo Hitchcock/Truffaut: entrevistas, foram fundamentais para a mudança de posicionamento da crítica acerca da obra do diretor.

Vertigo, embora tenha sido um fracasso de bilheteria, está entre os 100 melhores filmes, de acordo com o Instituto de Cinema Americano. Por que essa obra carrega tão grande importância na carreira de Hitchcock e no cinema, em geral?

Bem, a questão da recepção das obras cinematográficas é curiosa. Nós hoje pouco sabemos sobre alguns filmes que geraram grandes bilheterias no seu tempo, porém, consideramos grandes obras outros que foram fracassos de público. Não convém levantar os motivos disso, que são muitos (e duvido que eu conheça todos), mas eles têm relação com uma série de fatores. Apenas um exemplo: No começo do cinema sonoro, os primeiros filmes musicais de Al Jolson (protagonista de “The Jazz Singer”, 1927, o primeiro filme sonoro rodado) foram assistidos por grande parte da população norte-americana, curiosa por ver nas telas pela primeira vez a sincronização de som e imagem. Hoje, poucos conhecem este artista e muitos de seus filmes são considerados apenas por sua importância histórica, já que não têm grandes qualidades artísticas.
Não podemos nos esquecer também de quão importante é a publicidade para a venda de um filme. A indústria norte-americana do cinema descobriu isso logo nos anos de 1910. Os departamentos de marketing eram peças importantes dos estúdios, tornando públicas as imagens dos artistas e as películas que faziam. Hollywood construía estrelas – mudava os nomes dos artistas que contratava, lhes inventava biografias chamativas, tudo isso para torná-los interessantes para o público que ia ao cinema e alimentava a indústria. Essa sede que o público tem hoje de conhecer as vidas das celebridades vem daquela época.
Hitchcock, como todos os outros diretores, sabia que o interesse do público era motivado por razões que nem sempre tinham relação com a esfera artística, por isso seus filmes foram tão bem sucedidos na época. O melhor exemplo talvez seja o caso de Psicose (1960): O diretor fez uma campanha junto ao público de “Não conte o final do filme para ninguém, para não estragar o prazer do espectador de conhecê-lo por si mesmo.” (isso pode ser conferido nos extras da edição do filme distribuída pela Paramount). Ele criava suspense junto ao público com relação à sua própria obra, ou seja, acima de tudo era um bom negociador. Além disso, era conhecedor do público que assistia aos seus filmes, portanto, elaborava as cenas objetivando determinadas reações das plateias. Isso fez com que parte considerável de sua obra tivesse obtido sucesso de bilheteria.
Tal sucesso não aconteceu com Vertigo, que, no entanto, teve cerca de 1 milhão e setecentos mil dólares de lucro (segundo informação do IMDB). Na entrevista a Truffaut, Hitchcock vê o filme como um fracasso porque afirma que as bilheterias apenas cobriram os gastos – estamos falando de um diretor que respeitava bastante a opinião do público. Isso considerado, é visível que o diretor não via no filme a relevância que hoje vemos nele. A análise retrospectiva da obra que ele nos deixou, no entanto, nos permite considerá-lo um dos mais importantes, porque nele o diretor atinge a excelência no manejo de temáticas e elementos com que trabalhou durante sua carreira: a sexualidade, as taras que se escondem na vida privada do homem burguês, etc.

Hitchcock, a esposa e a equipe de filmagem na Europa dos anos de 1920

A linguagem da câmera, os planos, o próprio nome do filme (Vertigo) – todas essas expressões carregam significados. Na resenha sobre o filme, você fala de como o “modo como imagens e sons se agrupam dizem mais sobre os personagens que o enredo”, exemplificando a primeira cena, em que John Ferguson e Midge Wood se encontram. Quais recursos o diretor utiliza para expressar características dos personagens, além das explicitadas no enredo? E quais são essas características?

Eu tentei pontuar um pouco isso ao longo da resenha (que, aliás, foi escrita numa tarde e não tem qualquer intenção de fechar uma interpretação da obra). Quis dizer que o enredo de Vertigo é básico comparado à excelência com que ele é construído cinematograficamente. Essa cena que você sublinhou, por exemplo. De acordo com o enredo, nela precisamos ficar sabendo que John está doente e recebendo apoio da amiga, que sente por ele um amor platônico. Quantas vezes não ouvimos histórias assim? Isso beira a subliteratura. Porém, o trabalho de Midge, o silêncio com que ela escuta o que lhe fala o homem e o modo como ela o olha quando ele menciona o episódio do casamento, bem como o modo como ela o ampara quando ele despenca da escada, trazem à tona essas ideias de modo incrivelmente conciso e denso, o que torna a cena tão fascinante.
Hitchcock é notório por escolher obras literárias menores para transformar em filmes. Perguntado por Truffaut sobre porque nunca havia adaptado nenhum clássico, afirmou algo como: “Porque essas obras têm muitas palavras e todas são importantes.”. Nós, que somos da Letras, devemos atentar a isso: o diretor percebe que o mundo construído pelos grandes romancistas passa pelas palavras que escolheram utilizar – retirar uma palavra do todo seria destruir a obra. Isso fica claro tão logo vemos as adaptações cinematográficas de Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro – as piores são aquelas que desejam com mais veemência copiar literalmente a obra de Machado de Assis para as telas. Em Vertigo, Hitchcock estava interessado em trabalhar as ideias de modo cinematográfico (o que, aliás, é uma constante na produção dele). Por isso nessa cena faz uso de símbolos para mostrar a força de Midge e a fraqueza de John. O modo como a cena é organizada através da montagem diz mais que quaisquer palavras. Por exemplo (sem nenhuma intenção de fazer uma análise exaustiva): O sutiã que a mulher desenha mostra seu papel empreendedor. Ele não é usado como um símbolo da inferioridade feminina com relação ao homem, mas sim simboliza o papel da mulher que trabalha. Neste sentido, contrapomos Midge e John: ela ganha seu próprio dinheiro, ele foi aposentado por problemas psicológicos. O modo irreverente como ela trata a sexualidade ao longo da cena mostra que ela é assertiva, enquanto a fragilidade de John torna-o passivo. Ao mesmo tempo, vemos que ela ainda é apaixonada por ele. Esses elementos, trabalhados na composição dos quadros dessa cena e na montagem dela, serão trabalhados ao longo do filme – quando Midge cuida de John no manicômio, quando cola seu rosto no corpo da suposta antepassada de Madeleine, no quadro que pinta, etc.


com Janet Leigh (Psicose)

Nesse mesmo post você fala, também, da maneira que, na visão de homem apaixonado de John, a mulher “misteriosa” se assemelha a um objeto de arte. Quando isso acontece e quais os símbolos responsáveis por tal interpretação?

Hitchcock emoldura a personagem de Kim Novak – você percebeu isso bem ao apontar, abaixo, a moldura que envolve o perfil da atriz, assemelhando-a a uma estátua grega. Isso também é patente na cena da floricultura e, imediatamente depois, na do museu de arte. A composição de imagens nessas duas cenas se assemelha: Na primeira, John abre uma porta no final do beco e dá num lugar incrivelmente florido; na segunda, a fria construção do museu recebe um quadro de temática e cores análogas. Ambos os lugares convidam o mergulho na imagem (o mergulho na ficção, por parte do personagem principal que observa a cena e por parte do espectador, que, por tabela, a vê). Isso também pode ser lido como uma metáfora no mergulho do espectador no objeto produzido pela Sétima Arte: teóricos na época ressaltavam o papel da montagem cinematográfica na identificação do espectador com a história apresentada nas telas. Lembra-se da Rosa Púrpura do Cairo, quando a personagem de Cecília é convidada pelo mocinho do filme a entrar na tela? Woody Allen tornou literal a metáfora da projeção do espectador no filme.

Em várias cenas, as molduras são presentes no cenário (em alguns, com abundância). Na cena em que John vê Madeleine, pela primeira vez, há um momento em que ela se levanta da mesa, com sutileza, ao fundo uma moldura a envolve. Ela sai da mesa, passa por outra moldura, para e quando sai do restaurante sua imagem está em um espelho. Esses enquadramentos poderiam ser interpretados como uma metáfora do “segredo” do filme?

Do meu ponto de vista, essas composições sugerem o mistério que envolve a personagem (já que o mistério que a circunda é criado primeiramente pelo suposto marido dela e em seguida pelo próprio John); o romantismo com que o protagonista a observa; e, em última instância, a existência da mulher apenas enquanto construção ficcional – já que, como uma pintura, ela é apenas fruto da interpretação de alguém. Neste sentido, creio que podemos dizer que isso metaforiza o segredo do filme, sim.

Você diz que “Madeleine não é apenas uma mulher fugidia, ela é uma mulher que não existe (para perceber isso logo do princípio, o espectador precisa ver o filme uma segunda vez)”. Gostaria que você explicasse o porquê da afirmação de que “o espectador precisa ver o filme uma segunda vez” e falasse mais do envolvimento do telespectador, manipulado, ou não por Hitchcock.

Bem, eu escrevi o texto quando já tinha visto o filme umas dez vezes pelo menos. Uma obra de substância como essa vai se revelando para os espectadores aos poucos. Só prestamos atenção na relação entre o elemento pictórico e a ironia que envolve a personagem, por exemplo, quando já conhecemos o final da história – ou seja, depois que já sabemos que a misteriosa Madeleine não passava de uma simplória vendedora, e que a imagem de mistério dela foi construída para nós, como um pintor bom corrige as imperfeições de uma pessoa ao desenhá-la. Ao vermos o filme pela primeira vez, somos enganados tanto quanto Johnny. Depois de o vermos algumas vezes, conseguimos organizar seus símbolos em direção a uma interpretação. Sobre a manipulação do cinema, lembro os debates fomentados por Béla Balázs e Edgar Morin sobre o modo como a montagem direciona o olhar do espectador. No cinema, somos levados a enxergar com os olhos das personagens: quando uma personagem olha para determinado objeto, nós também o olhamos. Isso acontece pela alternância entre as objetivas indiretas (o olhar da câmera aos objetos) e as subjetivas diretas (o olhar do personagem aos objetos) – por exemplo, a câmera focaliza o personagem e, em seguida, focaliza o que ele vê. Esse movimento contínuo faz com que tenhamos a sensação de estarmos do filme, daí nossa identificação – ou seja, daí a sermos manipulados pelo diretor, já que é ele o responsável por organizar os olhares aos personagens, às coisas e os olhares dos personagens às coisas.
Hitchcock e Ingrid Bergman

sábado, 6 de agosto de 2011

“O Astro” até agora: o remake do clássico de Janete Clair patenteia a sobrevida do melodrama

Em comemoração aos 60 anos de teledramaturgia, a Globo estreou, em meados de julho, uma versão do grande sucesso teledramatúrgico de Janete Clair veiculado pela emissora entre 1977 e 1978. A escolha é simbólica. Janete teve papel decisivo no abrasileiramento da telenovela. Escreveu folhetins memoráveis, lembrados até hoje com entusiasmo pelos amantes do gênero, como “Irmãos Coragem” (1970-1), “Selva de Pedra” (1972-3), “Pecado Capital” (1975-6). Povoou o imaginário coletivo com dezenas de personagens marcantes e, graças à sua competência como escritora, conseguiu segurar grossas parcelas do público em frente à tela, aguardando ansioso pelas peripécias de Regina Duarte, Francisco Cuoco, Cláudio Marzo, Cláudio Cavalcanti, Tarcísio Meira, Dina Sfat – nomes que ela ajudou a alçar ao estrelato. Os curiosos das novas gerações podem conferir a genialidade da “maga das oito” por meio da compilação de “Irmãos Coragem” lançada há pouco em DVD. Embora a edição tenha enxugado ao extremo a história, pode-se ainda perceber a qualidade de sua construção dramatúrgica: a boa dosagem de humor e drama, a contundência dos diálogos, a beleza dos sentimentos colocados em cena com simplicidade. O material convida o espectador de hoje a mergulhar naquele fim de anos 70, época em que a indústria cultural ainda estava envolta no romantismo das fotonovelas e as mocinhas de família projetavam-se nas heroínas puras e lutadoras das novelas da TV.

Janete Clair é, enfim, extremamente merecedora da homenagem que a Rede Globo lhe está fazendo; ainda mais porque a homenagem vem casada com o retorno à telinha de Cuoco, Reginaldo Faria, Regina, e com o desejo da emissora de injetar seiva nova nesse gênero tão importante e tão maltratado que é a telenovela. Só por aí a Globo já merece os parabéns – cumprimentos devidamente estendidos a Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, autores principais da nova trama, aos colaboradores Tarcísio Lara Puiati e Vitor Oliveira e ao diretor Mauro Mendonça Filho.
Não bastasse isso, a escolha da produção a ganhar nova versão foi igualmente acertada – discípulos de Walter Mercado e David Copperfield ainda incitam a curiosidade do público, mesmo que as previsões furadas e os Mister Ms constantemente os coloquem em ridículo. Há que se considerar igualmente o fato de a trama se passar no ambiente urbano, o que permite inúmeros desdobramentos contemporâneos às personagens modernas criadas por Janete: a Amanda Mello Assumpção original (Dina Sfat) era diretora da construtora da família num momento em que mulher não costumava ocupar cargo de liderança no mercado de trabalho; Lili (Elisabeth Savalla) era uma taxista num momento em que se acreditava que mulher só servia para pilotar o fogão; Clô tinha a coragem de botar um ponto final no casamento opressivo e se envolver com um homem mais jovem.

Mulher independente e à frente de seu tempo, Janete construía em suas tramas desdobramentos de si. Os novos autores de “O Astro”, conhecedores da importância da escritora, debruçaram-se com devoção em seu universo. Isso ficou patente logo no princípio da trama, na escalação de Francisco Cuoco – o Herculano Quintanilha original – como o mentor do protagonista, passada simbólica de bastão para Rodrigo Lombardi; na apropriação de canções da trama original, as quais já estão no inconsciente do público, cooperando na identificação dele com a nova trama; no dinamismo dado aos episódios narrados, coalhados de perseguições, gritarias e diálogos lancinantes, pelos quais desfilam sobretudo personagens tipificadas; na apresentação rápida e irrefutável dos pares românticos principais (Amanda e Herculano/ Lili e Márcio).
No entanto, esse respeito extremo à obra da escritora acabou por deixar o resultado final em certa medida problemático. Tento, a partir de agora, desdobrar essa constatação em argumentos. Por uma porção de motivos: porque a nova proposta de dramaturgia que a novela a princípio encerrava parecia ter surgido como resultado direto do sucesso de crítica e público da reprise de “Vale Tudo”; porque ela trazia de novo à programação aberta da emissora a nossa grande Regina Duarte, criadora de duas antológicas personagens com as quais o público teve e está tendo o privilégio de conviver: Raquel e Porcina; porque sou noveleira desde pequenininha e queria novamente desfrutar de uma trama de qualidade.
Concentro-me num ponto mais geral: o anacronismo da trama. O mundo criado por Janete Clair tem laços fortes demais com os anos 70: anteriores ao divórcio; quando a mulher ensaiava a competição com o homem no mercado de trabalho; época em que, embora existisse a pílula anticoncepcional, a sexualidade feminina ainda era assunto tabu. Naquele contexto, personagens como Lili e Amanda eram moderníssimas. O novo “Astro” toma como cenário o Rio de Janeiro de 2011, mas claudica na construção das mulheres de 2011.
Exemplos: Amanda se apaixonou perdidamente por Herculano, mas é obrigada a se casar – ou melhor, “se vender”, como ela mesma diz – ao vilânico Samir Hayalla, que deseja possuir/humilhar/submeter (todas as palavras retiradas da trama) sua Bonequinha de Luxo. A delicada Jôse ama Márcio incondicionalmente, mas o perde para Lili. Ela se descabela com a rejeição, o vitupera quando ouve que ele está apaixonado por outra; e um capítulo mais tarde hospeda-o em sua casa, joga-se infantilmente em seus braços, compra-lhe roupas, um trompete, recebendo em troca o infame: “Não alimente nenhuma esperança. Não vamos voltar a namorar.”. A personagem de Bel Kutner é amante de outro escroque da família Hayalla. Depois de lhe anunciar sua gravidez, chora desalentada porque ele lhe diz cinicamente que vai financiar apenas seu abordo e que ela é obrigada a fazê-lo. Amanda – Alinne Morais – por enquanto é uma brisa leve na trama. Ela está natural e graciosa, porém, tem a consciência de uma menininha de 12 anos. “Será que se chama ‘amor’ isso que estou sentindo por ele?”, pergunta ela à amiga sobre Salomão. A química entre ambos é zero – sua dúvida é a da menina que está descobrindo o amor, não da mulher feita que é, exteriormente, um vulcão de sensualidade. Sem contar a personagem de Guilhermina Guinle, escrava sexual de Samir – tanto que é arrendada por ele para servir a cama do negociante chinês.

Meu Deus, que mulheres são essas? Pobres desafortunadas possuídas, comandadas, tuteladas pelos homens! Isso é José de Alencar, D'Ennery, Joaquim Manuel de Macedo. Não pode ser, não deve ser, não é a mulher do século XXI. As mulheres do melodrama convencional (em O Melodrama, Thomasseau rotula esta personagem-tipo de “inocência perseguida”) estão a anos-luz da brasileira de hoje. De mim, pelo menos. As mocinhas indefesas de “O Astro” precisariam fazer um workshop com a Solange de “Vale Tudo”. Representação e realidade sairiam ganhando se a Raquel Accioli desse um de seus cestos de sanduíche para a Amanda Assunção ir vender na praia. Aliás, do conjunto de personagens femininas felizmente se salva a personagem de Clô Hayalla. Espevitada, irascível, perua, mimada e, acima de tudo, digna de aplausos porque parece ser a única que é dona de seu próprio corpo – e ela se deita com o homem mais lindo da trama, não porque o ama, mas porque o deseja. O fato de ela ser interpretada por uma Regina Duarte totalmente entregue aos arroubos de sua criação me faz duplamente feliz.
Não vi “O Astro” original, mas, pelo respeito que Janete tinha às suas personagens, não acredito que coisas do tipo lá estivessem. Pelo menos não na intensidade ou conotação com que aparecem no remake. Estou me lembrando de passagem da Ritinha de “Irmãos Coragem”, que deixa o marido e vai trabalhar para sustentar a filha quando descobre que ele a trai; de Lara, que na mesma novela se torna Diana e Márcia, desdobrando sua personalidade para lidar com o pai castrador; de Rosana Reis, que em “Selva de Pedra” diz com altivez ao juiz e ao marido:

A minha verdade é que Simone Marques morreu de fato naquele acidente. Esta pessoa que aqui está, embora de agora em diante seja obrigada a usar documentos de identidade de Simone, não tem nada a ver com ela. Eu me chamo realmente Rosana Reis, uma pessoa que nem conheceu Simone e que apenas sente por ela uma profunda piedade.


Isso é ser protagonista da própria vida, tomá-la nas mãos ao invés de se entregar em holocausto a um suposto destino inexorável, como estão prestes a fazer várias personagens de “O Astro”. Por mais que o tema seja o supra-real, o tratamento dele precisa ter algum lastro com a realidade carioca de 2011, lugar e tempo explícitos da trama. É certo que o romantismo rasgado, a construção maniqueísta das personagens, as reviravoltas e o exagero na explicitação dos sentimentos são marcas da obra de Janete Clair. Neste caso, talvez fosse necessário um pouco menos de homenagem e um pouco mais de autoria para que a novela dialogasse com o novo momento histórico que ela busca tematizar. Explico-me por meio de uma cena tomada ao léu: Amanda está prestes a deixar Herculano para se casar com seu arquiinimigo. Ela o visita em seu camarim:

AMANDA – Se eu sair por esta porta pode ser que eu não volte nunca mais. Não me deixa sair dos seus braços.
HERCULANO – Eu só queria colher o grito pleno da tua alma cheia de tormentos.

AMANDA – Não me suprime a tua luz, meu amor.


O diálogo puramente mental, que serviria para simbolizar a comunhão das almas dos amantes, acaba soando pomposo e antiquado. Pode-se retrucar que ele saiu literalmente da pena de Janete Clair. É possível que sim. No entanto, não se deve esquecer que a década do desaparecimento da autora foi também a de nascimento de dois clássicos da teledramaturgia moderna: “Roque Santeiro” (1985) e “Vale Tudo” (1988). A importância fundamental de ambas as telenovelas para o folhetim televisivo foi mostrar as fissuras do gênero melodramático. Não se é mais possível utilizar impunemente a estrutura do dramalhão. Não depois que o mau-caráter charmoso César Ribeiro motivou no público os sentimentos ambíguos de admiração e revolta; depois que o público conviveu por meses com a afeição genuína que ele e a alpinista social Maria de Fátima nutriam um pelo outro; ou que o bandido Marco Aurélio mandou uma banana ao Brasil – e, por tabela, ao espectador –, explicitando quão retrógrada era a concepção melodramática de punição do vilão e vitória do mocinho.
Isso não é negar a importância de Janete Clair na teledramaturgia, mas sim inserir a autora em seu momento histórico: do fim dos anos 60 ao começo dos 80. Foi mesmo uma pena nós a termos perdido tão cedo, pois certamente ela também contribuiria na revolução do gênero. Isso considerado, fecho a questão – ao menos por hora – com um comentário afiado que minha mãe fez dias atrás, quando conversávamos sobre as coisas que apresentei acima: “Inteligente como Janete Clair era, se ela não tivesse morrido com certeza teria evoluído com o tempo.”. D. Nelly ficou profundamente incomodada com o encaminhamento dado à trama, tanto que, depois de duas semanas, se recusou a continuar “perdendo o tempo” com ela. Considerando-se que é noveleira desde menina e foi espectadora assídua da obra da autora (ela viu “O Astro” original de cabo a rabo), essa sua conclusão dá o que pensar.

*

A resenha foi terminada na metade da semana. Ontem a novela foi irretocável porque deixou em segundo plano o dramalhão rasgado: baixou o tom grandiloquente das personagens, permitindo que algumas delas se desenvolvessem para além da superfície (Márcio saiu beneficiado; Adolfo Mello Assumpção também e Clô mais ainda – Regina está com sorte, sua personagem é a que tem mais nuances); e, o principal, inseriu na mistura uma bem vinda dose de humor – como sempre digo aqui: o melodrama convencional só pode ser ressuscitado a contento, nos dias de hoje, pelo viés do humor. Torço de coração para continuar rindo “com” a novela (como fiz ontem), e não “da” novela (como fiz uma porção de vezes nas últimas semanas).