quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os melhores e piores de 2014 (II)

Sigamos com a nossa lista de melhores e (alguns poucos) piores filmes de 2014, agora os rodados na América Latina e na Europa. Amplia-se o escopo geográfico, a variedade de línguas e de estilos. Sem a pressão de grandes produtores e conglomerados (ou quase), ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, coisas criativas surgiram. 
O que dizer, por exemplo, do argentino “Relatos selvagens” (“Relatos salvajes”, 2014), meia dúzia de contos tragicômicos que Damián Szifron costura com maestria? O chamariz da obra, ao menos entre nós, foi Ricardo Darín – o eterno Benjamin de “O Segredo de seus olhos”. O ator não foi, porém, o único responsável por manter a obra em cartaz por longos meses – feito raro no que toca ao cinema hispano-americano.
Aquelas histórias de perfeito timing cômico e dramático, que num piscar de olhos permeiam a via que divide a sanidade da loucura, registram as idiossincrasias da sociedade moderna. Todos nós alguma vez já sentimos o diabinho nos assoprar horrores ao ouvido, enquanto esperamos no trânsito congestionado, em filas intermináveis, ou quando nos cruza a frente alguém que puxou o nosso tapete alguma vez... 
Obra menos rasgada – mas tão boa quanto – produzida pelos hermanos é “O Médico Alemão” (“Wakolda”, 2013), de Lucía Puenzo (a diretora do ótimo “XXY” acumula a função de roteirista), a qual gira em torno da estada do médico nazista Mengele (Àlex Brendemühl) no seio de uma família argentina. Puenzo ficcionaliza sobre uma história real: a menina Lilith (Florencia Bado), demasiado pequenina, é entregue pela mãe zelosa aos cuidados do médico que promete fazê-la crescer. Emerge então a violência investigativa da medicina alemã, que tantas vítimas fizera entre os judeus. O suspense segue tocado com delicadeza. Mengele é charmoso, sedutor. O carinho que ele nutre por Lilith resvala sensualidade. As atrocidades de que o facínora é capaz são deslindadas ao público de modo figurativo. As bonecas perfeitas que ele desejava construir, todas semelhantes, metaforizam a sanha de arianização intentada pelo Terceiro Reich. Já Diego Peretti, seu sócio argentino, as queria todas diferentes, mesmo que às vezes defeituosas; como a boneca “Wakolda”, metáfora da pequena filha que ele amava como era. 
Da Colômbia surgiu-nos "Karen Chora no Ônibus" (“Karen llora en un bus”, 2011), filme low profile de Gabriel Rojas Vera (também roteirista do longa). A obra talvez vá longe demais em sua transposição do clássico de Ibsen “Casa de Boneca” da Noruega de fins do XIX para a Colômbia do início do XXI. Mas, pensando bem, quantas “Noras” não existem por aí, sustentadas pelos maridos – a tomá-las com menor ou maior explicitude como seus objetos de luxo –, tolinhas, a viverem de saciar suas pequenas futilidades. Margarita Rosa Gallardo desempenha com sobriedade os reveses vividos pela Nora contemporânea ao deixar a casa de boneca portando apenas uma mala de roupas. A fome, a mendicância, a busca inglória por um emprego. Eu, que amo a Nora original pela sede com que ela se atira para o desconhecido, em plena sociedade patriarcal dos oitocentos, desejaria que ela se saísse tão bem em sua jornada quanto a sua colega colombiana. 

No Brasil, a safra cinematográfica também foi boa. A vedete do ano foi “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014), do diretor e roteirista Daniel Ribeiro, sequência do bem-sucedido curta-metragem “Eu não quero voltar sozinho” (2010). A trama conta a história de Leonardo (Ghilherme Lobo), garoto cego que vivencia os prazeres e dissabores da adolescência. A temática homossexual soft igualmente fez sucesso. Como no caso da novela das oito, a obra responde às concessões da nossa sociedade retrógrada. Mas a trama ganha pelo esforço de falar dos jovens (e para eles) com inteligência e bom-humor, sem grandes moralizações ou aquela estética da clipagem, que anda a transformar os filmes em sucedâneos de jogos de videogame. 
Um filme que não faz concessões é “Praia do futuro” (2014), coprodução Brasil/Alemanha dirigida por Karim Aïnouz, com excelentes Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa. E que bom que não o faz, do contrário, não teríamos uma obra-prima. É daqueles filmes que enchem a nossa alma de sublime beleza. Beleza do amor: entre irmãos, entre amantes (para além da orientação sexual). Beleza da natureza; dos contrastes: a exuberante Praia do Futuro, cuja salinidade corrói as construções (e os homens) até os ossos; a gélida e branca Alemanha, com seu inexpugnável litoral, feito de vento. Este é daqueles poucos filmes em que há perfeita sintonia entre o tema e a forma. Divide-se em partes bem-marcadas, entre América do Sul e Europa, o clima tropical e o temperado, a quentura da gente e do clima do Nordeste e a rispidez atmosférica do Norte. E tudo mistura: fazendo o irmão abandonado experimentar o Velho Mundo, cuja frieza congelara as memórias do irmão mais velho. É um filme que precisa urgentemente ser visto sem preconceitos, pelo nosso próprio bem, estético e social. 
Outras boas tacadas nacionais são “O lobo atrás da porta” (2013), de Fernando Coimba (também autor do roteiro), com ótimos Milhem Cortaz e Leandra Leal como o casal de amantes cuja relação passional culmina com o assassinato da filha do homem (casado, na trama, com Fabiula Nascimento, também muito bem). A trama se apropria de um caso notório na imprensa policialesca, que remonta aos anos de 1970. Porém, conhecer o seu desfecho de modo algum atrapalha a fruição da obra, que vale pelo seu percurso. Tecem-se, aqui, com riqueza de detalhes, os caracteres das personagens – sobretudo dos amantes. Os atores são tão eficientes na matização psicológica das personagens que o fait divers comezinho ganha foros de tragédia. 
No que toca ao cinema independente, “Uma dose violenta de qualquer coisa” (2013), de Gustavo Galvão, é uma das boas surpresas. Coloca-nos na estrada por uma hora e meia com o colossal Marat Descartes (como ele é bom ator!) e Vinícius Ferreira, eficiente no papel do profissional sério que, num surto psicótico, sai a vagar de carro pelos rincões do Brasil junto do novo amigo. Outra é “Gata velha ainda mia”, ótimo filme de Rafael Primot com Regina Duarte, Bárbara Paz e Gilda Nomace, sobre o qual já se falou aqui
Dentre as películas de estúdio nacionais, duas que muito recomendo são “Os amigos” (2013), de Lina Chamie, com Marco Ricca e Dira Paes, e “Confissões de Adolescentes” (2013), de Cris D’Amato e Daniel Filho, adaptação pop da odisseia adolescente de Maria Mariana. São, sem serem filmes de arte, dois acertos estéticos, bem-sucedidos por enveredarem pelo humor ao tratarem das relações afetivas. Os amigos em questão são sobretudo Dira (Majú) e Marco (Téo). Mas há também a presença fantasmática do melhor amigo de infância de Téo, recém-falecido. “Fantasmática”, mesmo: o filme costura os planos do pós-morte (se é que se pode dizer deste modo), da memória, do presente e mesmo da fábula (ótima ideia foi a de introduzir um grupo circense juvenil a recontar uma fábula de Homero). Há algum maneirismo na atuação das crianças (porém, há que se ressaltar que o texto delas não é fácil, e que uma, a pequena que desempenha a filha de Majú, se sai admiravelmente bem). Os protagonistas têm química, e a montagem também (parabéns para a montadora, cujo nome não encontrei na página do filme no IMDB, tão pobrezinha...). 
Quanto a “Confissões...”, a dupla de diretores fez jus à relevância que tem a obra de Mariana para o contexto adolescente. Há neste filme frescor, boas ideias narrativas e um conjunto de bons atores (Cássio Gabus Mendes desempenha o papel do pai, e as jovens Sophia Abrahão, Isabella Camero, Malu Rodrigues e Clara Tiezzi, os papéis das filhas). É um retrato bastante fiel da geração teen nascida no século XXI, no que ela se assemelha e se diferencia das anteriores: suas preferências literárias, sua hiper conectividade, suas frustrações, medos e neuras. Algumas sequências são imperdíveis. Exemplo é aquela em que o garoto se maquia à la Edward da saga “Crepúsculo”, supondo que a sua musa mirim era leitora da série vampiresca. Tiradas como esta aproximam este produto “global” mais de um humorístico como “Tá no Ar” do que das novelas da emissora, às quais os produtos da Globo Filme pagam forte tributo. 
Das hostes da Globo saíram ainda “Getúlio” (2014), de João Jardim, sobre o qual já se falou aqui; “Tim Maia” (2014), de Mauro Lima; e Boa Sorte (2014), de Carolina Jabor. O primeiro vale sobretudo pela dupla de protagonistas, Tony Ramos e Drica Morais, sobretudo a atriz, que desempenha à excelência o papel (infelizmente tão pequeno) da filha do presidente. É infelizmente um filme aborrecido – com toda a admiração que tenho pela Drica Morais, não consegui revê-lo quando ele foi exibido na TV. “Tim Maia” sai-se melhor. Traz Robson Nunes e Babu Santana nos papéis-título, ambos ótimos, assim como Cauã Raymond como um colega chegado de Tim (me pergunto se fictício ou real; de todo modo, Raymond está interpretando cada vez melhor, e o papel funciona bem na trama). Como é usual nas histórias de uma vida inteira, esta resulta longa. Mas tem momentos notáveis, como as andanças do jovem Tim pelas casas noturnas do Rio (a dele ouvindo Nara Leão/Malu Magalhães é hilária) ou seus encontros com o recém-coroado Roberto Carlos (a quem Tim sempre observa com ironia). 
Por fim, “Boa Sorte” traz uma excelente Deborah Secco no papel de uma portadora do vírus da AIDS à beira da morte. João Pedro Zappa faz o menino que se apaixona por ela, na casa de recuperação onde ambos vivem. Desempenha com a timidez (que cabe bem no papel) do menino que se relaciona com a mulher mais vivida (e com a atriz mais experimentada). Um acerto, sobretudo na escalação de Secco e de Fernanda Montenegro (a avó da protagonista, na trama). 
Não foi dessa vez que eu terminei a relação dos “melhores e piores de 2014”. Aguardem pela 3ª e última parte: Europa. Au revoir.

4 comentários:

Marcelo Castro Moraes disse...

foi um bom ano para o cinema nacional

Edison Eduarddo disse...

Dani...

Não vi todos esses mas não gostei muito de "Praia do Futuro" e de "Boyhood" (pra mim não tem nada demais fora o crescimento do ator principal e dos outros envelhecerem na tela).

Estou me devendo "O Lobo de Wall Street".

"Trapaça" e "Ela" são médios. "Interestrelar" achei chaaato e loooooongo...

Meus 10: Gostei do "Hoje eu quero voltar sozinho" tb, "Gata Velha...", "O Lobo atrás da Porta" (muito bom), "Jersey Boys" (maravilhoso) e "Relatos Selvagens" (1ª e 3ª histórias t~em tudo a ver comigo!)

Senti falta na lista de "Pais e Filhos", "The Lunchbox", (antecipando-me à 3ª parte da sua lista - Asia), "Eu, mamãe e os meninos" (dei gargalhadas altas no cinema), Mommy (está entre meus favoritos, identifiquei-me muito ali) e (como esquecer?) do maravilhoso "Sete Caixas" (o melhor para mim!!!!)

Bjoka, Edison

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Marcelo, Edison, obrigada por passarem por aqui e desculpem pela demora imensa em lhes responder.

Edison, curto muito "Trapaça" e "Ela". Geralmente os indicados são pretensiosos de doer - "12 anos de Escravidão" é um exemplo - ou escolares. Esses fogem desses rótulos, apelando para o humor ou a delicadeza.

Mas isso está na esfera do gosto pessoal. Por exemplo, "Hoje eu quero..." é um filme bem feito, mas que eu acho ok. Todos os outros que vc citou são superiores. Já "Praia do futuro" eu acho uma obra-prima, e "Boyhood" ótimo - há amadurecimento concomitante do personagem e do ator, e um roteiro que evolui para abarcar as descobertas do menino. Há muita verdade, ali. Espero que ele seja lembrado no dia das premiações.

Concordo sobre "Pais e filhos". "The lunchbox" eu não vi, nem o francês. "Mommy" = <3. E "Sete Caixas", bem, já te disse o que achava dele, né? :D

Bjos. Sempre bom trocar ideias cinematográficas contigo, guri!
Dani

Yadira Cervantes disse...

Relatos Salvajes classificado como um dos melhores filmes de 2014, quando eu vi o personagem que eu gostei foi o único a fazer o ator Leonardo Sbaraglia, que a partir desse momento tornou-se um dos meus favoritos no mundo do cinema.