sábado, 12 de junho de 2010

I remember Mama (1948)



Passei um mês (caótico) inteiro compartilhando daquele sentimento de saudades de casa comentado pela Lorena dias atrás. Ontem, recebi o chamado familiar – aquele que, vez por outra, me faz largar as obrigações e correr para cá trazendo pela mão um filme que me impressionou para tentar reter nem que seja um pedacinho dele numas linhas. O filme é “I remember Mama”, dirigido por George Stevens.
Foram conduzidos pela batuta do diretor alguns de meus filmes preferidos: “Ritmo Louco” (“Swing Time”, 1936), que é o maior musical de Astaire & Rogers; “The Talk of the Town” (1942), screwball comedy genial protagonizada por Cary Grant, Jean Arthur e Ronald Colman e “Penny serenade”, drama lindíssimo (e tristíssimo) em que Grant e Irene Dunne dividem a cena. Stevens sempre me surpreendeu pela elegância com que consegue dar conta de trabalhos tão diferentes. Sua direção é limpa, libertada de clichês envelhecidos e de uma agudeza tão incrível que seus objetos tornam-se admiráveis não porque são cobertos por aquela “pátina do tempo” que faz tudo parecer fascinante, mas porque são realmente bons. Um exemplo cabal é o triângulo amoroso suis generis vivido pelo trio de “The Talk of the Town”: todos vivendo sob um mesmo teto e compartilhando de um modo um tanto quanto picante do cotidiano familiar (e isso em princípios dos anos 40...).

“I remember Mama” é precioso. Na escolha do elenco, na construção do enredo, nada está fora de lugar. A experiência do diretor nos mais variados gêneros se faz sentir neste drama agridoce que retrata o dia-a-dia de uma família de imigrantes noruegueses que habita a São Francisco dos anos de 1910. É um deleite ver cenas onde há união tão perfeita entre o drama e a comédia, onde a comédia contribui para suavizar a aspereza do drama e ele lhe injeta verdade.
A película filtra a vivência em família por lentes extremamente amoráveis.
O apelo emocional é intenso, dado os laços que historicamente unem os membros de uma família – e cativa especialmente o público adulto, que tende a olhar nostalgicamente para o passado, para a felicidade da infância, deixando de lado as pedras do caminho. A escolha da época em que se passa a história é precisa. Naquele início do século XIX ainda se observava uma rígida estrutura familiar segundo a qual os pais faziam as regras e os filhos as acatavam com um respeito que beirava a idolatria – uma diferença gritante dos dias de hoje, em que se observa a reversão completa do quadro, o que ainda uma vez convida os adultos nostálgicos a admirar “I remember Mama”...
A tradicionalidade da família tematizada pelo filme é ainda sublinhada por sua origem, o “velho mundo”, que naqueles anos 10 era tão distante e estranho. O caráter ritualístico da vivência em família é potencializado nele ao ponto de, em alguns momentos, atingir o símbolo – como naquele em que a filha mais velha, depois de preferir como presente de formatura o broche que sua mãe herdara de sua avó ao moderno conjunto de pentes, é convidada pelo pai a tomar uma xícara de café, bebida apenas permitida “às pessoas crescidas”.
“I remember Mama” é uma ode àquela família tradicional no seio da qual se aprendia o amor, o respeito, o valor da educação e tantos outros valores importante para o amadurecimento saudável. Certamente uma cena ou outra dele nos fará lembrar de algum momento em que a família foi fundamental em nossa vida: quando nossa mãe foi segurar nossa mão pequenina e trêmula no hospital; quando os pais se desdobraram para financiar o curso que definiria o nosso futuro profissional; quando descobrimos que aquele tio irascível tinha um coração imenso.
Todo o filme toca no melodrama, mas consegue extrapolar com competência os limites estanques dele. O velho inquilino mal pagador, um vilão na tradição melodramática, torna-se no filme o leitor apaixonado responsável por fazer a jovem - lindamente desempenhada por Barbara Bel Geddes - amar os livros e decidir tornar-se escritora. Ele foge da casa na surdina, deixando um cheque falso e o conjunto de clássicos que lera à família. A Mama, lembrando desses serões, constata: "ele nos deu algo muito mais valioso que o dinheiro" - e diz isso sem grandes arrebatamentos, como diria uma mãe de família preocupada com o futuro dos filhos.


O retrato final da Mama que olha pela janela com lágrimas nos olhos enquanto a filha escritora lê à família o conto em sua homenagem pode nos lembrar dos horrorosos tableaux finais, retratos que se convenciona usar nos melodramas para atestar o equilíbrio familiar retomado depois da destruição do vilão. Porém, a sinceridade de matriarca rígida e devota da família com que Irene Dunne o interpreta faz com que nós nos lembremos de nossas mães.

Filmes como esse e aquele que comentei no post anterior pertencem ao elenco e ao diretor. Deixo o elenco para o final sem, no entanto, deixar de ressaltar que o filme é apenas digno de nota por causa dele. É fácil histórias desse tipo caírem na pieguice dos comerciais de margarina. Não aconteceu porque Irene Dunne soube deixar de lado o seu porte de prima donna e encarnar uma imigrante com aquele inglês precário comum a tantas outras que aportaram nos Estados Unidos no início do século XX, e porque Barbara Bel Geddes escondeu seus 26 anos debaixo dos cabelos soltos e do gorro da meninota cuja voz não era mais audível do que o permitido a uma adolescente membro de uma família tradicional daqueles velhos tempos.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

“O segredo de seus olhos” (2009): Ah, o amor... “That crazy little thing” numa boa lembrança do Oscar 2010.



Nessa semana, voltei ao cinema para rever o filme que vi na semana passada. Como tenho muito menos tempo de ir ao cinema do que gostaria, raramente costumo fazer isso. O porquê de tê-lo feito talvez se explique na voz do beberrão Pablo Sandoval do filme argentino “ El Secreto de sus ojos”, (2009): “Una passión es uma passión”. Melhor não dizer muito mais do que isso mesmo. Agora, mais do que nunca, ando acreditando que o raciocínio lógico pode pouco quando é submetido a um sentimento de empatia que surge de modo quase que inexplicável e toca a alma.
Como explicar “El Secreto de sus ojos”?
É certo que ele não é um filme originalíssimo. Eu poderia listar as razões disso. Para começar, a love story açucarada e algo inverossímil de Irene e Benjamin – um amor à primeira vista, recíproco, mas que só se concretiza depois de 25 anos, é algo aceitável nos folhetins cinematográficos dos anos 40, não no ano de 2010, mesmo que retrate um acontecimento que teve lugar em meados de 1970 - ápice, aliás, da revolução sexual feminina. Aí o leitor me pergunta: mas então essa fantasia adolescente fora de época é dispensável.
Ao contrário. O filme é absolutamente imperdível. Belíssimo e divertido. Um “Aconteceu naquela noite” moderno. Não porque a narrativa dele tenha alguma relação com a película norte-americana. Talvez porque ambos trabalhem um mesmo símbolo. O casal que tem uma química impecável, mas que vive trocando farpas, remete ao arquétipo dos opostos que se atraem.
Lembrei-me do tour de force de Claudete Colbert e Clark Gable enquanto via o filme. Deliciei-me no cinema assistindo a uma comédia física e a um humor refinado bastante tributários das screwball comedies que vejo na sala de minha casa em branco-e-preto e tanto amo. Vê-los na tela grande foi um deleite.
Por outro lado, o filme tem uma visada moderna muito bem vinda. A trama se constrói sobre um caso de violência sexual seguida de assassinato, e isso é pintado com todas as cores, na explícita nudez da moça estuprada, no sangue que lhe empapa o corpo, nas genitálias do estuprador que se trai nas mãos da advogada e agente federal Irene. Entremeiam-na os atos estapafúrdios e ditos cômicos proferidos pelo Don Juan beberrão Sandoval, para a diversão e o desespero de Irene e Benjamin.
É certo que o artifício de se entremear cenas cômicas e dramáticas é velhíssimo – remonta ao menos ao melodrama, para ficarmos nesse gênero tão querido pelo cinema e não nos remetermos às tragédias de Shakespeare ou aos mistérios medievais. Aliás, sua própria idade mostra quão eficiente ele é.
Contudo, quem costuma passar os olhos na produção cinematográfica contemporânea percebe como é difícil tirar rendimento cênico desta receita. “O segredo...” consegue-o magistralmente. A reação do auxiliar de departamento Benjamin quando vê o corpo da morta, segundos depois de ter feito pilhéria sobre a tarefa da qual fora incumbido, é comovente. Seus olhos inquirem os olhos da vítima, sem vida e repletos de perplexidade. Eles o cativam. Sua missão, dali em diante, será ler aquilo que eles tentam dizer. O percurso leva-o ao álbum de fotografias da moça, guardado religiosamente por seu marido, como se os retratos fossem emanação dela, guardassem sua aura. Nos olhos com que um namorado de adolescência da morta a olha, Benjamin encontra a confissão de um crime que ainda estaria por vir.
Apenas Benjamin pode enxergar a confissão do amor no olhar do futuro criminoso passional, pois os olhos com que o próprio Benjamin sempre fitava sua supervisora também o traiam. “Ele olha adorando-a. Seus olhos dizem demais. Melhor seria que se calassem.”, Benjamin relembra a Irene 25 anos depois, também olhando-a no fundo dos olhos, confessando ainda uma vez o que sente. Tão piegas, mas narrado de um modo irresistivelmente bonito...

Os olhos do assassino, os olhos de Benjamin...

O modo como a narrativa é conduzida, aliás, é um dos pontos altos do filme. Os muitos flashbacks dos anos 70 constroem simbolicamente a presença indelével do passado no presente. A história é narrada quase em sua totalidade a partir do ponto de vista do protagonista. O romance sobre o episódio violento, escrito por ele 25 anos após o ocorrido, aponta sua preferência por viver o passado em detrimento do presente. Seu presente é vazio, tão cheio de “nadas” quanto a existência do esposo da moça assassinada (e quanto a existência que este tantas vezes reiterava desejar para o assassino dela). Benjamin revisita o passado lançando nele os olhos do presente. Quando se vê só, resolve desenterrar o caso da jovem professora morta. Não porque precisava lançar luzes sobre ele, mas porque a história passional parecia demasiadamente enlaçada à que vivera com Irene. Revelá-la significava trazer sua própria história de amor à baila, finalmente revelá-la e, quem sabe, modificar o seu desfecho.
Todas essas peças são bem amarradas no final: na coesão da atitude do marido da vítima; nas letras da velha Olivetti desde sempre usada pelo protagonista que finalmente o ajudam a dizer algo que ele temia verbalizar... E as atuações – especialmente de Ricardo Darín; Soledad Villamil e Guillermo Francella - são tão apaixonantes quanto a história. O que eu estou dizendo? São as grandes responsáveis pela história ser tão apaixonante. Vi que a dupla de protagonistas co-atuou noutra película, “El mismo amor, la misma lluvia” (1999), sob a batuta do mesmo diretor Juan José Campanella. Vou vê-lo... É tão bom descobrir caminhos que levam a outros lugares além de Hollywood...
Aliás, a Academia de Artes Cinematográficas premiou a película com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Infelizmente pouco posso dizer dos demais concorrentes à categoria, que, pelo que ouvi, arrolou coisas muito mais interessantes que a referente aos títulos da casa. Está mais do que claro que aconselho uma visita ao filme, não?


sexta-feira, 30 de abril de 2010

L.A. Confidential: sexo, drogas e violência na Cidade dos Anjos




Nas últimas duas ou três semanas estou tomando uma overdose de CSI. Aí, fiz um esforço de deixar um pouco de lado a série e assisti, com imenso prazer, ao magnífico "Los Angeles, cidade proibida" (L.A. Confidential, 1997) - que encontrei depois de uma longa busca nas lojas físicas e virtuais. Só agora percebi a aproximação dos temas das produções...

O contato com "L.A..." foi um reencontro. Um reencontro surpreendente. Certamente, o tanto de filmes que vi desde que o assisti pela primeira vez, aos 15 anos, contribuiu para que ele ganhasse densidade aos meus olhos.
O filme leva-nos à Los Angeles dos anos de 1950. Primeiramente a uma Los Angeles turística, mas a imagem do destino paradisíaco, registrado por uma fotografia brilhante e uma narrativa não menos sedutora pelo repórter sensacionalista Danny De Vito, enquanto soa o vozeirão de Bing Crosby, rapidamente dá lugar a elementos que reforçam a ironia do chamamento da cidade: a jogatina, a violência, a prostituição. E a uma piscadela de olhos: "Alguma coisa precisa ser feita. Mas nada muito original, pois estamos em Hollywood.".
A reportagem do jornalista da Hush-Hush dá a tônica do filme. Todo ele é de um sensacionalismo avassalador - de um sensacionalismo que desnuda as alcovas onde malandragens de toda a sorte são sussurradas e reputações são feitas e desfeitas num piscar de olhos.
Os personagens são levados pelo ritmo da cidade. Russel Crowe desempenha um policial pouco sociável (personagem que captura a essência do astro que tem uma sólida reputação de ogro) com queda para as mulheres frágeis. Todas as mulheres que ele salva são a mãe que ele não pôde salvar quando criança; todos os homens que ele esfola são o pai que matou sua mãe a pancadas, aos olhos do menininho indefeso que ele foi outrora. Guy Pearce é o policial que seguiu a carreira do pai no intuito de vingá-lo, mas rápido é seduzido pela facilidade com que as promoções podem aparecer àqueles que fazem a coisa certa.
Com tantos anseios individuais se sobrepondo às necessidades do Estado, fica claro que o rótulo de "A melhor polícia do mundo" que a instituição tenta vender mantém-se apenas no plano da ficção. Mas, por que não? Não estamos em Hollywood?


A bela Lynn Bracken, interpretada magistralmente por Kim Basinger, serve extremamente bem ao contexto. É uma prostituta de luxo sósia da atriz Veronika Lake. Além do fato de ela fingir-se de alguém também construído por Hollywood - uma personagem deveras insólita... - está o fato de o filme remeter-se ao imaginário da sociedade, que por séculos aproximou as atrizes das prostitutas.
O modo como o personagem de Crowe vê Lynn pela primeira vez é sintomático: ela está envolta num lenço que lhe dá um ar de mistério típico daqueles que o star system hollywoodiano deu às suas estrelas por décadas. O policial não resiste. Como tantos galãs másculos das películas da época, entrega-se romanticamente à moça. Ficção e realidade se misturam no relacionamento, e a bela Lynn, que ele julga muito mais bela que a atriz da qual ela é sósia, cedo vê-se obrigada a interpretar o papel que lhe cabe, deixando o policial à beira da destruição. Aliás, um pendant curioso no modo enviesado como as atrizes foram historicamente tomadas é o fato de o personagem de Guy Pearce tomar a original Lana Turner por uma prostituta. Abaixo, fotograma da atriz que interpreta Lana em "L.A.", seguido de uma fotografia da original (que peguei emprestada de meu colega blogueiro Mark Clark).


Lana, em 1942, com o namorado Turhan Bey

Já mencionei a canção que abre o filme. Uma sacada de mestre do diretor Curtis Hanson foi inserir nele todo gravações da época. É irônico ver uma Big Band comandada por um crooner famoso (Bing Crosby, Dean Martin, Betty Hutton) conduzindo sucessivas trapaças e violência - lembremo-nos de tantos musicais saltitantes estrelados por Crosby e Dean Martin, e das canções de Jerome Kern e Gus Kahn embalando as estravaganzas de Doris Day e Ginger Rogers. O artifício deu ao filme um teor crítico muito bem-vindo num momento em que, creio, é preciso questionarmos os mitos e olharmos de um modo um pouco mais questionador para a indústria cinematográfica (mesmo que, depois, a gente acabe por cair embasbacado aos pés do/a star de nossa preferência...).
A película recebeu um Oscar de melhor roteiro adaptado, o que demonstra que Hollywood pensa do mesmo modo. Impossível deixarmos de lembrar do desdém que "Crepúsculo dos Deuses" (Sunset Boulevard, 1950) sofreu da Academia por cutucar algumas feridas abertas de Hollywood, e assim, acreditarmos que, de certa forma, a Lynn Bracken de Kim Basinger (que ganhou um merecido Oscar pela performance) vingou a Norma Desmond de Gloria Swanson. No entanto, tampouco devemos deixar de lado o distanciamento histórico que há entre a película e os fatos narrados, o que suaviza a crítica. Porém, o mais irônico é que o filme tece a crítica espetacularizando a violência. E quem já se deixou prender por séries como CSI sabe quão eficaz é a violência para prender o espectador em frente à tela. Estudiosos dizem que é porque o sangue, a pus, a nudez e demais elementos dessa espécie nos remetem ao que de mais baixo há em nós. Mas isso já é assunto para outro post.



sábado, 17 de abril de 2010

O que pode acontecer depois do final feliz: The Thin Man (1934-1947)


Cinearte, Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 1928.

Estou, no momento, numa fase Myrna Loy. Desde que li a reação de L.S. Marinho ao tê-la encontrado - "Quando me estendeu a linda mão – senti um calafrio pela espinha dorsal. Esqueci-me completamente e toquei-a quase a medo, como se tocasse uma brasa. Ela sorriu, maravilhosa, mostrando uma fileira de dentes pequeninos de gente mentirosa..." - resolvi descobrir mais sobre a vamp que fascinou o jornalista brasileiro quando ele passou por Hollywood como correspondente da Cinearte.
Passeei pela filmografia da atriz. No início da carreira, Myrna vestiu-se da mulher fatal que assediava os homens dentro (e fora) das telas. Seu primeiro papel é simbólico. Ela foi a "Vamp" num filme (aparentemente perdido) dirigido por Tom Buckingham e co-estrelado por Nita Naldi e Natacha Rambova (What price beauty, 1925). Em 1928, ela já era notória por esse tipo de papel, ao ponto de despertar a atenção do cronista apaixonado da Cinearte - apaixonado e culpado, já que ele conclui: "E foi como um micróbio, como verme, que deslizei até a porta para não ficar ao lado daquela mulher colossal, supinamente bela, e supinamente má... (...) Aí têm os meus amigos o maior pecado moral que tenho em toda Hollywood...".
No final dos anos 20, com a libertinagem correndo solta em Hollywood e os comitês de moral cada vez mais alvoroçados, a moça precisou investir em outros tipos. Isso fica claro se lermos as personagens que ela desempenhou pelo viés das fotografias publicitárias das películas. Essas imagens são de 1930 e 1931, respectivamente:



Seus olhos verdes entreabertos... As câmeras dos anos 20 não eram sensíveis ao verde, portanto, registravam a cor como branco. Isso só foi resolvido nos últimos anos da década, depois de várias estrelas terem se beneficiado disso para reforçarem a aura de mistério e maldade que envolvia suas personagens.
Em 1932, Myrna Loy foi a aristocrática namoradeira de "Ama-me esta noite" (aliás, quando vi esse filme pela primeira vez, a personagem dela me atraiu mais que a de Jeanette MacDonald), que perdeu para a censura porção razoável dos diálogos atilados que travou com Chevalier. Restaram as linhas aparentemente inofensivas, mas pronunciadas por ela de modo tão eficaz que temos uma das vampiras mais sexy e bem humoradas da época.

Myrna Loy no ano de "Ama-me esta noite", com olhos mais escuros.

A perda da dramaticidade de seu tipo deu-nos a Myrna que pra mim é a mais interessante: a cômica, um pouco ingênua e romântica. Em 1936, ela co-estrela com William Powell, seu mais assíduo galã, no "Libeled Lady". É a garota difamada do título, milionária e de pés no chão, mas que não resiste a Powell (a gente, ao vê-lo sistematicamente, também tem dificuldades de resistir), advogado pilantra mas no fundo bom moço que deseja seduzi-la para livrar o jornal em que trabalha do processo que ela lhe impinge. Outro par romântico (às avessas) cuja história conhecemos na película é Spencer Tracy & Jean Harlow, hilários e deliciosos.
Harlow, a vamp loura platinada que quer a todo custo se casar mas não consegue uma brecha na agenda do jornalista Tracy, é outro exemplo da evolução da personagem da vampira imposta pela censura.
O Hays Code começou a pegar pesado em 1934 - quem quiser uma notícia mais detida sobre ele gostará de passar pelo meu post de 23/10/2009. Nem Harlow, símbolo sexual da época, escapou ilesa, tanto que, em "Wife versus Secretary", ela é a secretária caidinha pelo patrão (Clark Gable), mas desfaz o mal-entendido que colocaria um ponto final no casamento feliz dele com a personagem de Myrna Loy e casa-se com o bom moço James Stewart. Duas vamps tornadas boas moças pela mágica do star system.

Uma Myrna sorridente em 1935. Ela já não carregava mais nada daquela mulher malvada que fez o cronista brasileiro sair fugido de Hollywood...

Myrna teve uma carreira que durou quase 60 anos e viveu até os quase 90. No entanto, aqui me interessa, sobretudo, a moça inteligente, bem-humorada, madura e independente que conquistou as plateias dos anos 30 e 40 como a Nora da série de suspense "The Thin Man". Interessa-me, talvez, porque estou vendo cada vez menos o tipo circulando por essa nossa sociedade que experimenta, agora, uma trágica reversão nos costumes...

Myrna Loy e William Powell em "The Thin Man" (1934).

A série começou com uma maravilha da screwball comedy.
A socialite Nora, o marido plebeu Nick e o cachorro Asta (o mesmo que aterrorisa Cary Grant e Katharine Hepburn em "Levada da Breca") são três dos personagens mais bem delineados da época. Asta é um perdigueiro às avessas, medroso e abobalhado, humanizado graças ao competente trabalho de câmera dirigido por W. S. Van Dyke. Nick é incrivelmente beberrão (numa época em que a comercialização de bebidas alcoólicas tinha acabado de ser liberada em território norte-americano, depois de 14 anos de proibição) e, devido às suas origens populares, é amigo de todos os bandidos pés-de-chinelo da cidade.
Somos apresentados a Nora pouco tempo depois de ela ter feito sua transição da família aristocrática e chata na qual nascera para o entusiasmado círculo social do marido, junto do qual novidades pululavam a todo instante. Embora carregue muito do seu mundo consigo - no porte, na educação, na preocupação com os parentes - vemos que ela cada vez mais se educa na escola do marido, e adora cada momento. Não posso deixar de pensar aí numa defesa do americano médio, vindo do povo, mas que podia, sim, ascender socialmente - argumento necessário num momento de Depressão, quando parecia não haver lugar na sociedade para esses indivíduos.
Os "opostos" se mantém unidos pelo humor - até hoje uma das receitas mais eficazes para qualquer relacionamento, daí a esse relacionamento parecer-nos tão real. Para tirar Myrna de uma situação perigosa, William coloca-a num taxi e manda o motorista levá-la para ver o túmulo do general Grant. Ao perguntar o que ela achou, ela responde: "Lovely, I'll have one made for you". Numa das 5 sequências do filme, "Another thin man" (1939), o detetive engana a locatária de um conjunto de apartamentos de que a esposa é, na verdade, sua amante - e é fascinante ver como essa fantasia sexual apimenta a relação dos dois. Em "After the thin man" (1936), a primeira sequência do filme, ao perguntar com quem o marido falava, e ouvir que era com a amante, a esposa responde calmamente: "I don't know why I always take you for granted". No primeiro filme da série fica patente a vitalidade do casamento, no olhar que a mulher troca com o marido quando o vê consolar a filha que perdeu o pai:

Impossível listar todas as réplicas afiadas que inundam os filmes da série. Improfícuo também, porque tiraria do leitor o prazer de descobri-las, e eu é que não quero ser culpada disso. O dinamismo das películas e a química entre os três artistas principais muito se deve a W. S. Van Dyke, que os dirigiu nos 5 dos 6 filmes nos quais dividiram a cena (o diretor suicidou-se em 1943, 4 anos antes da rodagem de "Song of the Thin Man" - aliás, a trivia de Hollywood conta que, 3 anos antes, Van Dyke foi o responsável por impedir o suicídio de uma de suas musas, Jeanette MacDonald, que amargava a dor de ver o amante Nelson Eddy casado com outra...). Aliás, o sexto filme se ressente da ausência do diretor polivalente, que dirigia com a mesma maestria os números musicais de MacDonald & Eddy e as histórias detetivescas vividas por Nora, Nick e Asta. Van Dyke já havia trabalhado numa ferrovia e como mineiro, tornando-se, a partir de meados dos anos 10, um dos muitos operários responsáveis por estabelecer as bases da indústria do cinema norte-americano.
Os "Thin Man" são prova da efetivação dos moldes fundados por Van Dyke, Griffith, Lubitsch, Chaplin. Myrna e Nora tornam-se uma só, assim como William e Nick - Walter Benjamin fala sobre o artista de cinema representa-se, antes de tudo, a si mesmo. As várias sequências da película reafirmam a identidade entre ator e personagem, e entre o público e a pessoa que ele vê em cena filme após filme. Nick e Nora passam por momentos de diversão e temor resolvendo casos misteriosos. O público ri e chora com eles, ansioso por vê-los escapar ilesos para poderem viver (e fazer o público viver) uma nova história numa próxima vez. Fico me perguntando quanto essa identificação não aumenta conforme o público vê que o casal da tela grande vivencia o mesmo que tantos homens e mulheres vivem no dia-a-dia: os primeiros anos do casamento, o nascimento do filho, os primeiros anos de vida da criança. Sim, porque as relações interpessoais são apreendidas nos "Thin Man" de modo mais maduro que na maioria das comédias românticas da época, que culminavam com o casamento dos pombinhos e uma nebulosa "felicidade eterna". "The Thin Man" desenham magistralmente como poderia ser esse final. Recomendo-os!

*
Esses filmes ainda não estão à venda no Brasil, no entanto, podem ser localizados pelo emule. A Open Subtitles traz legendas em português de quase todos.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Doris Day: a "girl next door" completa outro ano de vida




Plano de conjunto, em Cinemascope, da ensolarada Miami: praias, sol, calor, hotéis de luxo, carros, ruas e gente, muita gente, em meio à qual saltita uma garota. Dali em diante, a câmera andarilha se deixa seduzir pela jovem animada e a segue enquanto ela canta as suas inúmeras superstições, colocando em polvorosa os demais transeuntes dos quarteirões por onde passa. A cor, a música, a letra e a comédia física não deixam enganar: temos um Doris Day feature.
Efetivamente, a divertida sequência musical que abre "Lucky Me" (1954) remete-nos a outras tantas películas da moça que não parece fazer força alguma para ser simpática. "Ardida como pimenta" (Calamity Jane, 1953) toma-a primeiro em cima da diligência de Deadwood, a qual ela protege ferrenhamente dos selvagens enquanto canta

Oh, the Deadwood stage's a-headin' on over the hills,
Where the Injun arrows are thicker 'n porcupine quills.
Dangerous land, no time to delay,
So whip-crack-away, whip-crack-away, whip-crack-away!

E lá vai ela chicoteando os cavalos e atirando nos índios que a perseguem com tanta graça e bom humor que pouco pensamos no quão politicamente incorreta é a cena.
Aos olhos do século XXI, os filmes de Doris Day são no mínimo paradoxais. Eles inegavelmente reafirmam uns preconceitos e lugares comuns: em "Ardida como pimenta", além da agressão aos índios, há uma jovem masculinizada que aprende a ser mulher com uma corista - aprendizado que inclui uma faxina geral na casa onde vivia ao som de "A woman's touch"; em "The thrill of it all" (1963), é uma workaholic que depois percebe que seu lugar é ao lado do esposo e não na da emissora de TV onde trabalhava como garota-propaganda; em "The ballad of Josie" (1967), é uma viúva pacata que aprende a ser machona para defender sua propriedade, porém, acaba botando fogo nos jeans quando encontra um homem pra chamar de seu; em "Confidências à meia-noite" (Pillow Talk, 1959) é uma career woman socialmente bem posta e aparentemente feliz mas que, no fundo, anseia para si o mesmo que sua colega Josie ansiava.

The thrill of it all

Mas, mesmo apresentando atitudes e tipos sociais ultrapassados e/ou criticáveis, é impossível negar a graça desses filmes. Também podemos acreditar que a cantoria que interrompe a ação deixa o resultado final ainda mais artificial e datado. Porém, quando Doris começa a cantar "The black hills of Dakota", "It's magic" ou "Que será, será", ela acaba por nos enredar. Aí, não somos mais os espectadores críticos que veem o filme com o dedo em riste para apontar seus defeitos. Transformamo-nos naquele público ansioso dos grandes espetáculos alegres: queremos nos divertir e emocionar com as canções e cenas cômicas.
Doris chegou a fazer alguns filmes "sérios". "Midnight Lace", em que ela divide a cena com Rex Harrison e Myrna Loy, é um dos thrillers mais angustiantes que já vi. Ali, Doris está soberba como a mulher perseguida por um inimigo que nem mesmo nós sabemos se realmente existe. Em "Storm Warning" (1951), a atriz é uma jovenzinha apaixonada que desconhece estar casada com um membro da Klu Klux Klan. A irmã, interpretada por Ginger Rogers (que prazer ver duas de minhas atrizes favoritas atuando juntas!), verá o cunhado entre o grupo que lincha um estrangeiro (e não um negro) e abrirá os olhos da mocinha. Aliás, esse é um filme fascinante para que analisemos os artifícios usados pelos americanos para a construção de sua memória coletiva... Sem falar em "O homem que sabia demais" (The man who knew too much, 1956), um dos grandes Hitchcocks, em que ela dá um show como a mãe que teve o filho sequestrado.
No entanto, deliciosas, mesmo, são suas dinâmicas e hilárias comédias. Mérito da atriz, que conseguiu dar credibilidade a alguns papéis bem frágeis. Papéis como aqueles das películas que ela divide com o lindíssimo Rock Hudson. Em "Volta, meu amor" (Lover, come back, 1961), por exemplo, ela é uma virginal publicitária de Nova York que se vê tripudiada por um adversário (Rock) e acaba casando-se com ele depois de ser embriagada com biscoitos alcoólicos (?!). Ou "Confidências à meia-noite", em que a também virginal designer de interiores tem dinheiro para comprar roupas ma-ra-vi-lho-sas mas não consegue comprar uma linha telefônica para si, tendo que dividi-la com um Don Juan (Rock, que, obviamente, tentará seduzi-la). Doris, com sua competente atuação, escamoteia os furos do enredo e sublinha os achados do mesmo. De "Confidências...", minha cena preferida é aquela em que Rock conduz a carruagem através do Central Park. Primeiro, Doris e Rock e depois, o condutor, são tomados em planos americanos. A câmera lê os pensamentos que acompanham as ações dos personagens ("Há algo tão saudável num homem que gosta de animais" - a apaixonada moça diz; "Espero que esse bicho estúpido saiba pra onde está indo" - diz o rapaz; "Esse cara segura as rédeas como se segurasse as alças do metrô. Não sei qual é a dele, mas fico feliz por ela não ser minha filha" - diz o condutor...). Pronto: temos uma das cenas mais hilárias de todos os tempos.


Outra - essa quase farsesca - é aquela em que a designer ofendida mostra todo o seu veneno na decoração a la "Mil e uma noites" que produz no apartamento do rapaz. "Behold the work of a woman in love", diz o farsante, mal sabendo que isso o esperava:


Uma música de suspense soa ao fundo, aumentando a hilariedade do conjunto. A gota d'água é a canção "You are my inspiration xxx" gravada no piano - leitmotiv satírico do devasso protagonista, compositor da Broadway que presenteava suas inúmeras namoradas com uma mesma canção, cujo verso alterava de acordo com os nomes das garotas.

Amanhã, 3 de abril, a jovem que parece nunca envelhecer completa 86 anos. Não nos deixemos enganar pela idade: mesmo longe das telas há pelo menos três décadas, ela continua aquela mesma jovem entusiasmada cuja imagem sedimentou em dezenas e dezenas de filmes. Trocou os casacos de pele pelas calças de moleton e comanda a "Doris Day Animal Foundation", uma associação protetora dos animais reconhecida pelo Estado. Agora que não é mais dominada por Hollywood, ela só aparece quando e como quer.
Alguns anos atrás, aluguei "Não me mandem flores". Vi uma vez, vi de novo no outro dia. Então, aluguei "Confidências à meia noite" e fiquei incrédula. Como alguém poderia ser tão charmosa, engraçada e cantar tão bem? Confesso, um pouco envergonhada, que não consegui resistir. Eu queria entrar na tela e bater um papo com ela. Como não dava, escrevi uma daquelas fan letters que, depois de termos crescido, juramos que nunca mais escreveremos, e enviei-a à atriz. Dois meses mais tarde, recebi do carteiro um grande envelope. Imaginem qual não foi minha reação quando li "For Danielle/ love/ Doris Day"? Que surpresa saber que, fora das telas, Doris Day continuava sendo a mesma adorável girl next door!
Bem, o que mais dizer da moça (e à moça) que me emocionou fora e dentro das telas, se não "Happy birthday, dear. I wish you the happiest life!"?

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Os admiradores da atriz poderão ouvir as homenagens que duas rádios farão a ela amanhã: a KIDD 630-AM da Califórnia e a Fred Net Radio de Baltimore.




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Doris Day conversa com o locutor da rádio KIDD 630 AM da Califórnia (3/4/2010)