quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Na trilha das Reginas


Nestas férias de julho, fiz as malas e embarquei de improviso ao Rio de Janeiro para ver em cena Regina Duarte. Na boca, aquele conhecido gosto de timidez da mulher que, mesmo crescida, ainda teima em viver de sonhos.
Regina entrou em minha vida em meados de 2010 pelas mãos de Porcina. Entrou, não: tomou-a de assalto, invadiu-a sem me dar chances de defesa. Se acham que exagero, passem os olhos por algum DVD da caixa de “Roque Santeiro”, lançada recentemente pela Globo, e observem-na em ação. Há ali dentro 60 horas da maior demonstração de respeito pelo espectador. Desfila a multíplice Porcina: hilariamente enternecedora, ridiculamente maravilhosa, malucamente sensata; a provocar o riso aberto da audiência ao mesmo tempo em que bole com suas entranhas, emocionando-a no mais alto grau. 
Após a experiência eu nunca mais fui a mesma. Tanto que saí no encalço da dona de minha musa-mor, com sede de vê-la repetir aquela escandalosa doação de si, agora na pele de outras personagens. Virei garimpadora de preciosidades do passado. Encontrei muitas Reginas, desdobradas em mulheres fortes, frágeis, loucas, enamoradas, leais (sobre algumas eu falei aqui – os leitores frequentes sabem como sou prolixa no que toca aos meus objetos de devoção). E encontrei-me: tornava-me de novo a menina apaixonada por telenovelas que eu um dia fora. Apaixonada e ludibriada: minha saga rumo ao encontro da criadora de ilusões revela com força esse abandono tão infantil quanto deleitante às sombras reais - meu Deus, tão absurdamente reais - criadas pela arte. 

Rio, 19 de julho. No palco do Centro Cultural Banco do Brasil, Regina desdobra-se em duas raimundas díspares: na centenária habitante de um mundo em ruínas que lembra aquele retratado lugubremente em “A última Esperança da Terra” (1971), com Charlton Heston; e na cearense de lábios leporinos conduzida à riqueza e ao desespero por uma sorte mais madrasta que mãe. Com ela no palco, oito rapazes belos e talentosos, todavia, obnubilados pela luz que ela irradia. As duas partes da peça são interessantes, a segunda é hilária, mas mesmo toda a graça não nos impede de ficar comovidos com o modo peculiar como Regina dá voz ao texto escrito. Mulher pequenina que é, ela cresce no palco mais ainda por conta de sua voz que de seu jogo corporal. Há algo no volume de sua voz, em seu timbre e fraseado, que parece torná-la talhada à poesia. E então comemoro em silêncio a agudeza da D. Maria Sylvia, a professora de declamação (agora já uma querida), por ter percebido e ajudado a reverberar a luz que a menina provinciana trazia dentro de si. Quem fala é a insensata Raimundinha cearense, transformada pelas circunstâncias na cosmopolita Raymonde, mas no acento e nos trejeitos de Regina eu só vejo a minha Porcina, e dou graças ao deus do teatro por materializá-la diante de mim.

Vestindo-se de Raimunda para "raimunda, raimunda", de Francisco Pereira da Silva

Mas aí vamos para os bastidores e descobrimos que a melhor parte do espetáculo ainda estava por vir. Regina pessoalmente é tão atenciosa como sua Raquel, tão meiga quanto Ritinha e louca, louquíssima como Porcina. Num texto muito dileto de Regina, Chico de Assis narra o ofício do ator: a identificação com o papel surge tímida a princípio; pouco a pouco, sem que se dê conta, o artista despersonaliza-se na direção daquele outro que com o tempo se torna tão ele. Chegado ao fim o trabalho, resta ao artista a tarefa de se despir deste ser do qual já está tão impregnado e vestir a túnica abandonada de seu “eu”. A árdua tarefa só se realiza completamente quando outra criatura de papel bate às portas do artista, clamando por se fazer carne. E lá vai ele, humildemente, triunfantemente, novamente outro. Que “eu” resiste a abandono tão grande? Não resiste. Cansado de ser posto de lado, aceita um pequenino espaço no ser já repleto. Regina Duarte é Porcina, Ritinha, Raquel, Helena, e uma carreira de outras, para a alegria dos fãs que querem, ao tocá-la, ver presentificado o sonho criado pela tevê. 


No camarim de Regina, na Exposição "Espelho da Arte, a atriz e seu tempo"

Em 21 de agosto, tenho nova chance de vê-la. É o evento de abertura da Exposição em homenagem aos seus 50 anos de carreira, idealizada por Ivan Izzo, seu admirador desde a infância e agora amigo. A dona da festa surge solicitada como nunca, recebendo dos convidados presentes a retribuição de tudo o que ela lhes deu ao longo de meio século de carreira. Depois de um show estonteante de Zizi Possi, que a ajudou a dar voz à sua eterna Helena de “Por Amor”, Regina sobe ao palco e invoca o texto de Chico de Assis, tradução brilhante do fazer artístico. Ela corta a faixa inaugural, perco-a de vista, mas novamente a encontro no recinto da Exposição: espalhada, multiplicada em tantas outras que a transformaram na Regina que ela agora é. 
O passeio pelas salas-cenários, com seus objetos cênicos originais e recriados, dá-me a sensação de viver também as histórias que ela tão bem soube encarnar. Na sala de jantar dos anos 50, a tevê sintoniza a menina cujo sorriso lindo vende pasta de dente. Ao seu lado, escancarado, o quarto da minha musa: turbantes, bijousfrou-frous e vestido de paetês azuis inclusos. Um pouco mais adiante, numa sala dos anos 70, descubro-a par romântico de Antonio Fagundes numa novela censurada de 76. Nos cenários de Regina, vivo pela primeira vez muitas de suas vidas. A onisciência é tão sedutora que desejo repeti-la um dia mais. 
No quarto dela

No dia seguinte, a casa de Regina abre-se ao público. Depois de passar pela sua sala de cinema, sou atraída para o teatro. Em cartaz, o maravilhoso monólogo de Segismundo que fecha a segunda jornada de “A Vida é Sonho” (92), peça montada pela atriz quando eu ainda era moleca. E aí, tenho novamente a sensação de que o elemento de Regina é a poesia. “Remonta ‘A Vida é Sonho’, Regina!”, estou a dizer quase em voz alta, quando ouço atrás de mim a voz tão conhecida. Viro-me, e lá está ela. Mas não é ela! É Rosana Reis, Segismundo, ou quem sabe alguém outro, que ainda está em vias de acontecer e palmilha a casa de Regina no Centro Cultural dos Correios para se inspirar. É ao lado dela que eu revejo toda a exposição, agora calmamente, tornando-me ao mesmo tempo protagonista das tantas histórias por ela vividas e público do espetáculo que ela apresenta para mim – para mim e para todos os demais que visitam a exposição e a reconhecem. Vejo-a da distância, não ouso quebrar a quarta parede. Ser seu público já é suficientemente empolgante, ainda mais enquanto ela, atrevida, esgarça os fios que separam ficção e realidade. Regina-Segismundo. Afinal, “que é a vida? Uma ilusão... toda a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são.” 
Em "A Vida é Sonho", de Calderón
Fonte: http://www.eternamenteregina.com/2011/11/do-facebook-do-ivan.html 


 * 
O post acompanha agradecimentos. Começando pelo Edison, companheiro de bordejos aos cinemas e teatros e na preparação de um livro que acabou saindo melhor que a encomenda; à Kelly, que ele me apresentou no outro dia e já virou minha melhor amiga de infância; à Aninha, amiga virtual que se tornou muito real, e à Andreia, amiga por tabela; à Márcia, de quem recebi o convite para a Exposição, e ao Ivan Izzo e à Raquel Duarte, que tornaram o convite possível.

24 comentários:

Marcelo C,M disse...

“Roque Santeiro” era um exemplo dos bons tempos de novela com qualidade e não essas que podem facilmente serem descartadas.

Danielle Carvalho disse...

Apoiado, Marcelo! Se bem que "Avenida Brasil" tá dando um banho, né? Mas "Roque..." é "Roque..."!

Maurette disse...

Danielle, Danielle
Quantas Danis você é? Poeta, romancista, psicóloga, teledramaturga, crítica, ensaísta... Um primor de texto, um primor de humanidade, um primor de entendimento da dimensão humana. Mais que tudo, um primor de verdade da alma. Senti muitas coisas a cada parágrafo seu, as emoções várias de seu encontro com Regina, a alegria de ter compartilhado contigo parte dessa viagem e um enorme orgulho, que também é um imenso prazer, de privar da sua amizade. Bravo, bravíssimo! Valeram cada uma das lágrimas que suas palavras me arrancaram agora!
Beijo grande
Maurette

Danielle Carvalho disse...

Maurette, minha querida, que lindo o seu comentário. Agora quem ficou comovida fui eu! Foi, da minha parte também, uma alegria incrível ter tido você ao meu lado nesses dois (ou melhor três :D) dias tão especiais. Regina é surpreendente, né? Ela tornou cada um desses dias digno de nota.

Bjinhos
Dani

Edison Eduardo d:-) disse...

Danielle Carvalho....

Volto aqui pra atender ao seu pedido: Eu sou suspeitíssimo pra falar das resenhas fantásticas q vc escreve, conheço bem pela múltiplas trocas de e-mails e resoluções de histórias do livro q juntos fizemos, e sei q não poderia deixar de ser diferente com a sua mais nova e grande paixão, Porcina Duarte!!! Amei o texto, é claro...

Quero agradecer mais uma vez a amizade, a oportunidade de vir aqui e estar sempre podendo seus bons textos (apesar d agora estar completamente assoberbado)...

Tb a sorte de encontrá-la aos risos na ruya com a Maurete e me avisar do que estava se passando no primeiro dia da expo da Regina... Ehehehe! Aquele comentário no nosso blog é dela mesmo, viu?

BJos! MiL!!!
Edison Eduarddo ...em transição

Danielle Carvalho disse...

Ah, obrigada por voltar aqui pra comentar, Edison, mesmo com a correria e tudo.

E obrigada pelas palavras carinhosas ao post! Fiquei feliz em deixar registrado esse capítulo da minha vida, e mais feliz ainda porque a musa o leu! "Porcina Duarte" - adorei, e é bem isso ;D

E que coincidência foi o nosso encontro na rua naquele dia? Infelizmente não nos vimos uns 10 minutos mais cedo...

Bjs e pode sempre contar comigo, viu, on e off fã-clube.
Dani

Danielle Carvalho disse...

Recebi uma porção de feedbacks pelo Facebook, que colarei abaixo, porque adoro eternizar as coisas.

Mas estou feliz mesmo porque Regina comentou o texto, que o Edison publicou aqui: http://www.eternamenteregina.com/2012/08/impressoes-de-danielle_933.html

Danielle Carvalho disse...

29/8
Marcia Elizei disse: Sem palavras Dani! Seria possível copiar e colar esse post no ETERNAMENTE REGINA? Aplausos de pé!!!

Ana Luísa F. Moura disse: Dani tu é ótima!!! Nem preciso dizer que amei, né?? Excelente post!! Parabéns :D

Ivan Bellangero Izzo disse: Me emocionei mui-to! Lindo, lindo,lindo ! Parabéns!!!


30/8
Rosangela Rosa de Oliveira disse: Bela homenagem. Parabéns.

Thalya Oliveira disse: Lindo texto! Veio da alma, empolgante, passa tudo o que você sentiu ao escrever! Parabéns!!!!!

Natália Demori disse: Lindo! Ameeei...

Edison Eduardo disse: Ah, Danielle Carvalho.... Eu suspeitíssimo pra falar! Vc escreve fantasticamente, sei muito bem disso, e não poderia deixar de ser com uma grande paixão Porcina Duarte!!! Amei o texto, é claro...

Kelly Rejane Araújo disse: ‎Danielle Carvalho, imprimir para ler no caminho da aula e acabei circulando entre os amigos. Você sabe equilibrar as palavras de um coração de fã com muita razão e sensibilidade. Parabéns!

Alice Gonçalves Silva disse: ESPETACULAR!!

Muito feliz e agradecida pelas respostas!

Danielle Carvalho disse...

Regina Blois Duarte disse...
Daniele queridaaaa!
Fico sem palavras p agradecer tanto carinho!
Fique com minha gratidão e afeto, sempre!
Bjs
Regina
30 de agosto de 2012 13:25

Edison Eduardo d:-) disse...

Realmente é muito interessante (para os amantes das artes) poder estar vivenciando a história de uma atriz (tão querida e famosa) assim tão próximo...

Quero agradecer pelo link para o www.eternamenteregina.com

Edison Eduardo d:-)

Danielle Carvalho disse...

O formato da Exposição é um sucesso! Queria saber quem teve a ideia brilhante de transformá-lo naquela sucessão de cenários. É aí, desde meu ponto de vista, que a exposição sobre Elis Regina peca. Há lá informações preciosas, mas num formato bem convencional de museu/ biblioteca.

E é um prazer divulgar o blog, Edison! Você vai continuar a atualizá-lo, né?

Bjos e inté mais!
Dani

Anônimo disse...

O Dani!!!

Adorei o post, as fotos, as palavras, tudinho!!!

Tudo que sentimos no dia 21 de Agosto foi muito bem descrito por voce! E nao só no dia 21, mas tudo que sentimos já há tempos por essa mulher escandalosamente linda e querida!

Só de pensar que todas as novas amizades formaram-se, primeiramente, por um único motivo importantíssimo e digno: Regina Duarte e suas mil faces, já é visto que devemos mais uma a nossa musa inspiradora!!!

Obs.: Vc escreve bem pra caramba menina! Parabéns!

Beijos,

Aninha

Danielle Carvalho disse...

Maurette disse (lá no "Eternamente"...)...
Dani, você é um show mesmo: poeta, psicóloga, filósofa... este post é não só belo quanto comovente, terno, profundo. Você atinge uma dimensão de Regina que poucos conseguem atingir. Amei de verdade! Muitos muitos parabéns!
Maurette

31 de agosto de 2012 13:07

Danielle Carvalho disse...

Aninha, querida, que bom que você passou por aqui pessoalmente. Precisamos agradecer muito a Regina por nós termos nos conhecido! Foi uma honra (e uma diversão) estar ao seu lado, e ao lado da Andrea, nesses dois momentos. Não só neles, mas nossas andanças pelo centro e pela orla.
Muito obrigada por suas palavras ao texto e muitas, muitas felicidades pra você!

Bjos
Dani

disse...

Aventuras de férias! Gostei muito de Regina o ano passado em O Astro, que bom que você teve oportunidade de estar perto de sua ídola!
A Bienal foi bem obrigada.
Você está muito chique no quaro da viúva Porcina, Dani. Tô certa ou tô errada?
Beijos!

Danielle Carvalho disse...

E que aventura, né, Lê? Regina pessoalmente é uma graça de pessoa. Foi uma honra conhecê-la.

Mas a sua aventura não ficou atrás não, hein! Não deixe de nos atualizar sobre a Bienal em seu blog. Estou curiosa, e torcendo sempre para seu sucesso!

Bjinhos

Jefferson C. Vendrame disse...

Oi Dani, muito interessante seu texto , sobre "seu amor" por essa grande atriz que é Regina Duarte.
Não assisti Roque Santeiro mas já andei dando uma olhada no Youtube e a novela realmente parece ser muito boa.
Da mesma maneira que você tem admiração por esse folhetim e por sua principal intérprete eu tenho por TIETA de 1989 e Betty Faria, inclusive estou prestes a comprar os dvds que foram recém lançados.

Grande Abraço,

disse...

Passo aqui para avisar que tem um selinho em meu blog esperando por você! Beijos!

Danielle Carvalho disse...

Jefferson, de "Tieta" eu lembro razoavelmente bem da época (eu já era maiorzinha). Gostava muito! A Globo fazia novelas muito boas naquela época... Mas "Roque..." é hours concours. E Regina é uma danada! Vc é de S. Paulo, né? Então veja-a no teatro - logo mais a peça dela chega à cidade.

Lê, sua linda, obrigada! Vou passar lá sim.

Bjs

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Olá, parceira, depois de umas pequenas férias, O FALCÃO MALTÊS está de volta, disposto a continuar celebrando sua paixão pelo cinema clássico.
Belíssimo post, Dani. Gosto muito de Regina Duarte.

Cumprimentos cinéfilos!

O Falcão Maltês

Maria Regina de Souza disse...

Gosto muito de ler o que escreve, e hoje tive a grata surpresa de estar falando da Regina Duarte, uma grande atriz! Parabéns! Um abraço

Danielle Carvalho disse...

Maria Regina, muito obrigada! Fico tão feliz quando recebo pela primeira vez um comentário de alguém que diz que costuma ler o blog!

Antonio, férias nada porque você estava trabalhando, né? Agora que as coisas estão um pouquinho mais tranquilas por aqui vou retomar a leitura do Falcão!

Bjs
Dani

locutordamadrugada disse...

Olá Dani...que feliz coincidência chegar até aqui.Dia destes vi o Lima Duarte interpretando um texto do meu querido amigo Chico de Assis que fez a direçãodo espetáculo ÓPERA DO MALANDRO aqui em Americana .Comecei a pesquisar sobre o texto e cheguei aqui no seu blog.Que suavidade, que gostoso ler tudo que li.Parabéns.
Gostaria de deixar registrado ainda que conheci a Regina Duarte no camarim qdo ela estava em cartaz em São Paulo como espetáculo SANTO INQUERITO. Fui entrevistá-la e fiquei pensando essa mulher "frágil" não vai dar conta qdo se apresentar em Americana no cine-teatro para mais de 1.000 pessoas. E deu. Com sua vóz firme ecoando por todas as paredes. Noite fantástica. Noite inesquecível.

Danielle Carvalho disse...

Locutor da Madrugada, nos encontramos novamente! Pois que baita coincidência mesmo.
Esse texto do Chico é incrível. Pelo que sei, Regina tomou conhecimento dele por meio de Lima Duarte. Como ele é seu amigo, dê-lhe meus parabéns pela sensibilidade!
Regina tem muita força escondida em seu corpo pequenino. Imagino como ela arrasou no Santo Inquérito. Em tempo, a exposição a respeito da carreira dela segue este mês para S. Paulo. Nela há vídeos de diversas peças teatrais das quais ela tomou parte. Eu não a perderia.

Abraços. Foi um prazer tornar a falar contigo. Muito agradecida por suas palavras delicadas ao meu post!
Dani