quinta-feira, 5 de março de 2015

"Birdman (ou a inesperada virtude da ignorância)": Hollywood novamente desnudada

O cinema gosta imensamente de falar sobre si. Os filmes que se voltam ao aparato produtor das imagens cinematográficas nasceram praticamente com o advento da arte. Antes de uma consolidada obra-prima como “O homem da câmera” (1928, Dziga Vertov), proliferaram-se as fitas de maior ou menor duração e qualidade atentas ao dispositivo fílmico, a esmiuçarem ora os perigos se se ser flagrado pela câmera (cinematográfica ou fotográfica); ora o fascínio gerado pelas imagens (ou a máquina que as produzia). 
Antes de trajar as vestes de seu notório vagabundo, Charlie Chaplin deixa-se filmar passando e repassando defronte da câmera que registrava certo evento automobilístico, a atrapalhar o trabalho do operador e a corrida. O filme, Kid auto races at Venice, data de um século. Depois dele, outros tantos – vários protagonizados por Chaplin – se debruçariam sobre a questão, procurando num só tempo romper com a ilusão de realidade criada pela câmera e sublinhar o papel da indústria criadora de ilusões, a transformar gente comum, sarrafos e papelão em vidas e mundos tão deleitantes. 
O potente imaginário criado pela sétima arte deu pasto a algumas reflexões críticas – também transformadas em películas – de grande agudeza. Uma das mais eloquentes é “Crepúsculo dos deuses” (Sunset Boulevard, Billy Wilder, 1950) - muito amado e já resenhado por esta que vos fala – retrato ácido do mundo das estrelas cinematográficas decaídas. 
A metalinguagem atinge ali o mais alto grau, porque a estrela em questão - Norma Desmond – é desempenhada por uma das principais atrizes do cinema silencioso, por vinte anos legada ao ostracismo: Gloria Swanson. Além disso, dividem com ela a cena figuras celebérrimas dos anos 20, igualmente esquecidas nos 50, como o cômico Buster Keaton e o diretor Eric Von Stroheim (este, o ex-marido e o mordomo que mima a megalomania da personagem da atriz, no filme). Sunset Boulevard revela o que jazia para além do mundo luzidio que o cinema norte-americano criava: o esquecimento, a loucura e a morte. 
O recuo temporal é pródigo para operar essas investigações críticas. Foi assim com o filme de Billy Wilder - que, nos anos 50, volta olhos aos atros do cinema silencioso, destronado no fim dos anos 20. E é assim com Alejandro Iñarritu, cujo Birdman (ou a inesperada virtude da ignorância) investiga o cotidiano de um decadente ex-super-herói de blockbuster norte-americano. 
Também vinte anos separam a ascensão da queda. Mais que o tempo do desenrolar de uma geração, o período em questão marca uma ruptura no modus operandi da indústria cinematográfica. Birdman é o Crepúsculo dos Deuses da nossa Era. 
Na obra de Iñarritu, a transição pontua-se pelo advento da tecnologia digital: a imagem fidelíssima da realidade – embora paradoxalmente composta de combinações numéricas destituídas de qualquer humanidade – a obrigar o artista às intervenções cirúrgicas que, ao rejuvenescerem-no, transformam-no num arremedo de si mesmo; as redes sociais, a criarem e destruírem reputações no espaço de dias (a lógica “viral” da nossa sociedade contemporânea, para a qual o “sucesso” torna-se um fim em si mesmo, pouco importando o motivo); a excelência técnica que permite a criação dos universos outrora apenas sonhados pelos quadrinhos, cooptando grandes intérpretes dramáticos à realização de fantasias adolescentes. 
Birdman não é um ser, é uma máscara: contemporâneo aos super-heróis cujas existências e estripolias foram tornadas possíveis pela tecnologia, como Superman ou Batman – este último, aliás, outrora protagonizado pelo intérprete que dá vida à Birdman, Michael Keaton, escolha simbólica que aproxima esta obra da de Wilder. 
Birdman, como Norma Desmond, são alter-egos não apenas de Keaton e Swanson, mas de um amplo corpus humano produzido pela indústria cinematográfica, rapidamente rotulado e descartado tão logo pare de corresponder às expectativas de lucro dela. 
A perspectiva de se transformarem artistas em simples mercadorias para o rápido consumo e descarte das massas é dilacerante. Porém, a equação é complexa, e Iñarritu ilumina com maestria as várias facetas da questão. Na superfície, Keaton-Riggan-Birdman é um objeto de sucesso midiático: narcisista ao extremo, incapaz, por exemplo, de aceitar repreendas a certo medíocre trabalho que realizara. Perde a esposa que lhe critica a obra por confundir, segundo ela, amor com admiração. É, pois, o retrato verossímil de um sem número de artistas mimados, mais talentosos ou menos, porém infantilizados e carentes, aos quais os amigos devem se comportar como séquito para serem admitidos no seu entorno. 
No entanto, debaixo dessa superfície putrefata – que bem ou mal é produto da indústria – jaz um caudaloso rio de insuspeitada profundidade, onde o lodo e os belos exemplares marinhos disputam espaço ombro a ombro. Donde a “inesperada virtude da ignorância” do título. Ao longo do filme, Riggan revelará sua alma complexa. Por detrás da megalomania explícita deste has-been que deseja ascender culturalmente da Hollywood à Broadway, atuando para isso como ator principal, diretor e adaptador da obra literária que deseja levar à cena, há um homem movido pela intuição, cheio de um entusiasmo juvenil, a recusar terminantemente o rótulo que lhe dera (e ainda poderia lhe dar) fama e fortuna para viver em plenitude seu ofício de ator. 
Desejo que mal encobre um viés de insânia. O homem que aporta na Broadway sem conhecer seus códigos, afundando-se em dívidas para levar adiante seu sonho, precisa ter em si uma dimensão de loucura. Dimensão explicitada pela exacerbação de seu dominador duplo, não outro que o Birdman que o levara às culminâncias da glória e do desespero. 
A persona impregna-se da personagem. Iñarritu, também coautor do roteiro, depreende bem a complexidade das relações psicológicas fomentadas pelas telas. Norma Desmond, recém-vinda de assassinar o amante, desde as escadas de “Crepúsculo dos Deuses” rumo à punição como se fora Salomé vinda de encomendar o assassínio João Batista, a se entregar deleitada aos seus algozes. Embaralham-se as dimensões da realidade e da ficção; a estrela decaída julga-se dentro de uma película de Cecil B. DeMille. Já Riggan coabita empiricamente com Birdman. A projeção cinematografia de si representa tudo o que ele não é - a intrepidez, o vigor, o heroísmo – e lhe pede, como paga da proteção que lhe dá, que ele ceda à frutífera indústria do blockbuster
A premissa de Birdman é sedutora por si só, mas a obra tem seus sentidos potencializados pelas opções estéticas que faz. Há nela uma mistura imprevista de ironia e poesia que, se observa o ridículo daqueles super-heróis de borracha (e da indústria que os cria em série), igualmente procura compreender por que eles são tão amados pelo grande público. Assim, faz emergir em primeiro plano o papel do cinema como a fábrica de mitos do século XX. 
Ambivalência que é construída pela música. Dividem espaço em Birdman uma quase que onipresente percussão jazzística (representada pela bateria que pontua o palmilhar do protagonista, como se representasse as batidas de seu coração) e uns vestígios de música clássica (os violinos a tecerem as heroicas aventuras do personagem-título). E tudo se embaralha: o lirismo de Mahler embalando as cenas de ação, a agressiva percussão conduzindo as cenas as mais românticas. 
Iñarritu, como Billy Wilder, puxa o véu do imaginário e desnuda a realidade crua que ele esconde. Mas, num como noutro, o olhar crítico à arte está em razão direta do amor que ambos nutrem por ela. Birdman é fascinado pelo mundo bizarro que busca narrar e destruir. Tanto que sua factura cênica reencena a mise-en-scène do gênero que critica. 
Ao optar pela subjetiva direta, lendo o mundo pelos olhos do perturbado protagonista Riggan, recuperando assim a onipresença de Birdman, o filme se entrega a pirotecnias cinematográficas (excelentemente realizadas pela direção de fotografia de Emmanuel Lubezki, já responsável pela qualidade técnica de “Gravidade”) das quais os blockbusters estão coalhados. Como o super-herói, Riggan flutua, voa, destrói os objetos com a força da mente. O clímax da história é menos o seu final em aberto, com Michael Keaton saindo pela janela rumo a um destino ignorado, do que a cena da cidade sendo destruída por seres alienígenas, e salva por Birdman e pela força policial – glosa de uma infinidade de filmes-catástrofes rodados por Hollywood. 
O que difere ali é a música. A cena de ação é pontuada pelo leitmotiv da personagem de Birdman, um lírico trecho da 9. sinfonia de Mahler, repleto dos violinos que a história do cinema nos mostrou talhados às cenas de amor. Tudo comporta em si o seu avesso. Afinal, se o brilhante Michael Fassbender já está usando uma capa de X-Men, se Robert Downey Jr. enverga com orgulho sua carapaça de lata, o cinema-pipoca não pode ser tão ruim assim. 
Esta crítica à indústria cinematográfica mal esconde o fascínio que seu criador tem por ela. Aliás, que todos nós, como eternas crianças que querem ser entretidas, temos por ela. Perdoamos as falhas de nossos objetos de afeto, ingenuamente desejamos reformá-los, mas o que acabamos mesmo é sendo irremediavelmente enredados por eles.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Oscar 2015: Balanço geral e lista dos melhores, versão Filmes, filmes, filmes!

Oscar. A relação dos indicados invariavelmente me perturba – as mediocridades escolhidas para os grandes prêmios (e que às vezes se sagram vencedoras); o desnível existente entre os artistas indicados à determinada categoria, visando-se claramente o benefício de um em detrimento dos outros; as distorções que ocorrem entre os indicados a uma categoria, mas não à outra complementar. Porém, sempre acabo me rendendo à lista dos melhores, geralmente convidada pelas colegas blogueiras que há anos alimentam com incrível pertinácia o “DVD, Sofá e Pipoca”. Sou pro diabo nostálgica; à cada lista lembro-me de minhas primeiras, de quando torci para Coração Valente ou O Resgate do Soldado Ryan, das manhãs insones no colégio depois de passar a madrugada comemorando as vitórias de Titanic ou de Shakespeare Apaixonado (ah, a adolescência...). 
Mas, vamos logo à ação. 
Eddie Redmayne e Felicity Jones em
A teoria de tudo
Para ser sincera, só agora eu pude ler com cuidado a relação dos indicados a todas as categorias. Daí o frescor da minha surpresa publicada acima... Alguns ótimos filmes compõem a lista dos melhores: Boyhood, Whiplash, O Jogo da Imitação, A Teoria de Tudo. Sobretudo Birdman (ou A inesperada virtude da ignorância), que para mim é desde já um dos grandes filmes da Sétima Arte, merecendo com louvor a estatueta. Razões para isso valem um post particular, que surgirá no momento oportuno: a agudeza na escolha do tema – o rolo compressor da indústria cultural –; do protagonista Michael Keaton, uma vítima do sistema, até outro dia um antigo super-herói, de aparente irreversível decadência (ele mereceria o Oscar pela abnegação com que mergulha no seu ridículo e cativante alter-ego). Voltaremos a isso. 
Ainda não vi Sniper Americano e Selma. O primeiro é, dizem, de um americanocentrismo sem tamanho, mas até agora Clint Eastwood não me deu motivos suficientes para que eu desconfiasse de sua perspicácia como diretor. Opinarei, no entanto, depois de vê-lo. Já O Grande Hotel Budapeste é, para mim, o Os Miseráveis deste ano. Como o outro, um filme reverberante e vazio. Foge-me o porquê de um e outro terem caído nas graças do público (lembro-me dos equilibrados franceses, a aplaudirem entusiasticamente ao fim da sessão de Os Miseráveis à qual assisti em Paris – sessão da qual eu fiz força para não fugir, aliás). Sem problemas; ele certamente será batido por concorrentes de melhor cepa. 
Michael Keaton em Birdman
Birdman é uma daquelas preciosidades nas quais há simbiose perfeita entre tema e forma. Portanto, não dá para premiá-lo sem reconhecer, também, a excelência de seu diretor, Alejandro Gonzáles Inárritu. Ou a montagem brilhante, que constrói cinematicamente a onipresença do personagem-protagonista, misturando, além de tudo, os tempos do teatro e do cinema, artes com especificidades diferentes. Mas, pasmo, Birdman não concorre ao prêmio de melhor montagem! E aquela trilha-sonora que é o coração da obra – como a bateria é o coração das bandas de jazz e rock –; seca, agressiva, uma saraivada de balas, por que não concorre como melhor trilha sonora? 
J. K. Simmons em Whiplash
Mas, há algo mais curioso: a trilha que é o próprio tema de Whiplash também ficou de fora da disputa... Whiplash, aliás, protagoniza outra distorção do Oscar 2015. J. K. Simmons, seu protagonista indiscutível, concorre, nele, como ator coadjuvante. Vai ser premiado, pois há, ali, espaço para ele deslindar a sua excelência. Porém, a justiça pediria que ele dividisse a categoria com Keaton e companhia, deixando o prêmio para um vero coadjuvante (eu torceria para Ethan Hawke). 
Mas o pário será duro entre os protagonistas. Além do já citado Keaton, há duas pérolas: Benedict Cumberbatch e Eddie Redmayne. Ambos representam o que há de melhor no Oscar: de repente, um ator obscuro – pode ser um super-herói de blockbuster (à la Birdman) para o qual a gente não dá muito, um galanzinho aparentemente sensaborão de comédia romântica, ou um participante discreto de um all star picture – deixa-nos com a respiração suspensa, por personificarem a excelência que o Oscar tanto almeja (e raramente atinge). 
Benedict Cumberbatch e Keira Knightley
em O Jogo da Imitação
No início do ano passado, eu disse que o até então para mim desconhecido Cumberbatch era o que de melhor havia em Álbum de Família, e apostava em sua indicação como coadjuvante. A indicação não veio, mas surgiu uma chance melhor para que brilhasse esse ator que, no final das contas, não era tão desconhecido assim (é um bem reputado Sherlock Holmes de uma série que eu nunca vi, e ator nas franquias Star Trek e Hobbit). 
Já o nome de Eddie Redmayne não me dizia nada, até que eu abri sua página do IMDB e o descobri fazendo parte de tudo. Do execrável Os Miseráveis, de Sete Dias com Marilyn, de séries de TV e filmes adolescentes. Redmayne não desempenha Stephen Hawking, é o próprio. Mas, sua premiação, que para mim é certa, deixa-me na boca um gosto agridoce. Ele desempenhou o protagonista almejado pelo Oscar – distorceu-se fisicamente até atingir o talhe de seu retratado. Porque ele o faz muito bem, eu o congratulo de antemão. Porém, porque eu acho que atuação não seja só isso; que conta a artesania, a emoção, a despersonalização até que se atinja a alma (não só o físico) do outro, meu coração fica com Cumberbatch. Que maravilha poder ainda encontrar, na embonecada Hollywood, esses tipos que não são nem bonitos, nem feios. São o personagem; do personagem. Não vou me esquecer tão cedo do rosto de Benedict Cumberbath ao cabo de O Jogo da Imitação, já visitado pela insânia, enrijecido pela impossibilidade de exacerbação de seu amor proibido. Lembrou-me outro grande, Michael Fassbender, igualmente aterrador e maravilhoso em Shame
Julianne Moore em Para sempre Alice
Entre as atrizes, há uma Julianne Moore que reputam excelente pela sua performance em Para sempre Alice, filme ao qual eu não assisti. Rosamund Pike, muito bem pelo já aqui comentado Garota Exemplar; Resse Witherspoon, correta em Livre – um bom filme, mas com uma protagonista feminina um tanto quanto morna (melhor é o papel de coadjuvante, que possivelmente dará o Oscar a Laura Dern). Marion Cotillard, não pelo seu tour de force em Era uma vez em Nova York, mas sim por um filme francês (Dois dias, uma noite, dos irmãos Dardene – ao que tudo indica, uma obra bem atual, que se debruça sobre o rescaldo da crise europeia). De todas as que vi, a que mais me surpreendeu foi Felicity Jones, que eu supunha uma cantora pop (?) até que, passeando por sua página no IMDB, vi-a como protagonista de uma porção de comedinhas que passei da idade de assistir. Ela venceu admiravelmente o desafio imposto, ombreando-se ao seu brilhante coprotagonista, em A Teoria de Tudo
Emma Stone em Birdman
Por fim, duas palavras sobre as atrizes coadjuvantes e os filmes estrangeiros. Todas estiveram muito bem (não vi apenas Meryl Streep). Keira Knightley está uma atriz cada vez mais bem-preparada. Patricia Arquette, ótima – numa obra tão cheia de qualidades, mas que tem o azar de competir com uma safra excepcionalmente boa de filmes. Laura Dern é o ponto alto de Livre, e merece o prêmio que vai ganhar. Mas, meu coração – de novo ele – é de Emma Stone, atriz luminosa, a melhor de sua geração, excelente no pequeno papel que lhe deram no grande Birdman
Timbuktu
No que toca aos filmes estrangeiros, a seleção é a melhor em muito tempo. As apostas, pelo que vi, estão entre Timbuktu e Leviatã. Qualquer um dos dois mereceria a estatueta, e também Relatos Selvagens ou Ida. Ida é low profile. Não faz grande uso estético da paleta do cinza, mas conta com qualidade a história da jovem noviça, que subitamente se descobre a judia cujo único remanescente familiar é uma tia que é o seu avesso. Já Relatos... é um desbunde cinematográfico, mas demasiado artificioso – revi-o recentemente, me deleitei durante a exibição, mas ele me deixou tão logo eu deixei a sala. O tempo arrastado do princípio de Leviatã me perturbou um pouco. E Timbuktu não me abandonou até hoje. Malgrado a artificialidade romanesca que costura a história (o filme foi rodado na Mauritânia), o tema é demasiado pungente (os desmandos do talibã e as consequências de sua "guerra santa", sobretudo para as mulheres) e a fotografia, arrebatadora demais. Meu Oscar de filme estrangeiro vai para ele. 

E agora, os meus pitacos para este ano (desta vez, seguindo a razão...): 



Melhor filme: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Melhor diretor: Alejandro González Inárritu - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Melhor atriz: Julianne Moore - Para Sempre Alice 
Melhor ator: Eddie Redmayne - A Teoria de Tudo 
Melhor ator coadjuvante: J.K. Simmons - Whiplash: Em Busca da Perfeição 
Melhor atriz coadjuvante: Laura Dern - Livre 
Melhor canção original: "Glory", por John Legend, Common - Selma 
Melhor roteiro adaptado: Graham Moore - O Jogo da Imitação 
Melhor roteiro original: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Melhor longa de animação: Como Treinar o Seu Dragão 2 
Melhor documentário em longa-metragem: Citizenfour 
Melhor longa estrangeiro: Timbuktu (Mauritânia) 
Melhor fotografia: Emmanuel Lubezki - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Melhor figurino: Milena Canonero - O Grande Hotel Budapeste 
Melhor documentário em curta-metragem: Crisis Hotline: Veterans Press 1 
Melhor montagem: Boyhood - Da Infância à Juventude 
Melhor maquiagem e cabelo: Frances Hannon, Mark Coulier - O Grande Hotel Budapeste
Melhor trilha sonora: Johann Johannsson - A Teoria de Tudo 
Melhor design de produção: Maria Djurkovic, Tatiana Macdonald - O Jogo da Imitação
Melhor animação em curta-metragem: The Feast 
Melhor curta-metragem: The Phone Call 
Melhor edição de som: Martín Hernández, Aaron Glascock - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Melhor mixagem de som: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Melhores efeitos visuais: Interestelar

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Os melhores e piores de 2014 (III)

Enfim, a última parte da nossa lista de destaques cinematográficos do ano passado. Agora, os europeus. 
A começar pelo já aqui lembrado “Mil Vezes Boa Noite” (“Tusen ganger god natt”, 2013), de Erik Poppe, coprodução da Noruega, Irlanda e Suécia protagonizada pela sempre excelente Juliette Binoche, secundada por Nikolaj Coster-Waldau. Binoche consegue, como Marion Cotillard, a despersonalização completa. Ela é a personagem que desempenha. Sempre. Já o disse aqui anos atrás, na resenha de “Cópia Fiel”. Vejam-na aqui, perdida entre os vários idiomas que não são dela (o inglês, o norueguês), metáforas do apatriamento vivido pela fotógrafa de guerra – mais estranha ao seu lar que às longuras ásperas que ela registra. 
Outro grande filme, também coprodução (Dinamarca, Alemanha, Bélgica, Reino Unido e França) é “Ninfomaníaca” (“Nymphomaniac”, 2013), obra de fôlego de Lars von Trier, dividida em dois volumes, com os ótimos Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin e Uma Thurman. Como “A praia do futuro”, a reputação da obra a antecedeu. Ela, todavia, também vale muito mais que os buchichos que gerou devido ao tema e à obscenidade de várias sequências. 
A Itália nos presenteou com uma obra-prima, “A grande beleza” (“La grande bellezza”, 2013),magnífico filme de Paolo Sorrentino, com um Toni Servillo em estado de graça – certamente iluminado pelo meu amado Marcello Mastroianni, de quem ele é uma espécie de alter-ego. Desempenha o papel de Jep Gambardella, jornalista bon vivant, meio flâneur, meio dândi, que espreme a secura de sua Itália contemporânea (são impagáveis suas tiradas à imprensa de celebridades, ramo de onde ele, para seu desprazer, tira o seu sustento) para extrair dela o maravilhamento. Voltam a infância, o primeiro amor, a religião, os grandes monumentos da pátria milenar – todos resignificados pelo palmilhar cativado e irônico do homem pela cidade. O filme poreja “La Dolce Vita”, sem ser derivativo da obra-prima de Federico Fellini. Uma grande, belíssima homenagem à Itália e ao cinema. 
Assim como “Que estranho chamar-se Federico (“Che strano chiamarsi Federico”, 2013), contação da trajetória de Fellini pelo seu grande amigo (e grande cineasta) Ettore Scola – ambos desempenhados, no docudrama, pelos netos de Scola; Tommaso Lazotti e Giacomo Lazotti. Certas obras estabelecem uma relação tão indissolúvel entre texto e contexto que é impossível enxergarmos um em detrimento do outro. Como atingir o distanciamento afetivo para analisar um filme que presta uma homenagem tão derramada ao cinema italiano; à Cinecittà, sua cidade dos sonhos; às grandes estrelas italianas desta arte e ao nosso imaginário, repleto dos flashes criados pela câmera mágica do brilhante Fellini? A tarefa é difícil (mas eu fiz o possível para realizá-la algo extensivamente, numa resenha publicada na Imagofagia, à qual remeto o leitor). 
Da França saiu “Saint Laurent” (2014), um belo filme de Bertrand Bonello, com Gaspard Ulliel excelente no papel do biografado Yves Saint Laurent, Jérémie Renier como Pierre Bergé, e Louis Garrel como Jacques Bascher, uma das pontas do triângulo amoroso. O notório estilista era poeta, quem diria. O filme consegue ganhos dramáticos ao abraçar, para a construção da narrativa, esta faceta pouco conhecida do homem. Ganham sopro de poesia não só o filme, mas também o métier, historicamente mais relacionado à manufatura que à arte. Recupera-se a importância simbólica dos tailleurs saídos do lápis do artista, que cooperaram no empoderamento das mulheres de seu tempo. Muito bom filme. 
Já “Amar, beber e cantar” (“Aimer, boire et chanter”, 2014) é para os amantes de Alain Resnais. No canto dos cisnes do grande diretor francês – premiado no Festival de Berlim pouco antes de falecer, aos 91 anos – retorna a célebre soma de elementos encontrados em suas obras: a troupe composta pela esposa Sabine Azéma, e por Hippolyte Girardot, Caroline Sihol et compagnie..., a adaptação de uma peça teatral (de Alan Ayckbourn), e a partir dela, a circulação pelos gêneros e o entremear da vida e da arte. Também volta o tema da morte, já presente no ótimo “Vocês ainda não viram nada”. Resnais deve ter sido um velho senhor lépido e faceiro, a contar pelo modo como ele retratou a morte, nesses últimos filmes. Com bom-humor, encena as pompas fúnebres de dois alter-egos seus. Sua morte real foi acompanhada pelos mesmos parceiros que acompanharam suas peripécias cinematográficas, os quais, junto ao seu caixão, mimetizaram fidedignamente a arte na vida. 
E, enfim, de Portugal veio-nos “Florbela” (2012), obra de Vicente Alves do Ó com a ótima Dalila Carmo, e Ivo Canelas (no papel de seu irmão) e Albano Jerónimo (seu marido). O filme privilegia a vida conturbada de Florbela Spanca – feminista avant-garde à sua obra poética. A perda da poesia, que tão bem faria ao filme, não o impede de ser um trabalho digno de atenção, com interpretações notáveis de Carmo e Canelas, irmãos que, nesta biografia dramática, nutrem um amor que resvala para o âmbito carnal. Entregues aos seus personagens, ambos conseguem construir duas densas psicologias, das quais emergem as angústias pelos sentimentos proibidos. 

Os amigos me lembraram que, ao longo dos balanços do ano, deixei de lado “Pais e filhos” (“Soshite chichi ni naru”, 2013), de Hirokazu Koreeda, aquele que seria o único representante japonês de nossa lista. Realmente, um ótimo filme. Parte de uma premissa banal – a troca de dois garotos na maternidade – para, com a sobriedade comum aos filmes (e à sociedade) do Japão, dar mergulhos de fôlego em questões como o amor paterno/filial, a configuração da sociedade japonesa (no que toca tanto às relações marido-mulher, pai-filho quando no que diz respeito às cobranças feitas desde à mais tenra infância, para que as crianças sejam bem-sucedidas). O mundo do pai workaholic vira do avesso quando descobre que o filho que ele vinha talhando ao feroz mercado de trabalho é, na verdade, o filho de um casal de hippies
E eu, de minha parte, me esqueci de “Até o fim” (“All is Lost”, 2013), de J. C. Chandor, com um excelente Robert Redford, vincado e maltrapilho, a depender exclusivamente de sua expertise de ator. Espécie de versão contemporânea do clássico de Hemingway “O velho e o mar”, aqui Redford é o velejador que se descobre náufrago, depois que restos da carga de um navio abrem o casco de sua embarcação. Sua luta pela vida é tão bem contada que nos resulta quase palpável. 

Quantos mais não foram deixados de lado nesta seleção. E ainda reclamam que o cinema está morto. As obras-primas realmente rareiam, quando comparamos nosso tempo aos tempos passados. Porém, as salas de exibição ainda podem nos comover, nos divertir e nos provocar. Viva o Cinema! Que é, aliás, o título de outro filme...

sábado, 3 de janeiro de 2015

Os melhores e piores de 2014 (I)

O blog entra 2015 com a famigerada lista dos melhores (e piores) filmes do ano que passou. A relação, sempre se considerando o que chegou até essas plagas, é extensa – prova da boa safra de filmes em 2014. Portanto, divide-se em dois posts, e por por continentes, de modo a facilitar a sua organização. E, porque é extensa, será aqui apresentada em flashes, com breves comentários sobre cada obra e minha apreciação acerca delas. Busca especialmente provocar o leitor curioso a ir por si só às obras e tecer suas considerações sobre elas. 

Comecemos com a América do Norte, o grande mercado produtor e exibidor de cinema – falamos dos EUA, sobretudo. O Canadá, embora produza, chega muito pouco até nós. 
Joaquin Phoenix em "Ela"
O ano de 2014 abriu com uma longa seleção de indicados ao Oscar, todos a aportarem religiosamente por aqui, mesmo os medianos. Os melhores foram “O lobo de Wall Street” (“The Wolf of Wall Street”, 2013), ótimo filme do eclético (e sempre perspicaz) Martin Scorsese, saga do par de vigaristas de luxo interpretados com excelência por Leonardo Di Caprio e Jonah Hill. Infelizmente, nem o diretor, nem o protagonista, receberam as tão merecidas estatuetas, distribuídas protocolarmente entre coisas bem menos interessantes – as quais serão aqui merecidamente deixadas de lado... 
Houve também “Ela” (“Her”, 2013), encanto de filme de Spike Jonze com os ótimos Joaquin Phoenix e Amy Adams (e a voz de Scarlett Johanson, programa de computador por quem o protagonista se apaixona). É o retrato poético de um mundo cada vez mais reduzido à inteligência artificial. Vale muito a visita, assim como o melhor de todos, “Trapaça” (“American Hustle”, 2013), no qual David O. Russell (também coautor do roteiro) orquestra um time memorável composto por, novamente, Amy Adams, e também Christian Bale, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. A trama gira em torno dos triunfos e dissabores de um grupo de trambiqueiros. Mas vale a pena especialmente pela leitura irônica e sensual dos anos de 1970, e pela sem-cerimônia com que as quatro estrelas se permitiram transformar em tipos ultra bregas, jogando com deleite o jogo do cinema. 
A corrida para o Oscar de 2015 não demorou a começar. Os concorrentes mais ou menos se assemelham. Há os filmes verdadeiramente bons; os passáveis; e os pretensiosos e/ou estopadas. 
"Interestelar"
Destes últimos, bons exemplos são o interminável “Interestelar” (2014), patacoada de Christopher Nolan (o diretor do ótimo “A Origem”, que aqui assina o roteiro em parceria com Jonathan Nolan), com Matthew McConaughey, Anne Hathaway e Jessica Chastain. A tentativa intentada de aproximação com “2001: Uma odisseia no espaço” resulta ridícula. A passagem do tempo no espaço sideral é arbitrária, ok. Mas a viagem, a exploração, os reveses ganhariam em qualidade se fossem apresentados com maior enxuteza e menos artefatos lacrimogênios. Ganhamos um dramalhão de 3 hrs passado no espaço. Não nos assustemos se ele levar algum(ns) Oscar(s) (a surpreendente posição de 16.º melhor filme de todos os tempos, no IMDB, mostra que o povo gostou bastante do resultado...). 
Tilda Swinton em "Grande Hotel Budapeste"
Dois outros filmes que se encaixam supracitada categoria são “O Grande Hotel Budapeste” (2014), de Wes Anderson, e “Magia ao luar” ("Magic in the moonlight", 2014), de Woody Allen (também autor do roteiro). O primeiro é uma papagaiada – com todo o respeito que eu tenho por (especialmente) Ralph Fiennes, Mathieu Amalric e Tilda Swinton. Wes Anderson procura ser espirituoso e profundo, na sua reflexão sobre a “perda de elegância” do mundo e outros temas pseudofilosóficos, porém dá a essa sua obra a consistência daqueles bolos lindamente confeitados, que enchem os olhos mas não valem a mordida. 
Emma Stone e Colin Firth em "Magia ao luar"
Sobre “Magia ao luar” (“Magic in the moonlight”, 2014), aliás, sobre Woody Allen: acho louvável seu empenho por continuar trabalhando, mas suponho que a crítica recente o esteja supervalorizando. Acho que a sua obra ganharia se ele a deixasse encorpar antes de trazê-la a lume – como a gente faz com os pães antes de colocá-los no fogo. Não precisamos de mais uma refação de “Noivo neurótico, noiva nervosa”; de mais um protagonista alter-ego do autor, a arrotar erudição e ceticismo. Neste filme, ao contrário de seu último, “Blue Jasmine”, nem mesmo os protagonistas foram escolhidos com acerto. Pobre Emma Stone, sempre tão carismática, aqui apagada. Pobre Colin Firth, sempre elegante e profundo, aqui, um paspalho. Torço para que o Oscar de Melhor Roteiro original acerte outra pessoa em detrimento do Sr. Allen... 

Ellar Coltrane, "Boyhood"
Mas nem tudo foram espinhos na terra do tio Sam. Jim Jarmusch acertou com “Amantes eternos” (“Only lovers left alive”, 2013), conto pop dos vampiros centenários (os ótimos Tilda Swinton, Tom Hiddleston e Mia Wasikowska) que vivem da saciação de seus prazeres imediatos – a arte, o amor, a fome. James Gray brilhou com “Era Uma Vez em Nova York” (“The Immigrant”, 2013), no qual ele reúne uma trinca de ouro, das melhores do ano: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner. Cotillard e Phoenix estarão certamente entre os indicados aos principais prêmios do ano. E Richard Linklater lançou este ano o tour de force que atende pelo nome de “Boyhood” (2014), filme realizado ao longo de doze anos, esforço realista inédito no cinema (até onde eu sei) de estudar o desenvolvimento de um garoto, da infância até a partida para a Universidade – momento simbólico para os norte-americanos. Que beleza é ainda poder ver filmes que distendem os limites do cinema; feitos com vagar, como os vídeos científicos que flagram o desabrochar das flores. O resultado paulatino do galgar dos anos sobre Ellar Coltrane, Patricia Arquette e Ethan Hawke dá um sentido poético ao envelhecimento. 
Estamos ainda nos EUA, agora na faceta autoirônica do país (tão difícil de ser tematizada).
Viggo Mortensen e Kirsten Dunst,
"As duas faces de janeiro"
“As duas faces de janeiro” (“The Two Faces of January”, 2014), muito recentemente estreado entre nós, é um bom exemplo. O longa dirigido e roteirizado por Hossein Amini, a partir do romance de Patricia Highsmith (também autora de “O Talentoso Ripley”, obra de atmosfera semelhante) traz porções bem dosadas de suspense e de humor negro. Ao longo de uma viagem idílica à Grécia, os pombinhos Viggo Mortensen e Kirsten Dunst veem-se envolvidos, juntamente com o norte-americano tradutor de grego Oscar Isaac, numa trama de quiproquós crescentes e surpreendentes. A suposta “beleza americana” se amarrota, na medida em que vemos os três caminharem de Atenas às ilhotas mais recuadas do país, progressivamente desgrenhados e maltrapilhos. O charme do filme transcende, ainda, a trama. Está na montagem e na música, que pontuam com ironia a decadência dos personagens; e na atuação impecável do trio de artistas. 
John Lloyd Young em primeiro plano,
em "The Jersey Boys"
“Jersey boys: em busca da música” (“Jersey Boys”, 2014) é outro filme a mimetizar este esforço autoirônico. De Clint Eastwood, outro diretor eclético e eficiente em todos os gêneros, o filme apresenta a versão cinematográfica do musical – quem sabe – mais bem-sucedido da história recente da Broadway (foram até agora um total de 3788 performances, desde outubro de 2005). O roteiro é de Marshall Brickman e Rick Elice, também responsáveis pela adaptação teatral da história. É uma leitura festiva – com altas doses de liberdade poética – da trajetória do grupo musical “The Four Seasons”, sucesso desde os anos de 1960 com canções como “Sherry”, “Big Girls Don't Cry” e a mais longeva de todas, “Can’t Take My Eyes off You”. John Lloyd Young desempenha o protagonista, Frankie Valli, Cinderela às avessas, ítalo-americano que enveredou pela máfia de New Jersey antes de exercer profissionalmente o invejável falsete de que a natureza lhe dotou. Suas andanças todas – mesmo as menos politicamente corretas – são pontuadas por grande senso musical e bom-humor; além de uma cinematografia que estrutura a história à guisa de obra teatral, deixando de lado o realismo próprio do cinema sem abandonar a emoção. 
No âmbito do “cinemão”, houve uma porção de bombas, mas algumas coisas bem interessantes. A saga “X-Men” encontrou a glória com “Dias de um Futuro Esquecido” (“X-Men: Days of Future Past”, Bryan Singer, 2014), união de alguns dos maiores artistas contemporâneos de Hollywood: além dos costumeiros heróis Hugh Jackman (como Wolverine) e James McAvoy (como o professor Xavier), os excelentes (e polivalentes) Michael Fassbender e Jennifer Lawrence, e Halle Berry, Anna Paquin, Ellen Page. O filme agradará não apenas quem gosta dos quadrinhos como quem aprecia cinema. Há ali timing cômico e dramático, e uso inteligente dos recursos visuais. “No Limite do Amanhã” (“Edge of Tomorrow”, 2014), de Doug Liman, com Tom Cruise, Emily Blunt e Bill Paxton, é outra boa surpresa do gênero. A ideia parte da ficção científica: num futuro não muito distante, um soldado medroso, que trabalha para o exército destrói uma arma que altera o curso da Terra, permitindo que o tempo recomece a partir daquele momento, cada vez que o personagem morre. O filme toca em questões caras ao cinema, como no papel do protagonista – vemos Tom Cruise morrer sucessivas vezes no curso do filme, algo incomum no blockbuster padrão – e na própria reversibilidade da imagem cinematográfica, que pode ser retrocedida, revisitada, reexplorada. É deste processo de revisão, dentro do curso da ação, que o soldado fanfarrão se transformará no herói que a gente conhece. Além de tudo, o filme consegue ótimo rendimento cinematográfico, por meio de um roteiro que repete e esconde acontecimentos na medida certa. 
Ansel Elgart e Kaitlyn Dever em "Homens,
mulheres e filhos"
Saindo do campo do blockbuster, mas ainda no interior do “cinemão”, há “Homens, Mulheres e Filhos” (“Men, Women & Children”, 2014), um imperdível filme (sobretudo aos pais de filhos adolescentes) de Jason Reitman. O diretor tem sensibilidade no trato com a faixa etária tematizada aqui – foi o responsável pelo encantador “Juno” (2007). Como em “Juno”, este filme tem uma pegada popular (os namoros na High School e na internet, a mãe neurótica, a filha que foge de casa para encontrar o namorado...) que mal esconde a sua profundidade. Há uma moral aqui, pois falamos da Hollywood standard, mas há também uma surpreendente alternância dos focos narrativos, que nos permite, ao final, uma leitura bem ampla daquela sociedade representada. Há, além de tudo, contidas atuações por parte de gente como Adam Sandler (popularíssimo ator, mas que raramente acerta), Jennifer Garner e dos novatos Ansel Elgort (do blockbuster teen “A culpa é das estrelas”) e Kaitlyn Dever. Para mim, a grande surpresa do gênero, em 2014. 
Do Canadá, uma única, mas notável, menção: "Mommy" (2014), de Xavier Dolan (também roteirista), com Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément. Mas sobre ele eu já disse muito no post anterior, ao qual remeto o leitor
No próximo post, destaques da América Latina e da Europa.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Mommy (2014)

Certos filmes não se deixam dissociar de sua trivia. Exemplo é “Mommy”, obra saída da batuta de um garoto de 23 anos, Xavier Dolan (também autor do roteiro). É um filme de largo fôlego. Surpreendente (mesmo meio exasperante), que algo tão bom tenha saído de alguém tão jovem. Lembramo-nos de Orson Welles, que não muito mais velho pariu um monstro – “Cidadão Kane” (1941), obra que revolucionou Hollywood à época. 
Xavier Dolan no set com Anne Dorval
O jovem diretor canadense herdou do confrade norte-americano a megalomania e o talento. O caso de Dolan é, no entanto, mais espantoso. Embora tenha estreado no exercício do longa-metragem com “Kane”, Welles já havia experimentado na direção de alguns curtas e tivera uma intensa experiência no teatro. Era, no final das contas, um produto dos anos de 1940 – self-made man, a trocar o banco escolar pela vivência empírica do métier. Amadureceu e adquiriu erudição cedo, como não era incomum então. 
Já Dolan é um prodígio. 
O século XX foi se infantilizando e desletrando com o galgar dos anos, como bem sabemos. Portanto, impressiona que o menino de 17 anos tenha decidido trocar a faculdade pelo cinema e sido capaz, já aos 23, de erguer uma carreira digna de nota. Se lhe falta erudição cinematográfica, sobram-lhe criatividade e frescor de observação. 
Antoine-Olivier Pilon
A obra de Dolan se debruça sobre o universo jovem, deslindando temas que tangem mais ou menos fortemente a esfera da autobiografia. Mais do que fruto da arrogância – pecha que a crítica brasileira já lhe impingiu –, a escolha se deve à compreensível imaturidade do autor e à sua ausência de erudição cinematográfica. Com o tempo, sua objetiva se voltará ao outro. Movimento que já se observa: se em “Eu matei a minha mãe” (2009) e “Amores imaginários” (2010) o diretor acumulava o papel de ator principal, em “Mommy” ele se retira em prol de Antoine-Olivier Pilon, protagonista de seu curta “College Boy: Indochine” (2013). 
As escolhas estilísticas e dramatúrgicas também se sofisticaram. Em “Mommy”, como em “Eu matei a minha mãe”, o cerne é o relacionamento entre mãe e filho – a ótima Anne Dorval desempenha ambos os papéis, e, pela constância da parceria entre ambos, deve funcionar como uma espécie de mãe substituta do diretor, no âmbito cinematográfico. Todavia, se ambas as relações são tumultuosas, a retratada em “Mommy” poreja não só tensão, mas profundidade e poesia. Embora os dois filmes olhem o mundo pelos olhos dos filhos, no último a subjetiva mistura as vivências do protagonista adolescente às do diretor, já um homem. 
Xavier Dolan fez uma escolha estilística decisiva para que o júri de Cannes o tenha pareado ao mítico Jean-Luc Godard, mestre da Nouvelle Vague que este ano surpreendeu novamente com “Adieu au langage” (2014), experimentação no 3D: restringiu em 2/3 o tamanho da tela de projeção. O cinema, janela do mundo, torna-se, em “Mommy”, a fresta que dá a ver o mundo do garoto-problema Steve Després. Sucedânea de seus olhos, a câmera detém-se nas minúcias do que ele enxerga. 
A escolha restritiva – este filme, como o de Godard, são obras para o cinema, daí a simbologia da escolha de ambas pelo júri do festival francês – denota invulgar autoconfiança do autor, além de um bem-vindo sopro de inventividade. A decisão formal resvala com força dramática para o âmbito da temática: a enxutez do quadro recria para o público o mundo restrito em que habita o superexcitado personagem – cerceado pelas restrições que a doença lhe impõe; os muitos planos aproximados dão intensidade ao recorte. O mundo de “Mommy” é feito das sensações de Steve: desde sua saída do centro de correção, ao dia-a-dia turbulento com a mãe (por quem ele nutre um amor doentio), à convivência paulatina com o outro – notadamente a vizinha Kyla (Suzanne Clément). 
A câmera oscila entre a grande beleza de alguns quadros e os excessos de outros. A grandiloquência calculada não deixa, no entanto, o filme cair no maneirismo. 
Dolan tem olhos excepcionalmente treinados para a sua idade. Sua câmera inventa o mundo; ele segura firme as suas rédeas. A casinha decaída recém-alugada pela mãe (Anne Dorval/ Diane Déspres) é vista com grande sensibilidade pelo menino vindo do reformatório: os cortinados e a tapeçaria tomados por uma câmera acariciante, a dar tessitura de seda aos primeiros momentos de mãe e filho na casa nova. 
O olhar é extensivo à figura materna, amada e vilipendiada com passionalidade análoga pelo garoto. Dolan projeta suas nevroses em toda a sua obra. A bela sequência de Anne Dorval sob a macieira da casa, a degustar o fruto recém-colhido, será sucedida por uma feroz contenda entre mãe e filho; e assim sucessivamente – o filme, como a obra toda do diretor, pontua-se desses altos e baixos. O rapaz trabalha com interesse os fantasmas inerentes à fase de transição da adolescência para a vida adulta, que todos nós já vivenciamos com intensidade maior ou menor. 
Kyla/ Suzanne Clément
Um dos pontos altos de Xavier Dolan é sua sensibilidade no trabalho com os atores. Os três principais estão ótimos. Anne Dorval e Suzanne Clément, sobretudo, a primeira, derramada, a segunda, contida: contrapontos perfeitos uma da outra. No relacionamento entre ambas, e delas com o menino Antoine, Dolan impregna a película de humanidade. Em detrimento da grandiloquência pontual, o diretor põe em debate as relações humanas com sensibilidade e verossimilhança, sem o sentimentalismo barato costumeiro nos filmes que retratam a relação da criança-problema com o seu entorno. 
A delicadeza com que Dolan apreende suas atrizes é muito bem representada pela sequência que apresenta Suzanne Clément: pela câmera que deixa a mãe e o filho ruidosos e, penetrando na casa da vizinha Kyla, perscruta silenciosa o seu entorno, quiçá procurando compreender o que teria feito a professora perder a voz. Daí por diante, atam-se os percursos do trio, a experimentarem as alegrias e os sofrimentos do relacionamento recém-construído. 
Cabe, por fim, recomendar o filme pela sua qualidade sonora. O Canadá de ascendência francesa tem uma especificidade quando comparado ao país de quem herdou a língua. Enquanto que a França repudia e/ou pisoteia o inglês, ele (o filme foi realizado no Quebec) abraça o idioma de bom grado. Dolan não nega a sua juventude. Sua obra transpira cultura pop, e “Mommy” não é diferente: mistura a língua francesa e a inglesa, os cancioneiros estadunidense e canadense. O resultado é um cosmopolita filme em francês, que muito merece a nossa visita atenta.