quinta-feira, 22 de maio de 2014

Gata Velha ainda Mia (2013): estereótipos revirados

Gostaria de ter podido dar antes notícia deste ótimo filme, que dialoga com tantas questões nas quais ando pensando nos últimos tempos. Não pude antes, porque ando absolutamente submersa em trabalho. Mas devo, agora, porque, como todo filme brasileiro independente, este não ficará muito tempo em cartaz. É preciso convidar o público a prestigiá-lo. 
Fica o convite a priori. Passo agora a uma análise salpicada de spoilers, impossíveis de não serem lançados quando a gente deseja tomar verticalmente para análise um objeto. Significa, então, que o público deve continuar a leitura depois de tê-lo visto... 
A gata velha da história é Gloria Polk, escritora sessentona que se digladia para concluir seu livro. Combatente feroz nos tempos áureos do feminismo, época em que produziu a parte mais resplandecente de sua obra, ela agora é uma mulher amarga cuja luta para dar conta do trabalho intelectual soma-se à necessidade imediata de ganhar a vida; daí sua obrigação de pôr empiricamente a mão na massa e cozinhar para fora – desfecho deveras humilhante para uma feminista histórica. 
Ela, todavia, assume ambas as tarefas com bravura. A mulher ledora de Simone de Beauvoir encontra um cunho filosófico para os frangos, porcos e outros mamíferos mais ou menos exóticos que assa para os banquetes dos grã-finos. Na medida em que cozinha e/ou come, esgrime o intelecto que logo ganhará corpo em papel. Intelecto que primeiro será impresso na revista onde trabalha a jovem Carol, jornalista ambiciosa incumbida de entrevistar a escritora arredia. 
Convidada à casa da senhora, Carol será revirada por ela de corpo e alma. O espectador descobrirá que a jornalista não é uma jovem qualquer, mas a esposa do segundo marido de Gloria. O tal homem fora o caso de amor mais visceral da vida dela. Ao fim e ao cabo, a ex-feminista era uma romântica incurável, carente do desvelo com que aquele homem cuidara dela e de seus filhos (filhos dela, apenas). Ansiava pelo lugar que outrora lhe coubera na vida do outro. Desta vez, para cuidar, ela mesma, do filho que o ex tivera com a jornalista. A tensão se adensa quando ela decide tomar o destino de sua oponente em suas mãos. 
“Gata Velha ainda Mia” já seria uma interessante versão nacional de Jogo Mortal, o tour de force de Laurence Olivier e Michael Caine (1972, direção de Joseph L. Mankiewicz), caso parasse por aí. Mas o filme vai além, daí a sua originalidade e o meu veemente convite para que ele seja visto. 
Tece-se, ali, uma analogia fílmica para a escritura literária. Dito de outro modo, a costura do filme corresponde à costura da trama do texto literário. Apresentam-se ao espectador, em looping, os andamentos e desfechos possíveis para o último capítulo da obra de Gloria Polk. A desfilarem, em cena, estão ela e a jornalista, num só tempo seres reais e personagens ficcionais; materialização engenhosa dos fantasmas que visitam o escritor no ato da criação. Porém, isso o público só percebe ao final, ao vislumbrar o estado deplorável em que se encontra Gloria (seu nome é metáfora irônica de sua débâcle) e perceber que as imagens cinematográficas não passavam de imagens fantasmáticas saídas de sua mente. O filme devolve o cinema à sua matéria. Ratifica-se, ao final, o caráter impalpável, de sonho, das imagens cinematográficas. 
Esse exercício metalinguístico de fôlego saiu das mãos de Rafael Primot, um jovem ator (de teatro, cinema e tevê)/diretor/escritor cuja variedade de ofícios deixa patente o espírito curioso; e a qualidade que imprime ao que faz denota uma inteligência decididamente superior. Rasga-se, aqui, o primeiro estereótipo. Primot é uma feliz exceção na nossa Bruzundanga, terra em que a carreira artística é vista mais como sinônimo de ascensão social que de espaço aberto ao exercício do gênio. 
Seu roteiro é primoroso, erudito sem ser pedante, literário sem deixar de ser cinematográfico. Sua Gloria Polk é Norma Desmond (Gloria Swanson, Crepúsculo dos Deuses), a mulher a quem a arte dera e tirara tudo, que ressurge das cinzas para tomar o que é seu por direito. É Margo Channing (Bette Davis, A Malvada), análogos o talento, a ironia demolidora e o desejo de se firmar no mundo que incensa a juventude. É Annie Wilkes (Kathy Bates, Louca Obsessão), insana, a deslizar erraticamente entre a ficção e a realidade. 
Para construí-la, o roteirista-diretor realizou uma escolha aparentemente insólita: Regina Duarte, a saltitante e sorridente “Namoradinha do Brasil”. E então, outro estereótipo estilhaça-se. Em cena, Regina rasteja qual cobra peçonhenta, sem maquiagem, sem sorrisos. Toma a personagem com sanha e a desenvolve com excelência, num perfeito timing cômico e dramático. 
Sua contraparte na tragicomédia é desempenhada com desenvoltura por Bárbara Paz, que deixa de lado sua mais conhecida faceta borderline para dar corpo à personagem chão-a-chão da jornalista. Desempenha seu papel com elegância e, é preciso que se ressalte, abnegação, pois o filme é de sua colega. Melhor dizendo, o filme é de Gloria Polk. Literalmente dela, já que é ela a personagem/autora da insânia que emerge em película. Porque, ressalte-se, no final das contas a vitória é do conjunto, que ao vestir roupagens outras, tão diversas de suas peles costumeiras, realiza com maestria o ideal da arte como espaço de invenção.

8 comentários:

Maira Albuquerque disse...

PARA TUDO!!!! Vc postou a respeito do filme! Ehhhhhh Fantástico seu comentário! Eu saí meio passada do cinema e precisei parar para refletir a respeito de cada cena que me foi apresentada!
Texto bem escrito, atrizes em total sintonia... confesso que nunca me atraiu esse estilo de filme, mas fui ver por conta da querida Regina! Meu Deus, mais que filme! Apresenta uma realidade amarga, um embate entre 2 mulheres, a velhice batendo à porta, a nova, mas insegura mulher, projetando um futuro que foi o passado da outra, tudo bem representado por 2 atrizes fantáaaasticas

Maira Albuquerque da Costa disse...

Agora a parte que mais gosto, que mais admiro nisso tudo: Regina Duarte! Que talento, que atriz! Eu acompanhei as heróicas personagens e me apaixonei por cada uma delas.. Acompanhei as batalhadoras mulheres e, agora, desde a Clo Hayalla, tenho me encantado por outro lado, que eu pensava que não fosse me agradar.. não por conta da Regina , com seu inquestionável talento, mas porque eu sempre gostei de românticas estórias rs .. Mas descobri que o que me fascina é mesmo essa maravilha de atriz que, quando sobe em um palco ou aparece em uma tela, consegue me deixar sem palavras para dizer o quanto ela é incrível!!!

Maira Albuquerque disse...

Nossa, desculpa se cometi algum erro de português no meu post, mas confesso que fui escrevendo tudo sem pestanejar, sem reler, sem nem piscar direito hahaha bjoos e adorei seu texto!

Anônimo disse...

É um filme intrigante!!! Também já estava acostumada com os personagens da Regina Duarte. Eis que ela incorpora Glória Polk e deixa a gente completamente de boca aberta. Como já disse, fiquei com esse filme 1 semana na cabeça. Quero ver de novo!!! Obrigada Dani, por tanta sensibilidade... Beijão, Marcia Elizei

Edison Eduardo d:-) disse...

Eu tb gostei MUITO, Dani...

Está de "parabéns" o diretor pela concepção geral da obra. Digo como fã de cinema e da estrela tb, rs! Roteirista, direção, produtor... Só não atuou pq não tinha personagem. Que idéias, será, vão por aquela cabeça, hein?

Confesso que só constatei algumas nuances agora que assisti pela segunda vez, esses dias! Exemplo da metalinguagem utilizada inclusive em algumas falas da personagem da Regina que soam como um aviso (depois de já ter assistido uma vez, saquei melhor isso).

Da primeira vez, na pré estréia carioca, dentro do Festival de Cienma do Rio, ano passado, estava uma tal euforia em torno, amigos, jornalistas e tudo o mais, da segunda, com a sala de exibição calma, num dia de semana após o trabalho, saboreei bem melhor.

A Bárbara, linda e excelente. Já tive oportunidade de vê-la em cena no teatro (difícil pois ela não vem muito ao Rio com suas peças), não chega ser uma escada para o brilho de Regina... Desenvolve seu papel como um brilhante!

O que dizer, então, de Regina Duarte? No cinema, de novo! Que maravilha!!! E continua sua linha de fazer personagens q saem da rotina das “boazinhas” da TV quando está fora de alguma novela. A Glória é um personagem de coragem, para uma atriz que sabe muito bem o que está fazendo e que está preocupada com o ofício de atuar. Não é pra qq uma... E imagino como Regina se divertiu a cada fala... Não posso falar muito!

É um filme teatral, sem dúvida, de atores. Realmente, nas duas vezes que assisti, fico imaginando como seria no teatro. Poderia até, com facilidade, virar um espetáculo e entrar em cartaz! Mais um "Viva" ao Rafael que o eternizou para as gerações futuras...

Bjão, Edison Eduarddo

Edison Eduardo d:-) disse...

Agora, vendo pelo ângulo do fã - incondicional -, diria que a vilã mesmo da história era a Carol, que ficou com o marido de Glória... Levou a pior na segunda parte para que pudesse triunfar a "mocinha"!!!
Huahuahuarirá...
BJO!

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Olá, pessoal!

Bem, todos compartilhamos a mesma opinião sobre a Regina. Por isso foi tão grande o prazer de vê-la fazendo uma personagem tão diferente de tudo o que ela já fez. Mais: diferente mesmo das poucas "vilãs" suas (e aí entram desde as mulheres más até as ladinas: Clô, Porcina, Jacky). É super saudável esse desejo de se abrir pros desafios, que a atriz apresenta, sobretudo nos últimos anos. Isso vai na contracorrente do grosso se produz em matéria de cinema e tevê, nos últimos tempos.

Gosto muito dos bate-bolas contigo, Maíra. Não se desculpe;continue escrevendo!

Márcia, obrigada pelo retorno e elogios!

E Edison, alimentamos a mesma opinião sobre a personagem de Bárbara, que também cresceu para mim da segunda vez em que vi o filme. Nunca a vi no teatro, mas gosto de suas atuações na TV. Ela é uma individualidade indiscutível, consegue se sobressair mesmo nas novelas chochas. Também não acho que ela seja escada, no filme. Seu personagem funciona perfeitamente para a economia narrativa. Não poderia rolar um conflito de igual pra igual entre as duas, como há em "Jogo Mortal", justamente pelo papel preponderante da personagem da Regina naquela relação. Ambas estão ótimas, têm interpretações convergentes.

Em suma, acho este filme super coeso, e o que de melhor se produz nos dias de hoje. Qualquer crítica negativa a ele me soa muito forte como perseguição...

Bjos, gente!
Dani

automacao email marketing disse...


Muy bueno tu blog y estoy siguiendo su cargo por un largo tiempo!