segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Rainha da Sucata em Paris

Arte: Thalya Tuany e Natália Demori. 

Indicação da imagem: Thalya Tuany 
Assistindo apaixonadamente à “Rainha da Sucata” (de Sílvio de Abreu, dirigida por Jorge Fernando, 1990), essa querida que me acompanha nas refeições durante as quais, em Valinhos, eu papeio pelos cotovelos com a família. 
O blog não poderia abordá-la por outro viés que não o que se refere ao diálogo (intenso) que ela estabelece com a Sétima Arte. Segue então o post, de forma meio elíptica, a única que a correria do momento me permitiu engendrar...: 



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Maria do Carmo/Regina Duarte relembra ao noivo sobre a malfadada festa de formatura do Ginásio, onde Edu/Tony Ramos, seu par, confabulou com os colegas para fazê-la passar vergonha: Carrie, a estranha (1976). 

Indicação da imagem: Thalya Tuany
Paula Ramos/Cláudia Ohana descobre que Edu, o bêbado que tentou suicídio e ficou dependurado no luminoso da “Sucata”, é um playboy filho de uma família tradicional e falida. Ela o sequestra para entrevistá-lo (ligeira semelhança com Jejum de Amor, 1940, no qual os jornalistas Cary Grant/Rosalind Russel praticamente mantém em cativeiro o presidiário fugitivo para conseguirem dele a entrevista que dará ao homem a liberdade e a eles a notoriedade). Depois ela conta a Edu que cresceu num orfanato, mas conseguiu se formar graças à ajuda de um doador anônimo, que pedia no lugar pra não ser anunciado: Papai Pernilongo (1955). 

Maria do Carmo tem um namorado bonitão (Gerson/ Gerson Brener) que ela visivelmente domina – tanto financeiramente quanto sexualmente. Deixa claro que é sua dona, que vai comprá-lo pra si. Isso remete a Alvorada do amor (1929), em que Jeanette Macdonald é rainha de um pequeno país e acaba laçando o bonitão Chevalier. Uma sequência é muito semelhante: quando Maria afirma que quer o marido fazendo ginástica em casa o dia todo e a esperando tinindo pra quando ela voltasse do trabalho de noite. Reparem na data de lançamento de Alvorada..., 1929 (!). Pouco tempo depois essas alusões picantes começariam a ser proibidas pelo Hays Code. 


Adriana/Cláudia Raia e o prof. Caio/Antonio Fagundes são uma mistura de dois filmes que se conversam muito, Levada da Breca (1938) e Essa pequena é uma parada (1972), em que os pares românticos são Katherine Hepburn/Cary Grant e Barbra Streisand/Ryon O’Neal – o diretor desse último, aliás, recebeu críticas na época pela suposta apropriação do primeiro. Sua noiva chata e sem graça, Eunice/Marisa Orth, é até mesmo nomeada segundo a personagem do segundo filme. A primeira tomada do prof. é totalmente tributária do filme 1, apropriação parodística (“Silêncio, o professor está pensando.”, com ele, do alto de uma escada, olhando para o esqueleto de um dinossauro). 
Caio e Adriana primeiro se encontram numa festa onde acontece uma confusão semelhante à sequência hilária do filme 2, com a fuga dos dois num carro. Depois ele vai jogar golfe e a encontra lá (filme 1). Antes disso, no entanto, ela sai de um bolo no melhor estilo Marilyn Monroe, notória pelos “Parabéns” eróticos que cantou pro Kennedy. No que se refere ao bolo, não dá pra esquecer também que a Kathy Selden de Cantando na chuva (1952) sai de um bolo, dança e depois dá uma tortada por engano na cara da atriz desafinada. Nessa cena de “Rainha da Sucata” há também um bolo que vai por engano pra cara do homenageado. 

Maria do Carmo fala com Edu pela primeira vez depois da adolescência. Ambos são sequestrados, numa sequência dinâmica que acaba na cena de Aconteceu naquela noite (1934) em que ela tem de levantar a saia pra pedir carona. A cena é ainda mais hilária, já que a saia dela está rasgada até na cintura e os dois estão amarrados. 

Maria do Carmo pede emprestado o apartamento de Renato/Daniel Filho pra se encontrar com o namorado. Ele fica desgostoso, mas se vê obrigado a emprestar, já que a mulher é sua patroa: Se meu apartamento falasse (1960). 


It happened one night (Aconteceu naquela noite, 1934)

Maria do Carmo se arruma pra sair com o Renato. O corte do vestido dela e os acessórios fazem clara referência à Bonequinha de Luxo (1961). Ao descer a escada, sua mãe diz: “Que luxo!” (!). A Maria do Carmo é, aliás, a própria Miss Hepburn da Bonequinha de Luxo: mesma franjinha, trajes elegantes, personalidade forte e elegância popularesca. 



Raul Cortez é um empregado muito inteligente e empertigado. Anda de um lado pra outro com um livrinho de notas e escreve tudo o que dizem, como fazia o Prof. Higgins. No bairro onde mora Maria, ele tem dificuldade de entender o convite do vendedor de frutas para uma bebida: My fair lady (1964). 

Laurinha Figueroa/Glória Menezes desde o começo me soa como uma dessas megeras criadas pela Bette Davis. O modo como a casa dela é tomada, num travelling que sai de um jardim, passa por debaixo de uma árvore e se encontra com os portões e a fachada da mansão, copiam a estética de clássicos do noir e do suspense, como Rebeca, a mulher inesquecível (1940) ou A Carta (1939), em que a presença da casa é mais contundente e a personagem forte feminina é tão dúbia quanto a posuda Laurinha. A música (a linda “A mais bonita”, de Chico, cantada pela Bethânia) e o aspecto bucólico ajudam a construir a personalidade dissimulada da mulher: naquela casa aparentemente tranquila moravam muitos segredos...


Marianna/Renata Sorrah não deve nada, em aparência, à Bette Davis da primeira parte de A estranha passageira (1942), filme, aliás, a que ela assiste num festival promovido pelo MIS. Eu só pensei na referência depois da menção do filme, mas o certo é que ela se sustenta em parte: a moça é delicada, retraída e tem um amor platônico pelo Renato. Quando ela vê o filme, se projeta na personagem de Bette depois da transformação dela numa woman of the world (tal qual a Cecília de A rosa púrpura do Cairo (1985), a quem ela copia o corte de cabelo e a cor, diga-se de passagem). 




Vêmo-la e ao Renato numa inspirada versão brasileira da cena final do filme. Quando chega em casa, ainda sonhando, ela se encontra com o homem e, na tentativa de acender 2 cigarros, quase morre engasgada. 
No outro dia, ela chega reproduzindo a cena final de A Carta (“Eu ainda amo o homem que matei.”) e age com Eunice com uma agressividade que é mais da personagem de Davis que dela, afirmando que desejava descarregar uma arma na moça (cena inicial deste filme). 

Por causa de uma tramoia do Renato, a Maria do Carmo larga do noivo Gerson. Ele é um rapaz gostosão mas com pouco miolo na cabeça. Um pouco por isso, outro pouco porque a ama, levam-no a sair atrás de Renato com um cutelo. Ao fundo toca aquele agudo do clímax da cena do assassinato de Psicose (1960).

Metalinguagem: Nos primeiros capítulos, o mordomo Jonas/Raul Cortez é uma espécie de alter-ego do autor, comentando do jeito mais sarcástico e divertido algumas tramas paralelas. Ao ouvir a empregada Alaíde suspirar pelo filho do patrão, menciona uns melodramaturgos e se dá conta de como esse tipo de par ainda tem apelo popular; faz o mesmo ao perceber o interesse da madrasta no enteado. O momento mais divertido, no entanto, é quando ele conta à Alaíde a história que está vivendo com Marianna como se ela fosse um enredo de filme (Marianna e ele são cinéfilos: as referências a arte se adensam no caso dos dois). Ao mencionar o cemitério, o filme que eles viram duas vezes num mesmo dia e as conversas intermináveis de ambos sobre ele, Alaíde diz que aquilo parece um filme que fez com que ela e duas amigas dormissem. O mordomo questiona-se, olhando para a câmera, se aquilo não tinha mesmo apelo naquele momento. 
O encontro dos dois é meio cinematográfico, com direito a fumaça de cigarro (o elemento sexual atrelado ao fumo...) e muito mistério (a última característica é ressaltada pelo mordomo na história que ele conta à Alaíde). Há outro clássico em que o personagem se emprega de mordomo, no entanto parece fino demais pra tarefa: Irene, a teimosa (1936). O mordomo no caso é William Powell. 

Rainha da Sucata/ Now Voyager (A estranha passageira, 1942)
O professor e Adriana entram de penetras noutra festa em homenagem ao presidente da fundação que paga a pesquisa do primeiro. Se, num primeiro momento, Adriana saiu de um bolo e num segundo, ambos enfrentaram um tiroteio entre os ex-integrantes da DOPS e guerrilheiros (episódios a la Quanto mais quente melhor, 1959), neste volta para 1. plano o Levada da Breca, no episódio em que Adriana brinca com os amendoins. 

O mesmo Levada da Breca, aliás, retorna imediatamente entre as propagandas dos filmes que Marianna verá com Jonas no MIS. No entanto, eles não a veem e sim veem Drácula (1931). A moça, já mexida com o que dizem as amigas, incorpora de novo a personagem da Rosa Púrpura do Cairo – vê Jonas transformando-se em vampiro para mordê-la. O toque de gênio da cena é a música de terror que a envolve, subjetiva, já que o perigo está só na cabeça da moça.


Marianna/ Renata Sorrah: a la Rosa Púrpura do Cairo
 O encontro entre Maria do Carmo e Edu no restaurante, o momento em que eles dançam e o beijo lembram a Sabrina (1954) de Audrey Hepburn. A analogia entre Edu e David Larrabee é o fato de Edu ter se casado uma porção de vezes. 

Paula Ramos é escalada para investigar um ponto de jogatina da cidade. Ela recebe como senha a frase “Vim para o funeral de vovó”, a mesma de Quanto mais quente melhor. Chegando no local, o mise-en-scène é o mesmo: uma igrejinha com um homem tocando uma música fúnebre num órgão. 

Renato enforca a prostituta. Em His double life (1952), Ronald Colman encarna o Otelo que encena no palco também fora dele e, desesperado pelo amor sem reciprocidade que tem pela ex-esposa, enforca a mocinha atriz iniciante com quem começava a sair. Ele e Renato estão igualmente fora de si. 

Renato tenta transformar Marianna ao seu gosto. Vai buscá-la no cabeleireiro, diz algo do tipo “Ele seguiu à risca minhas instruções” e sai a comprar-lhe roupas. Ela fica desconfortável como a personagem da Kim Novak em Um corpo que cai (1958). Ele replica que não vai transformá-la na Maria do Carmo. A citação é aqui diluída porque não está envolta na mesma tensão do filme. O desejo da transformação é o mesmo de Jimmy Stewart, mas aqui não ocorrerá a transformação da moça na mulher amada, como é o caso daquele filme. Essas citações são divertidas sobretudo no que toca à personagem de Marianna, que é cinéfila.
Aliás, Marianna protagoniza outra releitura de Hollywood: é arrastada pelo marido para um casarão estilo belle époque e será submetida ao mesmo tratamento que Charles Boyer impingiu a Ingrid Bergman em À Meia Luz (1944): ele esconde quadros e joias e depois fá-los reaparecer entre as coisas da moça, tentando convencê-la de que ela enlouquece. Mesmo a empregadinha atrevida remete ao filme: chama-se Angela, nome da atriz que a interpreta na versão cinematográfica (Angela Lansbury). O objetivo de Boyer era encontrar na casa uma joia valiosa pertencente à sua ex-amante, tia da moça que ele desposa. Renato quer sacar o dinheiro que é de Marianna por direito. Imersa em música clássica como estou por aqui, espero ansiosamente que a insânia completa de Marianna seja embebida na ária de Lucia de Lammermoor, de Donizetti, como acontece no filme de Bergman/Boyer. As artes estão sempre dialogando entre si... 


Ingrid Bergman em Gaslight (À Meia Luz, 1944)
Em breve, cenas dos próximos capítulos. Espero...

11 comentários:

Kelly Araújo disse...

Menina,

Ainda não terminei de ler mas precisava comentar que rico seu texto. Eu na minha cultura pobre de filmes não conheço quase nenhum #vamos ter de trabalhar isso.

beijos

Danielle Carvalho disse...

Ah, minha flor, vou piratear to-dos pra você! Ficaria melhor o post colocando lado a lado as cenas da novela e dos filmes, mas não vai dar tempo de fazer isso tão cedo, infelizmente... Que bom que gostou!! Especialmente pra você, que disse que achava "muito justo" um post a esse respeito, lembra?

Bjinhos
Dani

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Caríssima, o blog O FALCÃO MALTÊS está aniversariando e entrando de férias. Obrigado pela parceria. Desejo um Natal harmonioso e um Ano Novo cheio de energia.
Cumprimentos cinéfilos,

O Falcão Maltês

Edison Eduardo d:-) disse...

Nooooossa, Danielle, que demais!!!! Parabéns! O Silvio de Abreu, que começou no cinema, destilou aí na "Rainha..." toda a sua paixão pela 7ª Arte! Algumas coisas que vc citou eu ao menos suspeitava! MUITO BOM!!! Estou quase mandando esta sua blogada pros dois! Regina sei que vai ADORAR!!! Ótimo Natal pra ti, boas entradas em 2013 e no carnaval eu tou aí! BjoS! Edison Eduardo d:-)

disse...

Dani, vejo novelas de vez em quando com minha avó. Já encontrei referências bestas e exageradas, como em uma produção que copiou inteiramente o roteiro de Luzes da Cidade em um de seus núcleos.
Vendo o remake de Guerra dos Sexos agora, tive o prazer de me deparar com uma festa à fantasia inspirada em personagens do cinema clássico. No entanto, não sei se posso julgar Rainha da Sucata, do mesmo autor, porque não a vi, mas me parece que são muitas as referências. Uma menção é bacana, mas me parece que ele construiu histórias inteiras copiando enredos de filmes. Espero que eu esteja errada!
Beijos!

Daniele Rodrigues de Moura disse...

Nossa, Dani
Genial!! Que riqueza de detalhes e quanta observação. Estou encantada e te parabenizo por mais esta jóia.
Um abraço
Dani

Danielle Carvalho disse...

Pessoal, obrigada pelo retorno!

Antonio, te desejo um ótimo Natal e ano novo e em especial, relaxantes férias!

Edison, não sabia desse detalhe biográfico relacionado ao Silvio de Abreu. Bem, ele fica evidente na "Rainha da Sucata". Pode circular a blogada que eu vou adorar !

Lê, quando comecei a ver a novela me perguntei sobre isso, exatamente como você. Embora alguns personagens sejam desenhados a princípio de modo bastante relacionado ao cinema, eles depois se descolam da homenagem pra viverem vidas separadas. Por isso, a maior parte das referências cinematográficas está nos primeiros 20 capítulos da novela. Ela é bem divertida. Você que curte cinema clássico com certeza iria gostar. E ainda faria companhia pra sua vó!

Dani, muito obrigada pelas palavras, querida! Eu te desejo todo sucesso nessa faceta de cantora na qual você está investindo agora. Sua voz é linda!

Bjinhos e bom final e entrada de ano, pessoal.
Dani

Bússola do Terror disse...

Rainha da Sucata foi uma das melhores novelas da Globo, com certeza.

Edison Eduardo d:-) disse...

Agora, rica em ilustrações, a blogada está mais rica e melhor documentada! Adorei!!! Eu correndo aqui vou tentar atualizar o blog (citando a sua blogada) e desejando Ótimo Natal e Ano Novo! Bjoka, Dani!

PS: Depois quero ver as fotos do Revèillon!!!!

Danielle Carvalho disse...

Não ficou mesmo, menino? Com os videozinhos ficaria ainda mais legal, mas não consigo encontrar o programa que eu uso pra recortá-los...
Você me conhece, sabe que eu sou perfeccionista, né (oh, inferno!) :D. Atualiza sim; se quiser bota o texto lá também (ou não, fait comme tu veux, ok!).

Bjinhos e tenha você também, e sua família, um lindo Natal e Ano Novo. Dani

Danielle Carvalho disse...

Bússola, obrigada pelo feedback ao post!