terça-feira, 15 de outubro de 2013

Bem-vindo, estranho

O paulistano Teatro Vivo comemora nostalgicamente seus dez anos de existência. Em cena, Regina Duarte – que inaugurou-o em 2003, com o monólogo “Coração Bazar” – encabeça o elenco desse thriller com cheiro de cinema clássico que é “Bem-vindo, estranho”. O texto da inglesa Angela Clerkin, que estreia mundialmente em S. Paulo, tem direção de Murilo Pasta – ambos assumidamente cinéfilos, amantes sobretudo do gênero noir, que floresceu na América do Norte nos anos de 1940. O espetáculo se nutre desse gênero cinematográfico com argúcia, do âmbito textual ao cenário, figurino, à iluminação, à trilha sonora. 
Bem-vindo, estranho - poster
Minha vontade aqui era de destrinchá-lo nas minúcias de suas referências a clássicos da Sétima Arte como “Double Idemnity” (Pacto de Sangue, 1944), por exemplo, que nele comparecem de forma mais espiritual que textual. Porém, resisto à tentação em nome da brincadeira proposta pelo elenco e diretor, de “Não contar o final” para não estragar a surpresa do público – brincadeira que não deixa de remeter à inteligente estratégia de marketing de Hitchcock no momento da divulgação de “Psicose” (trama com a qual “Bem-vindo, estranho” também conversa, aliás). 
No entanto, tal conivência não impedirá uma vista d'olhos no cenário, nas personagens e no desenho geral da trama. Primeiro no cenário realista, primorosamente concebido para criar a atmosfera do drama – assim como o eram os cenários dos clássicos noir. Sala-quarto e banheiro às vistas do público; paredes velhas, velhas fotos de artistas de cinema e o projetor que continuamente joga à cena imagens de filmes antigos. 
A jovem cinéfila (Mariana Loureiro), advogada de profissão, sai de diante da tela para defender o rapaz acusado de assassinato, por quem ela se apaixonara. Há ali um palpitante desejo de viver uma vida de filme, de transpor a ficção à realidade. O charme e o mistério materializados pelo cinema clássico, que determinam seu mergulho na ficção – fuga, talvez, da influência da mãe (Regina Duarte) – não só seduzem a jovem, fazendo-a levar o belo estranho (Kiko Bertholini) para casa como balizam a encenação da trama, que se aproveita de modo exímio de dispositivos cênicos como o breu e os jogos de luz e sombra para reproduzir, em cena, o clima do cinema noir
Double Idemnity (1944)
Apagam-se as luzes; o espectador treme de antecipação frente às três figuras dúbias que ele apenas virá a conhecer quando cai o pano. O contraluz dá volume aos gestos, potencializando seu caráter temerário. A luz intensa não é menos aterradora, já que ilumina o jogo de gato e rato travado no palco. A encenação só faz dar relevo ao texto de Clerkin, onde os elementos costuram-se num eficiente crescendo, desembocando em revelações surpreendentes, porém, ao mesmo tempo sinalizadas nas minúcias da trama. A autora é pródiga com cada uma de suas personagens. Mariana Loureiro e Kiko Bertholini estão muito bem; e Regina Duarte brilha (e visivelmente diverte-se imenso com a parte que lhe cabe). 
Bafejada pela estimulante aragem emanada pelo cinema que ama, Clerkin consegue injetar à trama humor, melodrama e tragédia. O resultado é uma obra arejada, que a competência dos colaboradores (atores, diretor, iluminador, figurinista) transforma em um espetáculo altamente recomendável – não só para quem curte os áureos tempos do cinema como para quem gosta de uma boa peça de teatro. Estreia em 18.10.
Bem-vindo, estranho - foto divulgação