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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Oscar 2015: Balanço geral e lista dos melhores, versão Filmes, filmes, filmes!

Oscar. A relação dos indicados invariavelmente me perturba – as mediocridades escolhidas para os grandes prêmios (e que às vezes se sagram vencedoras); o desnível existente entre os artistas indicados à determinada categoria, visando-se claramente o benefício de um em detrimento dos outros; as distorções que ocorrem entre os indicados a uma categoria, mas não à outra complementar. Porém, sempre acabo me rendendo à lista dos melhores, geralmente convidada pelas colegas blogueiras que há anos alimentam com incrível pertinácia o “DVD, Sofá e Pipoca”. Sou pro diabo nostálgica; à cada lista lembro-me de minhas primeiras, de quando torci para Coração Valente ou O Resgate do Soldado Ryan, das manhãs insones no colégio depois de passar a madrugada comemorando as vitórias de Titanic ou de Shakespeare Apaixonado (ah, a adolescência...). 
Mas, vamos logo à ação. 
Eddie Redmayne e Felicity Jones em
A teoria de tudo
Para ser sincera, só agora eu pude ler com cuidado a relação dos indicados a todas as categorias. Daí o frescor da minha surpresa publicada acima... Alguns ótimos filmes compõem a lista dos melhores: Boyhood, Whiplash, O Jogo da Imitação, A Teoria de Tudo. Sobretudo Birdman (ou A inesperada virtude da ignorância), que para mim é desde já um dos grandes filmes da Sétima Arte, merecendo com louvor a estatueta. Razões para isso valem um post particular, que surgirá no momento oportuno: a agudeza na escolha do tema – o rolo compressor da indústria cultural –; do protagonista Michael Keaton, uma vítima do sistema, até outro dia um antigo super-herói, de aparente irreversível decadência (ele mereceria o Oscar pela abnegação com que mergulha no seu ridículo e cativante alter-ego). Voltaremos a isso. 
Ainda não vi Sniper Americano e Selma. O primeiro é, dizem, de um americanocentrismo sem tamanho, mas até agora Clint Eastwood não me deu motivos suficientes para que eu desconfiasse de sua perspicácia como diretor. Opinarei, no entanto, depois de vê-lo. Já O Grande Hotel Budapeste é, para mim, o Os Miseráveis deste ano. Como o outro, um filme reverberante e vazio. Foge-me o porquê de um e outro terem caído nas graças do público (lembro-me dos equilibrados franceses, a aplaudirem entusiasticamente ao fim da sessão de Os Miseráveis à qual assisti em Paris – sessão da qual eu fiz força para não fugir, aliás). Sem problemas; ele certamente será batido por concorrentes de melhor cepa. 
Michael Keaton em Birdman
Birdman é uma daquelas preciosidades nas quais há simbiose perfeita entre tema e forma. Portanto, não dá para premiá-lo sem reconhecer, também, a excelência de seu diretor, Alejandro Gonzáles Inárritu. Ou a montagem brilhante, que constrói cinematicamente a onipresença do personagem-protagonista, misturando, além de tudo, os tempos do teatro e do cinema, artes com especificidades diferentes. Mas, pasmo, Birdman não concorre ao prêmio de melhor montagem! E aquela trilha-sonora que é o coração da obra – como a bateria é o coração das bandas de jazz e rock –; seca, agressiva, uma saraivada de balas, por que não concorre como melhor trilha sonora? 
J. K. Simmons em Whiplash
Mas, há algo mais curioso: a trilha que é o próprio tema de Whiplash também ficou de fora da disputa... Whiplash, aliás, protagoniza outra distorção do Oscar 2015. J. K. Simmons, seu protagonista indiscutível, concorre, nele, como ator coadjuvante. Vai ser premiado, pois há, ali, espaço para ele deslindar a sua excelência. Porém, a justiça pediria que ele dividisse a categoria com Keaton e companhia, deixando o prêmio para um vero coadjuvante (eu torceria para Ethan Hawke). 
Mas o pário será duro entre os protagonistas. Além do já citado Keaton, há duas pérolas: Benedict Cumberbatch e Eddie Redmayne. Ambos representam o que há de melhor no Oscar: de repente, um ator obscuro – pode ser um super-herói de blockbuster (à la Birdman) para o qual a gente não dá muito, um galanzinho aparentemente sensaborão de comédia romântica, ou um participante discreto de um all star picture – deixa-nos com a respiração suspensa, por personificarem a excelência que o Oscar tanto almeja (e raramente atinge). 
Benedict Cumberbatch e Keira Knightley
em O Jogo da Imitação
No início do ano passado, eu disse que o até então para mim desconhecido Cumberbatch era o que de melhor havia em Álbum de Família, e apostava em sua indicação como coadjuvante. A indicação não veio, mas surgiu uma chance melhor para que brilhasse esse ator que, no final das contas, não era tão desconhecido assim (é um bem reputado Sherlock Holmes de uma série que eu nunca vi, e ator nas franquias Star Trek e Hobbit). 
Já o nome de Eddie Redmayne não me dizia nada, até que eu abri sua página do IMDB e o descobri fazendo parte de tudo. Do execrável Os Miseráveis, de Sete Dias com Marilyn, de séries de TV e filmes adolescentes. Redmayne não desempenha Stephen Hawking, é o próprio. Mas, sua premiação, que para mim é certa, deixa-me na boca um gosto agridoce. Ele desempenhou o protagonista almejado pelo Oscar – distorceu-se fisicamente até atingir o talhe de seu retratado. Porque ele o faz muito bem, eu o congratulo de antemão. Porém, porque eu acho que atuação não seja só isso; que conta a artesania, a emoção, a despersonalização até que se atinja a alma (não só o físico) do outro, meu coração fica com Cumberbatch. Que maravilha poder ainda encontrar, na embonecada Hollywood, esses tipos que não são nem bonitos, nem feios. São o personagem; do personagem. Não vou me esquecer tão cedo do rosto de Benedict Cumberbath ao cabo de O Jogo da Imitação, já visitado pela insânia, enrijecido pela impossibilidade de exacerbação de seu amor proibido. Lembrou-me outro grande, Michael Fassbender, igualmente aterrador e maravilhoso em Shame. 
Julianne Moore em Para sempre Alice
Entre as atrizes, há uma Julianne Moore que reputam excelente pela sua performance em Para sempre Alice, filme ao qual eu não assisti. Rosamund Pike, muito bem pelo já aqui comentado Garota Exemplar; Resse Witherspoon, correta em Livre – um bom filme, mas com uma protagonista feminina um tanto quanto morna (melhor é o papel de coadjuvante, que possivelmente dará o Oscar a Laura Dern). Marion Cotillard, não pelo seu tour de force em Era uma vez em Nova York, mas sim por um filme francês (Dois dias, uma noite, dos irmãos Dardene – ao que tudo indica, uma obra bem atual, que se debruça sobre o rescaldo da crise europeia). De todas as que vi, a que mais me surpreendeu foi Felicity Jones, que eu supunha uma cantora pop (?) até que, passeando por sua página no IMDB, vi-a como protagonista de uma porção de comedinhas que passei da idade de assistir. Ela venceu admiravelmente o desafio imposto, ombreando-se ao seu brilhante coprotagonista, em A Teoria de Tudo. 
Emma Stone em Birdman
Por fim, duas palavras sobre as atrizes coadjuvantes e os filmes estrangeiros. Todas estiveram muito bem (não vi apenas Meryl Streep). Keira Knightley está uma atriz cada vez mais bem-preparada. Patricia Arquette, ótima – numa obra tão cheia de qualidades, mas que tem o azar de competir com uma safra excepcionalmente boa de filmes. Laura Dern é o ponto alto de Livre, e merece o prêmio que vai ganhar. Mas, meu coração – de novo ele – é de Emma Stone, atriz luminosa, a melhor de sua geração, excelente no pequeno papel que lhe deram no grande Birdman. 
Timbuktu
No que toca aos filmes estrangeiros, a seleção é a melhor em muito tempo. As apostas, pelo que vi, estão entre Timbuktu e Leviatã. Qualquer um dos dois mereceria a estatueta, e também Relatos Selvagens ou Ida. Ida é low profile. Não faz grande uso estético da paleta do cinza, mas conta com qualidade a história da jovem noviça, que subitamente se descobre a judia cujo único remanescente familiar é uma tia que é o seu avesso. Já Relatos... é um desbunde cinematográfico, mas demasiado artificioso – revi-o recentemente, me deleitei durante a exibição, mas ele me deixou tão logo eu deixei a sala. O tempo arrastado do princípio de Leviatã me perturbou um pouco. E Timbuktu não me abandonou até hoje. Malgrado a artificialidade romanesca que costura a história (o filme foi rodado na Mauritânia), o tema é demasiado pungente (os desmandos do talibã e as consequências de sua "guerra santa", sobretudo para as mulheres) e a fotografia, arrebatadora demais. Meu Oscar de filme estrangeiro vai para ele. 

E agora, os meus pitacos para este ano (desta vez, seguindo a razão...): 



Melhor filme: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Melhor diretor: Alejandro González Inárritu - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Melhor atriz: Julianne Moore - Para Sempre Alice 
Melhor ator: Eddie Redmayne - A Teoria de Tudo 
Melhor ator coadjuvante: J.K. Simmons - Whiplash: Em Busca da Perfeição 
Melhor atriz coadjuvante: Laura Dern - Livre 
Melhor canção original: "Glory", por John Legend, Common - Selma 
Melhor roteiro adaptado: Graham Moore - O Jogo da Imitação 
Melhor roteiro original: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Melhor longa de animação: Como Treinar o Seu Dragão 2 
Melhor documentário em longa-metragem: Citizenfour 
Melhor longa estrangeiro: Timbuktu (Mauritânia) 
Melhor fotografia: Emmanuel Lubezki - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Melhor figurino: Milena Canonero - O Grande Hotel Budapeste 
Melhor documentário em curta-metragem: Crisis Hotline: Veterans Press 1 
Melhor montagem: Boyhood - Da Infância à Juventude 
Melhor maquiagem e cabelo: Frances Hannon, Mark Coulier - O Grande Hotel Budapeste
Melhor trilha sonora: Johann Johannsson - A Teoria de Tudo 
Melhor design de produção: Maria Djurkovic, Tatiana Macdonald - O Jogo da Imitação
Melhor animação em curta-metragem: The Feast 
Melhor curta-metragem: The Phone Call 
Melhor edição de som: Martín Hernández, Aaron Glascock - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Melhor mixagem de som: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Melhores efeitos visuais: Interestelar

sábado, 3 de janeiro de 2015

Os melhores e piores de 2014 (I)

O blog entra 2015 com a famigerada lista dos melhores (e piores) filmes do ano que passou. A relação, sempre se considerando o que chegou até essas plagas, é extensa – prova da boa safra de filmes em 2014. Portanto, divide-se em dois posts, e por por continentes, de modo a facilitar a sua organização. E, porque é extensa, será aqui apresentada em flashes, com breves comentários sobre cada obra e minha apreciação acerca delas. Busca especialmente provocar o leitor curioso a ir por si só às obras e tecer suas considerações sobre elas. 

Comecemos com a América do Norte, o grande mercado produtor e exibidor de cinema – falamos dos EUA, sobretudo. O Canadá, embora produza, chega muito pouco até nós. 
Joaquin Phoenix em "Ela"
O ano de 2014 abriu com uma longa seleção de indicados ao Oscar, todos a aportarem religiosamente por aqui, mesmo os medianos. Os melhores foram “O lobo de Wall Street” (“The Wolf of Wall Street”, 2013), ótimo filme do eclético (e sempre perspicaz) Martin Scorsese, saga do par de vigaristas de luxo interpretados com excelência por Leonardo Di Caprio e Jonah Hill. Infelizmente, nem o diretor, nem o protagonista, receberam as tão merecidas estatuetas, distribuídas protocolarmente entre coisas bem menos interessantes – as quais serão aqui merecidamente deixadas de lado... 
Houve também “Ela” (“Her”, 2013), encanto de filme de Spike Jonze com os ótimos Joaquin Phoenix e Amy Adams (e a voz de Scarlett Johanson, programa de computador por quem o protagonista se apaixona). É o retrato poético de um mundo cada vez mais reduzido à inteligência artificial. Vale muito a visita, assim como o melhor de todos, “Trapaça” (“American Hustle”, 2013), no qual David O. Russell (também coautor do roteiro) orquestra um time memorável composto por, novamente, Amy Adams, e também Christian Bale, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. A trama gira em torno dos triunfos e dissabores de um grupo de trambiqueiros. Mas vale a pena especialmente pela leitura irônica e sensual dos anos de 1970, e pela sem-cerimônia com que as quatro estrelas se permitiram transformar em tipos ultra bregas, jogando com deleite o jogo do cinema. 
A corrida para o Oscar de 2015 não demorou a começar. Os concorrentes mais ou menos se assemelham. Há os filmes verdadeiramente bons; os passáveis; e os pretensiosos e/ou estopadas. 
"Interestelar"
Destes últimos, bons exemplos são o interminável “Interestelar” (2014), patacoada de Christopher Nolan (o diretor do ótimo “A Origem”, que aqui assina o roteiro em parceria com Jonathan Nolan), com Matthew McConaughey, Anne Hathaway e Jessica Chastain. A tentativa intentada de aproximação com “2001: Uma odisseia no espaço” resulta ridícula. A passagem do tempo no espaço sideral é arbitrária, ok. Mas a viagem, a exploração, os reveses ganhariam em qualidade se fossem apresentados com maior enxuteza e menos artefatos lacrimogênios. Ganhamos um dramalhão de 3 hrs passado no espaço. Não nos assustemos se ele levar algum(ns) Oscar(s) (a surpreendente posição de 16.º melhor filme de todos os tempos, no IMDB, mostra que o povo gostou bastante do resultado...). 
Tilda Swinton em "Grande Hotel Budapeste"
Dois outros filmes que se encaixam supracitada categoria são “O Grande Hotel Budapeste” (2014), de Wes Anderson, e “Magia ao luar” ("Magic in the moonlight", 2014), de Woody Allen (também autor do roteiro). O primeiro é uma papagaiada – com todo o respeito que eu tenho por (especialmente) Ralph Fiennes, Mathieu Amalric e Tilda Swinton. Wes Anderson procura ser espirituoso e profundo, na sua reflexão sobre a “perda de elegância” do mundo e outros temas pseudofilosóficos, porém dá a essa sua obra a consistência daqueles bolos lindamente confeitados, que enchem os olhos mas não valem a mordida. 
Emma Stone e Colin Firth em "Magia ao luar"
Sobre “Magia ao luar” (“Magic in the moonlight”, 2014), aliás, sobre Woody Allen: acho louvável seu empenho por continuar trabalhando, mas suponho que a crítica recente o esteja supervalorizando. Acho que a sua obra ganharia se ele a deixasse encorpar antes de trazê-la a lume – como a gente faz com os pães antes de colocá-los no fogo. Não precisamos de mais uma refação de “Noivo neurótico, noiva nervosa”; de mais um protagonista alter-ego do autor, a arrotar erudição e ceticismo. Neste filme, ao contrário de seu último, “Blue Jasmine”, nem mesmo os protagonistas foram escolhidos com acerto. Pobre Emma Stone, sempre tão carismática, aqui apagada. Pobre Colin Firth, sempre elegante e profundo, aqui, um paspalho. Torço para que o Oscar de Melhor Roteiro original acerte outra pessoa em detrimento do Sr. Allen... 

Ellar Coltrane, "Boyhood"
Mas nem tudo foram espinhos na terra do tio Sam. Jim Jarmusch acertou com “Amantes eternos” (“Only lovers left alive”, 2013), conto pop dos vampiros centenários (os ótimos Tilda Swinton, Tom Hiddleston e Mia Wasikowska) que vivem da saciação de seus prazeres imediatos – a arte, o amor, a fome. James Gray brilhou com “Era Uma Vez em Nova York” (“The Immigrant”, 2013), no qual ele reúne uma trinca de ouro, das melhores do ano: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner. Cotillard e Phoenix estarão certamente entre os indicados aos principais prêmios do ano. E Richard Linklater lançou este ano o tour de force que atende pelo nome de “Boyhood” (2014), filme realizado ao longo de doze anos, esforço realista inédito no cinema (até onde eu sei) de estudar o desenvolvimento de um garoto, da infância até a partida para a Universidade – momento simbólico para os norte-americanos. Que beleza é ainda poder ver filmes que distendem os limites do cinema; feitos com vagar, como os vídeos científicos que flagram o desabrochar das flores. O resultado paulatino do galgar dos anos sobre Ellar Coltrane, Patricia Arquette e Ethan Hawke dá um sentido poético ao envelhecimento. 
Estamos ainda nos EUA, agora na faceta autoirônica do país (tão difícil de ser tematizada).
Viggo Mortensen e Kirsten Dunst,
"As duas faces de janeiro"
“As duas faces de janeiro” (“The Two Faces of January”, 2014), muito recentemente estreado entre nós, é um bom exemplo. O longa dirigido e roteirizado por Hossein Amini, a partir do romance de Patricia Highsmith (também autora de “O Talentoso Ripley”, obra de atmosfera semelhante) traz porções bem dosadas de suspense e de humor negro. Ao longo de uma viagem idílica à Grécia, os pombinhos Viggo Mortensen e Kirsten Dunst veem-se envolvidos, juntamente com o norte-americano tradutor de grego Oscar Isaac, numa trama de quiproquós crescentes e surpreendentes. A suposta “beleza americana” se amarrota, na medida em que vemos os três caminharem de Atenas às ilhotas mais recuadas do país, progressivamente desgrenhados e maltrapilhos. O charme do filme transcende, ainda, a trama. Está na montagem e na música, que pontuam com ironia a decadência dos personagens; e na atuação impecável do trio de artistas. 
John Lloyd Young em primeiro plano,
em "The Jersey Boys"
“Jersey boys: em busca da música” (“Jersey Boys”, 2014) é outro filme a mimetizar este esforço autoirônico. De Clint Eastwood, outro diretor eclético e eficiente em todos os gêneros, o filme apresenta a versão cinematográfica do musical – quem sabe – mais bem-sucedido da história recente da Broadway (foram até agora um total de 3788 performances, desde outubro de 2005). O roteiro é de Marshall Brickman e Rick Elice, também responsáveis pela adaptação teatral da história. É uma leitura festiva – com altas doses de liberdade poética – da trajetória do grupo musical “The Four Seasons”, sucesso desde os anos de 1960 com canções como “Sherry”, “Big Girls Don't Cry” e a mais longeva de todas, “Can’t Take My Eyes off You”. John Lloyd Young desempenha o protagonista, Frankie Valli, Cinderela às avessas, ítalo-americano que enveredou pela máfia de New Jersey antes de exercer profissionalmente o invejável falsete de que a natureza lhe dotou. Suas andanças todas – mesmo as menos politicamente corretas – são pontuadas por grande senso musical e bom-humor; além de uma cinematografia que estrutura a história à guisa de obra teatral, deixando de lado o realismo próprio do cinema sem abandonar a emoção. 
No âmbito do “cinemão”, houve uma porção de bombas, mas algumas coisas bem interessantes. A saga “X-Men” encontrou a glória com “Dias de um Futuro Esquecido” (“X-Men: Days of Future Past”, Bryan Singer, 2014), união de alguns dos maiores artistas contemporâneos de Hollywood: além dos costumeiros heróis Hugh Jackman (como Wolverine) e James McAvoy (como o professor Xavier), os excelentes (e polivalentes) Michael Fassbender e Jennifer Lawrence, e Halle Berry, Anna Paquin, Ellen Page. O filme agradará não apenas quem gosta dos quadrinhos como quem aprecia cinema. Há ali timing cômico e dramático, e uso inteligente dos recursos visuais. “No Limite do Amanhã” (“Edge of Tomorrow”, 2014), de Doug Liman, com Tom Cruise, Emily Blunt e Bill Paxton, é outra boa surpresa do gênero. A ideia parte da ficção científica: num futuro não muito distante, um soldado medroso, que trabalha para o exército destrói uma arma que altera o curso da Terra, permitindo que o tempo recomece a partir daquele momento, cada vez que o personagem morre. O filme toca em questões caras ao cinema, como no papel do protagonista – vemos Tom Cruise morrer sucessivas vezes no curso do filme, algo incomum no blockbuster padrão – e na própria reversibilidade da imagem cinematográfica, que pode ser retrocedida, revisitada, reexplorada. É deste processo de revisão, dentro do curso da ação, que o soldado fanfarrão se transformará no herói que a gente conhece. Além de tudo, o filme consegue ótimo rendimento cinematográfico, por meio de um roteiro que repete e esconde acontecimentos na medida certa. 
Ansel Elgart e Kaitlyn Dever em "Homens,
mulheres e filhos"
Saindo do campo do blockbuster, mas ainda no interior do “cinemão”, há “Homens, Mulheres e Filhos” (“Men, Women & Children”, 2014), um imperdível filme (sobretudo aos pais de filhos adolescentes) de Jason Reitman. O diretor tem sensibilidade no trato com a faixa etária tematizada aqui – foi o responsável pelo encantador “Juno” (2007). Como em “Juno”, este filme tem uma pegada popular (os namoros na High School e na internet, a mãe neurótica, a filha que foge de casa para encontrar o namorado...) que mal esconde a sua profundidade. Há uma moral aqui, pois falamos da Hollywood standard, mas há também uma surpreendente alternância dos focos narrativos, que nos permite, ao final, uma leitura bem ampla daquela sociedade representada. Há, além de tudo, contidas atuações por parte de gente como Adam Sandler (popularíssimo ator, mas que raramente acerta), Jennifer Garner e dos novatos Ansel Elgort (do blockbuster teen “A culpa é das estrelas”) e Kaitlyn Dever. Para mim, a grande surpresa do gênero, em 2014. 
Do Canadá, uma única, mas notável, menção: "Mommy" (2014), de Xavier Dolan (também roteirista), com Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément. Mas sobre ele eu já disse muito no post anterior, ao qual remeto o leitor. 
* 
No próximo post, destaques da América Latina e da Europa.