O conturbado e profundamente emocional mês de outubro impediu-me de resenhar os filmes exibidos em minha amada Giornate del Cinema Muto de Pordenone, que desta vez, a exemplo de 2025, também acompanhei virtualmente, no Mymovies.it. Devido ao distanciamento temporal, as oito costumeiras resenhas serão substituídas por um compilado de quatro, que procuram fazer um apanhado mais breve, mas não menos afetivo, do evento – pormenores sobre as obras apresentadas encontram-se em seu detalhado Catalogo, que pode ser acessado online. Vamos a elas.
A exemplo da Giornate presencial, a modalidade online teve início num sábado, desta vez, em 3 de outubro, e encerrou-se no dia 10.
Os finais de semana são os dias mais cheios. Acomodam dois programas diários, enquanto nos demais dias os programas são únicos. Não se comparam, no entanto, com a agenda do evento presencial, no qual exibem-se cerca de 15 horas diárias de filmes; um oásis aos amantes do cinema mudo.
Esta primeira de quatro resenhas dedica-se aos programas dos dias 4 e 5 de outubro.
No sábado, o primeiro programa foi composto pelo filme alemão Die Teufelskirche, ou The Devil’s Church (1919-1920), de Hans Mierendorff, com acompanhamento musical do pianista Günter Buchwald e do percussionista Frank Bockius. O feature foi antecedido pelo inglês A ride on the Peak Tramway, Hong Kong (1900), de Joseph Rosenthal. Já o segundo programa compôs-se da obra norte-americana The Humming Bird (1924), de Sidney Olcott. Precedeu-a A victim of circumstances (1913). O acompanhamento musical ficou a cargo do pianista Donald Sosin. Já no domingo, o filme principal do primeiro programa foi o espanhol Voluntad que vence (1919), de Salvador Castelló. Já o segundo programa foi composto pelo norte-americano M’liss (1918), de Marshall Neilan, precedido pelo curta britânico Rochdale tram ride (1905), de Sagar Mitchell e James Kenyon, com acompanhamento musical do pianista John Sweeney.
O primeiro silent a ser exibido na Giornate foi a phantom ride A ride on the Peak Tramway, Hong Kong (1900), a qual compõe um extenso programa exibido no evento presencial, parte do qual também nós vimos, distribuído ao longo da semana, sempre antecedendo longas-metragens. O primeiro cinema apropriou-se prodigamente deste gênero cinematográfico que fazia emergir como poucos a matéria-prima do cinema, o movimento; resultante da introdução de uma câmera na parte frontal ou traseira de um veículo, e da captura de longos planos tematizando os seres e as coisas que cruzavam consigo. Neste caso, o bonde introduz no coração da cidade de Hong Kong todos os demais habitantes do mundo que se encontram com a fita nas salas de cinema, ensinando-lhes o ethos daquela metrópole.
A A ride on... seguiu-se The Devil’s Church, obra que compõe um programa amplo que a Giornate dedicou aos filmes alemães rodados após o 2º Reich e à debacle alemã que se seguiu à derrota na 1ª Grande Guerra.
A tensão social respinga do conto do pastor (Hans Mierendorff) que vende a alma para o diabo no intuito de construir uma portentosa igreja no terreno pertencente a um pobre fazendeiro (Otto Werther) e à esposa dele, Ane (Agnes Straub).
A obra rodada por Hans Mierendorff antecipa o tema e a forma do Fausto de F. W. Murnau, rodado em 1926, embora multiplique a sensualidade, devido à lassidão da censura de então. Paul Rehkopf, em blackface (costume da época para retratar o tipo, segundo Jay Weissberg, diretor da Giornate), é um diabo ao mesmo tempo exasperante e seduzente – como o fora o Nosferatu, da obra homônima também de autoria do gênio alemão. Ele enreda não apenas o supradito pastor, mas a cálida Ane, que a ele se entrega em troca de gerar um filho do marido, peça que faltava para a sua felicidade.
Uma vez invocado o diabo, acompanhamos pari passu o desencaminhar de suas duas vítimas, à medida que se tornam pobres de espírito, no entanto, ricas de deleite, a ponto de nos lamentarmos quando o traído pastor acorda do pesadelo que colocou em motor a decadência moral de sua casa e da vila onde ele mora – porque, sim, tudo aconteceu apenas no plano onírico.
O primeiro filme do segundo programa de sábado foi o curta da Thanhouser A Victim of Circumstances. A obra metalinguística tematiza os usos policiais de dispositivos ópticos como o cinema e a fotografia.
A história é protagonizada pelo jornalista (Harry Benham) que amarga a tristeza por se ver separado de sua amada (Mignon Anderson), já que o rico pai dela descobre que o jovem fora fichado pela polícia. Como o castigo vem a cavalo, pouco tempo depois do apartamento dos pombinhos é o velho quem terá destino análogo, depois de ser confundido com um meliante.
A seguir, exibiu-se uma delícia de filme da gloriosa Gloria Swanson, The Humming Bird, comédia com matizes de melancolia oriunda da fase em que Swanson era casada com o aristocrata francês Henri de la Falaise. Rodada por Sidney Olcott, a obra se passa entre a haute gomme e o demi-monde francês, e tematiza o modus operandi de uma ladra que se vestia de homem para roubar os grã-finos da cidade.
O “beija-flor” do título representa num só tempo a alegria viver e a ligeireza de Toinette, mocinha que fora criada por uma trambiqueira dona de uma estalagem de Montmartre. Ao menos até que ela se apaixona por um janota e descobre que também para si o pouso é traiçoeiro. Rodada pouco depois da 1ª Grande Guerra, também esta obra se ressente de seu enquadramento histórico, que nela surge de modo fantasioso/upbeating: cabe a Toinette injetar nas veias de seus colegas de “ofício” a seiva patriótica, fazendo-os combater com sucesso os alemães durante a conflagração...
O primeiro programa de domingo foi composto pela obra espanhola Voluntad que vence (1919), de Salvador Castelló. Conforme apontou o diretor do Festival, Jay Weissberg, em sua apresentação dela, praticamente toda a produção cinematográfica muda espanhola perdeu-se, cerca de 90%, a exemplo do que aconteceu no Brasil – ali, devido sobretudo às vicissitudes políticas.
Rodada em 1919, a obra dirigida por Salvador Castelló bebe em boa medida da cinematografia hollywoodiana. Narra a história da herdeira Araceli (Alba Tiberio), que encontra a ruína com o falecimento do pai e vê-se transformada em artista de circo para se sustentar.
A exemplo de Swanson, também Araceli disfarça-se de homem; desta vez para se ocultar do ex-noivo que a persegue. Reviravoltas escalafobéticas se sucedem, à maneira dos seriados protagonizados por Pearl White, rodados não muito antes disso, incluindo-se um plano de sabotagem militar envolvendo o avião construído pelo engenheiro que dá guarida à jovem travestida. A obra vale sobretudo pelas imagens da Barcelona de fins dos anos de 1910 que apresenta.
O programa noturno do domingo foi aberto por outra phantom ride rodada dentro de um bonde no princípio do século XX, desta vez no interior de uma cidadezinha inglesa, Rochdale tram ride (1905), de Sagar Mitchell e James Kenyon.
Já o clou do programa foi uma belíssima nova restauração da obra de outra diva maiúscula do cinema norte-americano dos anos de 1910, Mary Pickford. Mais especificamente, M’liss (1918), ou Lírio selvagem, na poética tradução italiana.
Produzida pela Mary Pickford Corp., dá a dimensão da estatura da estrela que nela reproduz uma das jovens adoráveis e sanguíneas que a tornaram notória. O entrecho é oriundo de um célebre conto datado da década de 1860 que já havia sido adaptado um par de vezes para a tela, segundo a ótima nota explicativa do programa, uma delas protagonizada por Pickford.
Calcada no velho oeste, tematiza a história de um mineiro que se afoga no álcool após enriquecer e, ato contínuo, perder sua fortuna, deixando ao deus-dará a filha de quem ele era pai solo. A garota, M'Liss, cresce sem rédeas, num só tempo encarniçada e adorável, como sói a tantas mocinhas protagonizadas naqueles tempos pela atriz. Que alegria é revê-la numa obra que eu desconhecia, mesmo na tela pequena do laptop!




