sábado, 4 de abril de 2026

“La Traviata” em Porto Alegre (2026)

Entre fins da semana passada e princípios desta estive em Porto Alegre para assistir à encenação da célebre “La Traviata” (1853). 
Jamais consigo passar incólume por esta ópera. Vê-la é sempre remexer o baú das minhas memórias afetivas – desde quanto eu tinha pouco mais de vinte anos e torci o nariz para a (espantosa) performance de Angela Gheorghiu, em DVD, a qual fazia parte da bibliografia de um mestrado que eu então voltava aos dramaturgos wagnerianistas brasileiros de fins do século XIX, até quando, anos mais tarde, morando fora para desenvolver uma pesquisa de doutorado, fui atravessada pelo documentário “Traviata et nous” (2012), e meu coração todo mergulhou na obra de Verdi e no mundo da ópera. 
Este blog documenta esta relação e traz algumas análises esmiuçadas do texto teatral e do romanesco que deram origem à obra-prima de Giuseppe Verdi (libreto de Francesco Maria Piave), escritas nas ocasiões de meus encontros com ela, seja nos palcos, seja no cinema. Não vou, portanto, fazer aqui a exegese da obra operística e daquelas em que ela se baseou – facilmente recuperáveis no índice à esquerda. 
Minha relação com “La Traviata” ganhou um novo capítulo dias atrás, em Porto Alegre. A montagem do espetáculo ficou a cargo da jovem e já profícua Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul (CORS), fundada em 2022 e que recebeu da revista Concerto, em 2025, o prêmio de “Inovação”. 
É preciso de saída que se destaque o trabalho espantoso de descentralização da produção operística realizado pelo grupo – encabeçado pelo presidente Flávio Leite, também encenador desta produção, e pela vice Eiko Senda. O programa do espetáculo informa que a montagem foi viabilizada pelo programa “Ópera e Formação”, da Secretaria de Estado da Cultura. Num tempo em que há um estrangulamento nacional da produção operística, e que festivais importantes de ópera encerram (ou quase) suas atividades, este incentivo é fundamental e precisa ser repetido em mais estados, para que se abram oportunidades de empregos tanto aos artistas formados nesses locais quanto aos solistas com mais experiência. 
Dado que o teatro de ópera da cidade, o São Pedro, passa por uma reforma, o espetáculo ocorreu no Teatro Simões Lopes Neto, que integra o recém-inaugurado Multipalco Eva Sopher; uma sala de boa acústica, tamanho que favorece a intimidade entre o artista e o público (já que tem pouco mais de 500 lugares) e cujo formato tem uma especificidade adorável, já que o fosso é separado da primeira fileira da plateia por um gradeado, permitindo ao espectador acompanhar in totum os cantores e musicistas responsáveis pela encenação. 
A montagem de “La Traviata” apresentada em Porto Alegre contou com dois elencos, que se revezaram nos papéis principais – Ludmilla Bauerfeldt e Elisa Machado (Violetta); Giovanni Tristacci e Felipe Berthol (Alfredo); Licio Bruno e Roger Bueno (Giorgio Germont) –, além do elenco sobretudo local, que desempenhou os papéis comprimários e as partes coralistas. Discorrerei a seguir sobre o primeiro grupo, ao qual assisti. 
Como já apontado, a direção cênica e concepção do espetáculo ficou a cargo de Flávio Leite, que embora tenha acomodado a ópera a um tempo histórico posterior àquele em que ela se passa – a Paris dos roaring twenties, ao invés dos anos de 1850, contemporâneos à sua première –, ainda manteve o enquadramento realista da história, sublinhando com cuidado a curva descendente da malfadada Violetta Valéry, de diva soberana do demi-monde parisiense à mais completa espoliação e morte por tuberculose e principalmente por amor, já que a separação do homem que ela ama acelera a moléstia. 
Embora não seja uma ópera verista, “La Traviata” baseia-se num romance tributário do realismo literário, “La dame aux camélias”, ou “A dama das camélias” (1848), de Alexandre Dumas Filho, que se propõe a investigar os meandros da sociedade, abrindo mão dos laivos idealistas da produção literária anterior – por isso o romance se abre com o devassamento do sepulcro da protagonista (Marguerite Gautier), realizado pelo amante lamentoso (Armand Duval) que não chega a vê-la morrer, o qual apenas acredita em sua partida após encontrar os restos decompostos do corpo dela. 
 A obra de Verdi sofre os influxos do romance – extremamente bem-sucedido junto ao público –, embora beba sobretudo da montagem teatral dele, datada de 1852 (e escoimada de excessos como a exibição dos restos mortais da personagem). Por isso, a construção da queda paulatina da protagonista é capital à história, e o tour de force de se colocar isso em cena interessou a artistas do calibre de Greta Garbo, no cinema (1936), ou de Cacilda Becker, no teatro (1951) – malgrado a versão teatral da obra já estivesse datada. 
A sobrevida à história deu-a Verdi, tanto que “La Traviata” é, hoje, a ópera mais encenada no mundo. A eternidade da música dá à fábula da prostituta impedida, por preconceitos sociais, de ficar com o homem que ama – fábula ultrapassada mesmo quando foi escrita, conforme o arguto Machado de Assis comenta numa crônica da época coligida em Ideias Teatrais (de João Roberto Faria, 2001) –, a dimensão do mito. E porque é mítica, pode se encaixar nos anos loucos parisienses e ainda assim encontrar ressonâncias nos nossos dias, em que o reacionarismo ainda impera nos mais variados níveis, e qualquer luz libertária ainda é fadada à destruição. 
Daí, feita a digressão, a importância de uma encenação que deslinde essa curva descendente de Violetta e, de roldão, de todos os seus (e nossos) ideais – pois o amor apenas a encontra, nos estertores da obra, para vê-la morrer. 
A encenação de Flávio Leite leva isso em conta. Para tanto, tem a colaboração de Eduardo Menna, responsável pela cenografia, o qual preenche o espaço do palco com três paredes voltadas à plateia, que além de servirem como rebatedores, favorecendo a projeção das vozes, ainda recriam os espaços da casa de Violetta (paulatinamente espoliada de sua elegância, até que lhe resta, no terceiro ato, apenas a cama e a cadeira em que ela dolorosamente expirará), da vivenda campestre (onde os amantes Violetta e Alfredo vivem do idílio à obrigatoriedade, imposta à protagonista, de romper os liames que os uniam) e dos salões de Flora (em que se efetiva a ruptura do casal). O cerceamento do espaço físico favorece o esmiuçamento dos dramas dos personagens, dirigido por Leite e realizado com competência pelos artistas – sobretudo o trio principal, em que a obra se debruça. 
A recuperação do momento histórico ensejado pela produção foi bem realizada ainda no que diz respeito à cenografia – por exemplo, os vitrais e quadros art déco –, ao figurino de Daniel Lion, repleto de vestidos longuetes de cortes retos, tributários de uma época em que o espartilho acabara de cair em desuso, de colares longos de pérolas e pedrarias e tiaras de platina, e aos penteados e maquiagem de Hanny Barcellos, sobretudo no que diz respeito à mostra das nucas, o que recupera o corte à la garçonne, cuja androginia escandalizara a sociedade dos anos de 1920. 
A direção musical e regência do espetáculo couberam a Marcelo de Jesus, regente titular da Orquestra de Câmara do Amazonas e adjunto da Amazonas Filarmônica, que, na condição de maestro convidado, trabalhou com delicadeza com a Orquestra do Theatro São Pedro e com o Coro Lírico da CORS (que tem como maestro Sergio Sisto) e deu asas aos solistas, sobretudo aos artistas acima mencionados. O resultado foi um espetáculo homogêneo, testemunho tocante de um esforço direcionado e conjunto. 
Entre o elenco de comprimários, cumpre destacar os desempenhos da mezzo-soprano Carol Braga (Aninna) e do barítono Oritz Campos (barão Douphol), pela consistência dos trabalhos vocal e cênico realizados. 
O trio principal desta montagem de “La Traviata” foi desempenhado por três dos artistas mais reconhecidos na cena brasileira. Uma opção de direção cênica foi potencializar a vilania do pai conservador de Alfredo, transformado num assediador, já que ele chega mesmo a requestrar Violetta, no momento em que procura afastá-la do filho, além de exacerbar a sua violência, já que ele (numa cena muito bem ensaiada) culmina no desforço físico em direção a Alfredo, pouco depois de cantar “Di Provenza il mar, il suol” –, ária que, levando em consideração essa leitura, ganha laivos desusados de assédio moral do pai contra o filho que não desejava lhe seguir os passos. Lício Bruno, ótimo ator-cantor, desempenhou com galhardia o papel do proverbial pai conservador, que impõe a ferro e fogo as suas crenças, malgrado esteja errado. 
Outra opção da direção cênica parece ter sido o estabelecimento de uma relação mais horizontalizada entre Violetta e Alfredo – em que tradicionalmente ele é pautado pela ingenuidade e pelo idealismo descomedido. Giovanni Tristacci foi um Alfredo assertivo e sanguíneo, seja na sequência inicial, que culmina na decisão de ambos de entregarem-se ao amor (“Un dì, felice, eterea”); seja na sua excelente interpretação de “O mio rimorso!”, quando ele se dá conta de que vive às custas de Violetta; seja nas trocas com ela, ao descobri-la com um novo amante, na casa de Flora. 
“La Traviata” é, indiscutivelmente, a ópera de Verdi com maior protagonismo feminino. Para além da preponderante presença de Violetta em cena – da qual ela se ausenta apenas durante parte do segundo ato –, a música de Verdi propõe um mergulho aprofundado na alma da personagem, que deve exacerbar, vocal e cenicamente, da embriaguez pelo luxo à entrega ao abnegado amor romântico, do desejo de liberdade ao anseio de manutenção dos liames amorosos, enfim, da mais altissonante felicidade ao mais agudo sofrimento. 
Esta ópera demanda, para o papel-título, uma cantora e atriz num só tempo vocalmente preparada para vencer os desafios da partitura – mais especificamente a debacle paulatina da personagem, cuja voz deve fazer emergir aos olhos do público o seu fenecimento – e sensível à interpretação cênica. Tal artista é encontrada cabalmente em Ludmilla Bauerfeldt. 
Sempre me espanto (eu, que tenho uma compreensão bastante mais aprofundada de teatro que de ópera, como sabem aqueles que costumam me ler aqui) com a inteligência cênica da artista, que canta interpretando; a quem o Mi bemol do fecho de “Sempre Libera” não serve unicamente como virtuosismo vocal, mas sim é o ponto culminante de uma interpretação em que o desejo de liberdade aos poucos se mistura à emoção pela descoberta da possibilidade de ser amada, expressa num mover de olhos. 
A química com os colegas ofereceu-lhe grandes momentos, como no encontro com Giorgio Germont, em que ela deixou bem marcados os sentimentos conflitantes de repúdio e respeito que nutria por aquela figura de autoridade, ou o seu embate com Alfredo, nos estertores do segundo ato, em que a mulher outrora livre se descobre irremediavelmente atada àquele amor que a conveniência social julga impossível. 
Porém, ela ainda se superaria no terceiro ato, que felizmente foi encenado de forma tradicional, o que deu ao público a chance de observar uma performance digna das grandes atrizes dramáticas de todos os tempos.
Ludmilla estendida sobre a cama, sem maquiagem, fragilíssima, de cabelos desgrenhados, olhos perdidos e bela como nunca, ou então mal sustendo-se nos pés, arrastando-se até o amado para fenecer nos braços dele, é a imagem que ainda atravessa a minha mente. Uma interpretação deste nível sempre tem o poder de me transportar para aquele instante em 2012, quando eu fui incontornavelmente arrebatada pelo mundo da ópera, a arte das artes.

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As imagens são oriundas da página do Instagram da CORS.

sábado, 28 de março de 2026

Show Boats


Um dos maiores sucessos da Broadway nas primeiras décadas do século XX foi o musical “Show Boat”, com música de Jerome Kern e libreto de Oscar Hammerstein II. 
A obra estreou no então recém-inaugurado Ziegfeld Theater em dezembro de 1927 e se manteve em cartaz até maio de 1929 – um total de impressionantes 572 performances, segundo o IBDB. Foi, em seguida, reprisada na Broadway outras seis vezes, a última em 1997, além de ter sido montada ao redor do mundo. A obra baseia-se no romance folhetinesco de Edna Ferber, publicado em 1926. Aborda a trajetória da família do capitão Andy Hawks, que administra um espetáculo de teatro mambembe na embarcação Cotton Blossom, a qual singra os rios do Sul profundo dos Estados Unidos buscando entreter as populações que ali vivem. 
Malgrado a atualidade dos dramas narrados – traições, vício em apostas, abandono parental e preconceito racial –, “Show Boat” perpetuou-se no imaginário do público devido às suas canções. Sobretudo a dilacerante “Ol’Man River”, entoada pelo marujo negro Joe, e que ressoa a histórica exploração escravista ocorrida naquelas plagas, mas também os duetos românticos “Make Believe” e “You are love”, entoados pelo casal apaixonado Magnolia e Gaylord Ravenal – a filha do capitão e o jogador inveterado – e “Can’t Help Lovin’ Dat Man”, por meio da qual primeiro a atriz Julie LaVerne e, em seguida, Magnolia lamentam a perda dos homens que amam. 
A música de “Show Boat” atesta a maturidade de seu compositor, cuja carreira na Broadway remonta ao princípio do século XX (“An English Daisy”, com “música adicional” dele, de 1904, é a primeira obra sua apresentada ali, segundo o IDBD). 
Não é de se estranhar, portanto, que a obra de Kern tenha sido apropriada pelo cinema tão logo surgiram os talkies – e, por tabela, Hollywood viu a possibilidade de escoar internacionalmente esta produção que tanto sucesso já fazia no âmbito interno. 
O primeiro esforço se deu ainda em 1929, quando a sincronização entre banda sonora e película ainda claudicava. O “Show Boat” de 1929 teve como diretores Harry A. Pollard e Arch Heath, e pode ser fruído hoje graças aos esforços da Turner Classic Movies, que reconstruiu recentemente o filme a partir de elementos disponíveis. A ele se seguiram ainda duas obras homônimas: aquela que suponho ser a melhor versão da história, de 1936, dirigida por James Whale, e, enfim, a dirigida por George Sidney em 1951. 
Há ainda uma referência digna de nota a “Show Boat” produzida nos anos de 1940. Trata-se do filme “Till the clouds roll by” (1946), cinebiografia de Jerome Kern rodada um ano após a sua morte, cuja longa sequência inicial apresenta as primeiras cenas da première de “Show Boat” ocorrida em 1927 no Ziegfeld Follies, em que os pombinhos cantam “Make believe” e, enfim, Julie LaVerne canta “Can’t Help Lovin’ Dat Man”. 
Passemos brevemente a eles. 
A primeira versão cinematográfica da obra tem um interesse sobretudo histórico. Seu caráter de recriação a partir de material de arquivo nos impede de penetrar nas intenções do diretor, todavia, a contar pelo que resta, o filme assemelha-se a “The Jazz Singer”, em que longas sequências silenciosas, com acompanhamento sonoro extra-diegético, se alternam a sequências em que há números musicais e diálogos (alguns dos quais nos são apresentados apenas legendados, já que a banda sonora se perdeu). 
Alternam-se também dois regimes narrativos, sendo que tanto o manejo da câmera e a decupagem quanto as interações tributárias do cinema silencioso são infinitamente mais bem-sucedidas. Destaque-se, neste sentido, a rigidez de esfinge que Emily Fitzroy imprime à personagem de Parthenia Ann Hawks, a dura mãe de Magnólia, ou, em contrapartida, a suavidade da relação entre Julie LaVerne (Helen Morgan) e a Magnólia menina (Jane La Verne). 
O filme curiosamente passa ao largo de um elemento fundamental à peça que lhe deu origem: o casamento interracial entre a mestiça Julie LaVerne e o branco Steve Baker, considerado ilegal nos estados do Sul dos EUA devido às leis anti-miscigenação. Na obra de Harry A. Pollard e Arch Heath, Julie é solteira e deixa o barco expulsa pela mãe de Magnólia, pois esta a julga uma má-companhia para a filha. Assim, a história usa outro expediente para construir a debacle da mulher – não mais o abandono do marido e o álcool, como na versão teatral do longa; neste caso, a demissão a faz ingressar na prostituição de luxo. 
Nas demais obras, esse elemento ganha destaque, no entanto, apenas em “Till the clouds roll by” a personagem de Julie é efetivamente interpretada por uma mulher negra, no caso, por Lena Horne – talentosa cantora e atriz cuja carreira foi marcada pelo preconceito racial –, talvez porque, nesse filme-dentro-do-filme, não haja interação física entre a personagem e o seu marido. 
Hollywood, tão ciosa da moral e dos bons costumes – e das bilheterias que isso lhe garantiria –, preferiu não correr o risco de colocar em cena um casal interracial. Daí a apagar o drama que envolvia a personagem, na obra de 1929, ou a escalar mulheres brancas para interpretarem a personagem negra, em 1936 e 1951: novamente Helen Morgan e Ava Gardner, respectivamente. 
Outra pauta da obra teatral suavizada no cinema é o abandono parental. Isso ocorre mais especificamente na obra de 1951 – a qual, embora seja a última, é a mais conservadora de todas. Na obra teatral, Magnolia e Gaylord casam-se, têm uma filha e deixam o Cotton Blossom para viverem em Chicago uma vida primeiramente de abundância, e logo depois de penúria, já que ele passa a perder no jogo. Todavia, no filme de George Sidney, Gaylord abandona a esposa antes de descobrir a sua gravidez – apenas para encontrar, no desfecho, a criança e a mãe novamente vivendo no Cotton Blossom. 
Não é impossível que este desenrolar da trama buscasse se acomodar às personas de Kathryn Grayson e Howard Keel, os intérpretes do casal, que, na aurora dos anos de 1950, compunham um dos mais queridos pares românticos dos musicais da MGM. 
Assim, a melhor adaptação do musical de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II é, julgo, a obra de 1936. Produzida uma década depois da estreia teatral, ainda rescende o olor do espetáculo em que se baseia, tanto no que concerne à sua estrutura menos cinematográfica e mais teatral, quanto no que diz respeito à intimidade que porção do elenco tinha com os papéis. 
Irene Dunne, intérprete, em “Show Boat”, de Magnolia, tornou-se nacionalmente notória ao se tornar a atriz responsável pelo papel por ocasião da turnê do espetáculo, finda a sua temporada na Broadway, em maio de 1929. 
Ela, que era uma das grandes atrizes do cinema norte-americano da época, constrói uma interpretação filigranada de sua personagem, da juventude ingênua e passional à maturidade – já que a obra percorre um escopo temporal que aborda desde à juventude de Magnolia até o sucesso de sua filha atriz, ao seguir os passos da mãe. Allan Jones (Gaylord Ravenal) faz emergir no filme a intimidade que ganhara com o personagem ao desempenhá-lo na ópera de Saint Louis. O mesmo se dá com Charles Winninger (o capitão Andy Hawks), além da já citada Helen Morgan, os quais interpretaram o pai de Magnolia e Julie LaVerne na première da obra, no Ziegfeld Theater, em 1927. 
A esses artistas juntam-se intérpretes do calibre de Hattie McDaniel – que se tornaria a primeira atriz negra a ganhar o Oscar (em 1939, por “...E o vento levou”) –, no papel de Queenie, esposa de Joe (a quem cabe a interpretação da celebérrima “Ol’Man River”). 
Assim, embora Julie seja interpretada por uma mulher branca, este é o filme em que há maior presença negra, e uma troca mais horizontalizada entre negros e brancos – ao contrário da subalternidade observada nas demais obras. Há, ademais, uma encenação de “Ol’Man River” capaz de comover as pedras, protagonizada por Paul Robeson, em que a câmera se desloca do barco das ilusões à amarga realidade das plantações de algodão que ainda exploravam a mão de obra negra. 
Embora o filme se ressinta da estereotipação das personagens negras, já que é produto de seu tempo – há mesmo um black face de Irene Dunne, quando ela protagoniza, num dos espetáculos do Cotton Blossom, um número de minstrel show –, o debruçamento na dimensão humana das personagens dá um respiro mesmo a esta estereotipação. 
Neste sentido, o grande trunfo desta versão de “Show Boat” é a presença preponderante das cenas de interiores, o que favorece a exploração das relações entre os personagens e a investigação de seus dramas internos.
Ao encenar a sua obra sobretudo em espaços como o Cotton Blossom, ou os interiores dos teatros em que trabalham mãe e filha, James Whale exacerba a proximidade entre a arte e a vida; tópica principal de “Show Boat”, que é um libelo a favor da arte da representação – o “Make Believe” graças ao qual as vidas das personagens da trama tornam-se suportáveis.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

As mater dolorosas de Giacomo Puccini


Em comemoração ao centenário de Giacomo Puccini, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresentou, até o dia 27 de julho de 2024, seu
Trittico, conhecido do público sobretudo por sua reputação, pois, das três óperas que o compõem, a mais representada é a cômica, Gianni Schicchi
Exibida pela primeira vez no Metropolitan de Nova Iorque em fins de 1918, a tríade de óperas reproduz uma estrutura de programa teatral bastante comum na Europa (e por tabela no Brasil) durante o século XIX. Esses programas, longos, alinhavavam em sequência um conjunto de peças curtas, cômicas ou dramáticas, normalmente farsescas e peças de sensação (ou seja, dramalhões sangrentos, cujos enredos eram extraídos diretamente das páginas policiais). O bom senso fazia com que se apresentassem antes os dramas, fechando-se as récitas com as comédias, para que o público voltasse para casa com um sorriso no rosto. 
Essa sequência de dois dramas e uma comédia, cada qual em um ato, é adotada no Trittico pucciniano. Meu intuito não é esmiuçá-la aqui, mas sim me concentrar em duas personagens femininas deste conjunto de obras, em parte porque os dramas de ambas se aproximam, em parte porque fiquei profundamente tocada pelas performances das artistas que lhes deram vida nesta montagem carioca: Eiko Senda e Ludmilla Bauerfeldt, na récita a que assisti, em 21 de julho. 
Senda desempenhou o papel de Giorgetta em Il Tabarro, trama ambientada na França popular dos anos 1920; recorte humano aproveitado pelos dramaturgos naturalistas desde a virada do século. O libreto, de Giuseppe Adami, é oriundo da peça La Houppelande, de Didier Gold, estreada em Paris em 1910. A trama se passa às margens do rio Sena, na embarcação de Michelle, marido de Giorgetta. Obras dramáticas – peças e filmes – com esta temática pululavam então, já que essas barcaças são uma entidade francesa (passeando às margens do Sena, o turista ainda hoje se depara com as peniches, que são casa e ganha-pão de um número não desprezível de pessoas). 
Como corresponde às obras em ato único, a trama desdobra o enredo com rapidez. Giorgetta principia rejeitando as carícias do marido, e logo, em meio às interações aparentemente sem consequências que ela trava com os empregados dele, ao longo de um número de dança, descobrimos que ela está envolvida amorosamente com um desses homens, Luigi. 
Obra de inclinação naturalista, Il Tabarro coloca em primeiro plano os instintos incontroláveis que determinam o curso das existências. A mulher cede à paixão e entrega-se à relação extraconjugal. O marido cede à ira e mata o amante da esposa – e conforme a música de Puccini nos faz antever, provavelmente também acabará por matá-la. Nenhuma liberdade associada à vida à flor das águas é aproveitada por essas personagens, presas em seus dramas interiores. 
A encenação carioca do Trittico desloca a ambientação da trama, que seria na embarcação, para um galpão escuro, deixando ainda mais patente esta prisão. Descobriremos ali, por meio de Michelle – homem que, antes de se saber traído, é torturado pela rejeição –, que o casal havia perdido recentemente um filho, que amorosamente acalentavam sob a proteção do capote dele (o tabarro do título). 
Esta informação ganha valor ao analisarmos a ópera segundo os cânones do naturalismo. O caráter visceral da relação entre a mãe e o filho, que parece apressar os acontecimentos nesta ópera, é patente ao menos noutras duas obras de Puccini, Madama Butterfly e Suor Angelica
Eiko Senda tem intimidade com essas personagens puccinianas dilaceradas. Ela, atravessada pela Madama Butterfly (um de seus cavalos de batalha, que ela incorporara com excelência meses antes em São Paulo) – personagem que sucumbe após saber que, além de perder o amado, ele ainda lhe tirará o filho deles –, impregna de densidade psicológica a mulher que, se é culpada pela traição, é antes deslocada pela perda incomensurável. 
Orientada pela direção consistente de Pablo Maritano, Eiko constrói com profundidade a repulsa, a paixão e a dor muitas vezes misturadas desta mulher do povo – personagem tão cara aos autores naturalistas, para os quais os estamentos sociais inferiores eram os sujeitos ideais para que se observassem a ação dos instintos sobre os seres. Sua entrega vocal e cênica enche de matizes uma obra que, pela sua duração e temática principal – o triângulo amoroso –, estaria inclinada a ser lida, nesta sociedade machista, sobretudo como um caso de traição exemplarmente punida. 

A exemplo de sua colega, Ludmilla Bauerfeldt, em sua performance como a personagem-título de Suor Angelica, extrapola os limites do enredo da obra. Também esta obra de Puccini (o libreto é de Giovacchino Forzano) coloca em cena a sociedade machista, contando a história da jovem que, no século XVII, é internada num convento pela família nobre após gerar um filho fora dos liames do casamento. 
 A leitura de Pablo Maritano e a cenografia de Desirée Bastos sublinham a severidade deste quadro social permeado pela igreja, reduzindo a sororidade e a ludicidade da relação entre as irmãs, presente na trama. Angelica resta só em meio às paredes opressoras do claustro sombrio, enquanto no libreto a cena se dá ao ar livre, num luminoso entardecer. 
O pouco suporte emocional que ela encontra por parte da tia calculista e a obrigação, por parte de duas irmãs, de assinar o documento que a parenta leva ao convento, com a disposição da herança, apressam o desenlace de Angelica, anunciado pelo libreto desde o princípio da ópera: “O sorella, la morte è vita bella!”. Nesta encenação, Angelica ganha um primeiro plano ainda mais patente do que lhe dão libreto e música, aparecendo em cena muitas vezes apartada das demais freiras, o que salienta a sua solidão, enquanto noutros momentos recebe uma iluminação incandescente que patenteia o seu dilaceramento, expresso pelo seu rosto crispado – por exemplo, quando se retira do claustro pela primeira vez, e é iluminada pela luz que vem do cômodo contíguo. 
Cenografia, encenação e, sobretudo, a inteligência cênica de Ludmilla Bauerfeldt preparam o público para o desenlace da ação. O desespero da personagem ao saber que o filho morrera; a insânia que aos poucos vai tomando conta dela – o que a faz, na contracorrente do catolicismo, apressar a sua própria morte para se encontrar com o filho; e, enfim, o seu arrependimento são construídos pela artista com uma excelência emocionante. Além de vocalmente impecável, Ludmilla mergulha na personagem que desempenha com uma profundidade dramática inusual, em que a expertise técnica se deixa atravessar por uma emoção genuína, que arrasta de roldão toda a plateia. Sortudos daqueles que a viram desempenhando este papel, pois vivenciaram uma experiência estética única (há um longo trecho filmado do espetáculo, que convido fortemente o leitor a ver aqui).
O trabalho realizado por essas duas grandes artistas nessa produção do Trittico destaca que, para além da qualidade do canto, a atuação - e, neste sentido, uma direção consistente dos atores/cantores - é um aspecto fundamental da ópera contemporânea, pois consegue dar atualidade a obras criadas há tempos, fazendo ressoar os dramas com os quais nos debatemos hoje.

As imagens são oriundas de material de divulgação e das redes sociais de participantes dos espetáculos.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Giornate del Cinema Muto de Pordenone 2025 – Dia 8

“Narysy Radianskoho Mista”

Dia 8, sábado, 11 de outubro 

No oitavo e último dia da Giornate del Cinema Muto foi exibido, em sua modalidade virtual, um longo e suculento programa duplo composto: 1- por “Aleppo” (1916), “La capitale du Brésil” (1931-1932) e “Narysy Radianskoho Mista” (Sketches of a Soviet City, 1929), acompanhados por Mauro Colombis; 2- por “Soldier Man” (1928) e “Are Parents People?” (1925), com acompanhamento musical, respectivamente, de Mauro Colombis e Neil Brand. 
Grosso modo, uma sessão dedicada aos documentais, outra, a filmes de ficção. A primeira apresentou duas obras mais tributárias do primeiro cinema, voltadas à mostração da cidade síria de Alepo e do Rio de Janeiro. Ambas têm vieses contemplativos e encomiásticos. São parte de um programa mais amplo da mostra, denominado “The World that Was”, e embora a intenção de Jay Weissberg, seu curador, não fosse a visada idealizada ao passado como um lugar melhor, não podemos nos furtar à nostalgia enquanto as observamos. 
A versão de “Aleppo” (1916) apresentada é embebida (portanto, colorida), oriunda do Eye Filmmuseum, de Amsterdã. A obra apreende a convivência entre a cidade antiga e a, então, moderna – já que esta nascera nas adjacências daquela, e os sítios arqueológicos (a cidade fora pródiga na época da rota da seda) mantiveram-se por séculos de pé, até que a recente guerra civil de que o país é palco os destruiu. Assim, ruínas e mesquitas, oriundas do passado e do presente, surgem em longos panoramas, e homens, mulheres e crianças, seus usos e costumes, são perscrutados quando a câmera passeia pelo meio deles. 
O corte abrupto final aponta para a ausência de material fílmico ou para o desinteresse de se construir uma curva dramática. Antes de qualquer preocupação mais direta de preservação do cinema para as futuras gerações, parece emergir dessas imagens sobretudo o desejo de congelar o tempo, para que aquele mundo tal qual ele era fosse fruído décadas mais tarde. 
O segundo filme tem, para nós, obviamente um interesse maior. 
“La capitale du Brésil” (1932-1932), segundo a cartela de apresentação, é uma “Edição do Museu Agrícola e Comercial do Ministério da Agricultura”. Há ainda uma cartela adicional do “Ministry of the Interior”, que atesta a autorização para que a obra fosse exibida no Egito, o que aponta para uma possível encomenda deste país – o mistério concernente à sua rodagem também não é elucidado pelo Catálogo e pode titilar a curiosidade dos pesquisadores brasileiros da área. A versão exibida, oriunda da Nasjonalbiblioteket, de Oslo, é também embebida e denota apuro técnico. 
E aqui, também, encontramos o tempo passado encapsulado para o nosso deleite. O interessante neste filme é a ambivalência entre os sítios que remanesceram e a guinada havida nos costumes. Malgrado seja produzida pelo Ministério da Agricultura, a obra tece uma visada turística da cidade, captando planos fotográficos de seus locais de interesse: o Theatro Municipal, a Quinta da Boa Vista, o Jardim Botânico, o Jóquei Club, o Fluminense Football Club. 

Enfim, “Narysy Radianskoho Mista” (1929), obra principal do programa, rodada por Dmytro Dalskyi na República Soviética Socialista da Ucrânia, tem maior interesse do ponto de vista cinematográfico. 
Exibida no programa “Riscoperte” (Redescobertas) do evento, bebe da estética das sinfonias metropolitanas, de que “Berlin, Symphony of a City”, de Walter Ruttmann, rodado dois anos antes, é o mais candente exemplo (embora possamos destacar também “Um homem com uma câmera”, de Dziga Vertov, daquele mesmo ano de 1929). 
Efetivamente, a obra compartilha com esses dois filmes a montagem ágil, a sobreposição de imagens. Neste sentido, esses “Esboços de uma cidade soviética” investem efetivamente na construção imagética que buscava mimetizar a cidade cintilante, amoldada por mãos operárias, que se buscava construir do ponto de vista político. 
Assim, o objetivo propagandístico é patente nela. Sem rebuço, a obra mostra o burilamento dos corpos e espíritos que seriam úteis ao Estado desde a infância: daí os exercícios físicos realizados pelos meninos e o incentivo à leitura, que culmina na atribuição do prêmio de melhor autor operário. Em paralelo, incensa-se o desenvolvimento industrial, de um lado, e do outro, o emocional – na multiplicação de crianças que correm na direção das “mamães”, ao saírem da escola. “Narysy Radianskoho Mista” retrata, assim, a produção soviética almejada naquele período – efusiva, upbeating – e, por consequência, demonstra porque artistas como o compositor Dmitri Schostakowitsch foram perseguidos ao caminharem em sua contracorrente. 
O segundo programa do dia, e último da mostra, foi dedicado a duas obras de ficção. A primeira delas, a comédia norte-americana: “Soldier Man”, foi rodada por Harry Edwards em 1926, segundo Jay Weissberg, e exibida em 1928. A obra, oriunda do programa “The Chaplin Connection”, tem ainda a curiosidade de possuir, como um de seus roteiristas, Frank Capra – e é interessante percebermos as influências que o slapstick teve no burilamento da screwball comedy, de que Capra seria um dos magos nos anos de 1930. 
Protagoniza-a Harry Langdon, e porque ele é um ótimo ator, a obra recende, num só tempo, humor e melancolia, como as screwballs tão bem fariam futuramente. Langdon é o soldado sem nome que perde o navio que levava as tropas vitoriosas para a casa, finda a Primeira Grande Guerra, e que vaga pelos campos solitário e faminto, ainda se supondo em pleno conflito. Impagáveis episódios cômicos brotam da premissa melancólica: enquanto os habitantes locais utilizam as dinamites abandonadas em seus afazeres, ele se imagina protagonizando um combate cruento, por exemplo. 
A obra salta da ficção histórica para a mais descabelada fantasia quando o homem é percebido como o sósia do rei Strudel XIII (também interpretado por Langdon), do reinado fictício da Bomania. Pordenone exibiu durante alguns anos esses filmes que homenageiam a “Ruritania”  e sobre eles teci alguns comentários aqui , reinado fictício da Europa central que foi palco de “O Prisioneiro de Zenda” e deu ensejo para um sem-número de obras do tipo. Esta foi concebida, segundo informa o Catálogo, como uma paródia de “O Prisioneiro...”, todavia, sua estreia foi adiada por dois anos, devido ao excesso de filmes com essa temática existente então, e seus quatro rolos iniciais transformaram-se em três na ocasião do lançamento. 
O nome culinário do monarca não é casual. Strudel XIII procurava especialmente saciar as suas necessidades biológicas: o rei beberrão negligenciava a esposa e, além de tudo, era belicoso – mal maior naqueles tempos em que o cinema contribuía com a propaganda antibelicista. O famélico soldado ascende à realeza como títere, para encerrar a guerra ainda protagonizada pela Bomania. No entanto, acaba por também representar um melhor marido aos olhos da menosprezada rainha sem nome interpretada por Natalie Kingston. 
O filme tem ritmo e preciosos achados cômicos – veja-se o esforço do soldado-tornado-rei de cumprir as suas obrigações maritais junto à rainha e, ao mesmo tempo, alimentar-se. Todavia, a redução de sua metragem tem um impacto negativo na economia narrativa, já que a obra se encerra abruptamente, sem desenlaçar com clareza, seja o episódio envolvendo o casal real, seja a troca de papéis. 

Enfim, a derradeira obra, “Are Parents People?” (1925), é uma comédia norte-americana de Malcom St. Clair tributária das obras de Ernst Lubitsch – seja pelo recorte social retratado, a alta burguesia, seja, enfim, pelo humor sofisticado. 
A qualidade inferior da cópia (um DCP oriundo de um 16mm embebido) é compensada pelo interesse da história – o qual repousa menos no entrecho que na forma como ele é contado. A obra centra-se na família da colegial Lita Hazlitt (Betty Bronson), cujos pais, Alita Hazlitt (Florence Vidor) e James Hazlitt (Adolphe Menjou), estão em pleno processo de divórcio – a câmera capta as entradas e saídas furtivas do casal de seus respectivos quartos, desejosos de não se esbarrarem, bem como as suas pequenas disputas. 
No melhor estilo “The Parent Trap” (1961, 1998), a jovenzinha fará de tudo para reunir os pais. A trama equilibra arejamento na forma e moralismo na temática. Cabe ao Dr. John Dacer (Lawrence Gray), interesse romântico da garota, pespegar no casal a lição de que deveriam deixar de lado a sua “incompatibilidade” – motivo pelo qual se separavam – e cuidar da filha, que lhes escapava. 
Na verdade, Lita procurava aplicar aos pais a estratégia aprendida em certo livro de autoajuda, segundo o qual todas as diferenças do casal caíam por terra quando a prole estava em perigo. Assim, aproveitando-se de um equívoco, ela acaba expulsa da escola e desaparece de casa. 
Os quiproquós se seguram sobretudo às custas da adorável Betty Bronson, que dá corpo admiravelmente bem a uma dessas mocinhas arejadas que o cinema dos anos de 1920 principiava a construir, reflexo daqueles novos tempos. É ela quem vai à casa do moço, procurando pregar uma peça nos pais e o “compromete”. E é ela que, naquela época na qual o cinema era uma das principais indústrias dos Estados Unidos, torce o nariz e, enfim, manipula um ídolo cinematográfico, para que ele sirva ao papel de Cupido que ela tomava para si. Depois de nos depararmos com tantas mulheres malfadadas, esse “Are Parents People?” foi um bem-vindo respiro. 
E assim terminamos esses oito dias – passemos ao largo do fato de eu ter atrasado esse último texto – de reflexões sobre filmes silenciosos, semana sempre tão esperada por mim. Meu tão prezado encontro anual com a Giornate é o encontro comigo mesma; o apanhamento dos meus retalhos espalhados na loucura cotidiana. Que venha o próximo, presencial ou virtual, ambos igualmente amados.

sábado, 11 de outubro de 2025

Giornate del Cinema Muto de Pordenone 2025 – Dia 7

Dia 7, sexta-feira, 10 de outubro 
A produção alemã da UFA “Die dame mit der maske” (The Lady with the Mask, 1928), dirigida por Wilhelm Thiele, constou em programa único, ontem. Emerge nela o colapso social alemão que se seguiu à Primeira Grande Guerra. 
No interior de uma casa de penhores situada num subsolo, tomadas dramáticas flagram a janela a silhueta de uma mulher refinada que ali entrará para deixar o casaco de pele em troca de dinheiro para quitar os seus gastos básicos. Ela é Doris von Seefeld (Arlette Marchal), e, ao se retirar, é seguida por Alexandre von Illagin (Wladimir Gaidarow) – que, como nós, a observava. Ele recomenda-lhe um teatro de vaudeville no qual recentemente se empregara. Ela segue a sugestão do desconhecido e, assim, conhecerá a ruína. Não por conta da ausência de sucesso. Doris torna-se vedete da companhia, a mulher mascarada que arranca suspiro da população alemã. 
Escondida atrás da máscara, Doris protege a sua identidade e, por consequência, a reputação do pai, um aristocrata falido e demasiadamente afeito à moral e aos bons costumes. Tudo muda, no entanto, quando a moça é literalmente desmascarada e, com isso, passa a ser insistentemente requestada pelo empresário Otto Hanke (Heinrich George), que mesmo a ameaça denunciá-la ao pai, caso ela o rejeite. 
A trama faz uma ótima caracterização do bas-fond alemão: a ânsia da busca por diversão, mesmo que ela denote o comércio de carne humana; as inúmeras coristas a quem a entrega carnal parece ser, naquela situação econômica, a única forma de ascensão social (dentre elas, Dita Parlo, que se transformaria numa diva do cinema alemão). 
Há uma ousadia desusada sobretudo no que diz respeito à presença de pele feminina à mostra, o que, segundo aponta Miranda Reason no Catálogo da Giornate, quase levou a obra a ser censurada. Ademais, há na obra tomadas de grande força dramática, a exemplo daquela em que Doris, dançando mascarada, vê Otto em todos os rostos que a assistem, mal imaginando que entre o público encontra-se o pai dela. 
No entanto, se “Die dame mit der maske” promove uma investigação dos meandros sociais com tônus naturalista/expressionista, o filme, ao mesmo tempo, bebe desabridamente das convenções do gênero melodramático, estratégia que dá ao conjunto pouca organicidade. Veja-se o papel do namorado da protagonista da narrativa na economia cênica, sobretudo o seu esforço de recuperar uma bota que perdera, em cujo salto ele escondera as joias que os tornariam ricos – botas que ele surpreendentemente reencontra (no entanto, precisamos destacar a cena deste encontro, impagável em sua tragicomicidade) –, pouco depois de ter rompido com a mocinha por julgá-la amante do homem que a perseguia. 
Neste sentido, igualmente, a história termina num happy ending inesperado e algo postiço, dada a natureza trágica da história narrada: vinda de escapar de uma agressão sexual de Otto, Doris reencontra o namorado, descobre as novas referentes às joias e, depois de se explicar, ambos se reconciliam. Vemo-los, no desfecho da história, dentro de uma idealização conjunta: ambos se imaginam belos, perfumados e bem-vestidos, na carruagem que os levaria a um evento noturno – ao fim e ao cabo, a felicidade encontra-se nas posses materiais, o que não deixa de ser uma visada cínica à existência.