sábado, 3 de outubro de 2020

Giornate del Cinema Muto de Pordenone 2019: Dia VIII


Dia 8, 12 de outubro, sábado 

Último dia da Giornate. Theatro Verdi fechado ao público para o já tradicional ensaio da Orchestra San Marco, que acompanhará o programa que fecha o evento: “The Lodger” (“O inquilino”, 1927), obra da fase silente de Alfred Hitchcock. 


O dia começa no Cinemazero, cinema que, durante o evento, costuma receber uma (ótima) programação paralela voltada às escolas – programação na qual, vez por outra, esta que vos fala entra de penetra. Este programa é, todavia, um pouco mais árido. Denominado “Variações de The Blacksmith, de Buster Keaton e Mal St. Clair”, consiste num esforço de crítica genética realizada por Francesco Ballo e Federico Frefel. Ambos os pesquisadores colocam lado a lado a versão tradicional do curta de Buster Keaton e Mal St. Clair “The Blacksmith” (circa 1921-1922), e a versão recentemente encontrada pelo pesquisador argentino Fernando Peña, e exibida na Giornate em 2013, procurando demonstrar as diferenças substanciais entre ambas as versões. 

A sessão seguinte fecha com chave de ouro o programa Films on Films. Em cena, a espevitada flapper Coleen Moore é – literalmente – uma cinderela às avessas em “Ella Cinders” (Alfred E. Green, 1926). 


Os bastidores da indústria do cinema servem de pano de fundo nesta ficção que lança olhos sobre a trajetória de uma gata borralheira da Era do jazz band, mocinha que, fugindo do jugo da madrasta megera e de suas filhas, vai dar na Meca do cinema, onde acaba por conquistar o estrelado desempenhando... uma gata borralheira. O filme, oriundo de uma série publicada em tirinhas, introduz na diegese narrativa as nossas já conhecidas tomadas do dia a dia dos estúdios e das estrelas cinematográficas da hora. Vislumbramos mesmo um iniciante Frank Capra, então recém chegado a Hollywood, efetivamente dirigindo o filme que então rodava com Harry Langdon – os deslizamentos entre a ficção e a realidade, como se vê, são inúmeros. 


Porém, o filme é delicioso sobretudo porque apresenta com verve práticas comuns àqueles anos em que o cinema se transformava numa indústria importante, como as escolas e estudos de manuais de interpretação (datados dos tempos das diligências, diga-se de passagem...). Em cena, Coleen Moore realiza (também de modo chistoso) o sonho de milhares de meninas de vida inglória, alcançando o sucesso à custa da surpresa infantil com que reagia aos castelos de ficção levantados pela máquina de fazer sonhos (a excelência dramática acidental da personagem rende as melhores sequências cômicas do filme). Essa borralheira na vida “real” e na ficção era a mimese do público alvo do cinema. 

Em seguida a Coleen Moore, vemos o terceiro e último episódio do rocambolesco seriado norte-americano “The Great Gamble” (1919). Retornando ao Theatro Verdi, passamos pela enorme e deliciosa feira-livre que se espraia pelo centro da cidadezinha aos sábados. Suas iguarias servem-nos como o almoço derradeiro daquela semana de festival. À tarde, preparamo-nos para nos despedirmos de William Hart. 


Desta vez, Hart é o “mentiroso” Keno Bates de “Keno Bates, liar” (William S. Hart, 1915), é o “Jim Rawden” de “Blue Blazes Rawden” (William S. Hart, 1918). Separados por três anos, ambos – diz o Catálogo – testemunham o processo de transformação dos filmes de dois rolos em filmes de cinco rolos. Há, concomitantemente, o incremento na construção da personagem protagonista, que, enquanto precisava ser rapidamente identificada pelo público nos filmes de cerca de vinte minutos – daí a caracterização das personagens à flor da pele –, poderia ter suas características desdobradas nos filmes de uma hora de duração. 

Feita esta ressalva, observamos modelarmente em funcionamento, nesses dois filmes, a lógica do studio/star system. Estamos diante de dois típicos westerns de Hart, espaços em que a fronteira entre o bem e o mal é tênue e a moral se constrói à bala. Em ambos há o esforço deste protagonista finalmente bafejado pela moral (que é, como sempre, mais religiosa que jurídica) de proteger a família do bandido que ele matou; em ambos, a tentativa de reduzir-se a mulher indígena ao jugo do colonizador branco – a grande e trágica metáfora da colonização das Américas. 


A última tarde do festival teve como fecho outro filme de Reginald Dennis, ator que é uma das minhas grandes descobertas desta Giornate, “Skinner’s dress suit” (William A. Seiter, 1926), comédia cujos quiproquós giram em torno do caríssimo terno do título, imposto a Skinner – arraia-miúda no mundo dos negócios – pela mulher (Laura La Plante, também sua co-protagonista na joia “What happened to Jones”). Desnecessário dizer que o moço logo se verá sem a possibilidade de pagar pelo terno, uma vez que perde o emprego (são impagáveis as cenas em que ele, precisando do figurino para dar um grande golpe no mundo mercantil, vê-se obrigado a perseguir o alfaiate que vem de recuperar a encomenda). 

No desfecho, o obscuro Skinner se transformará num grande negociante ao longo de um número de dança que é um elo perdido entre os primeiros filmes que flagravam os gêneros musicais da moda, como o jazz, e os musicais da aurora do cinema falante. A escalada do protagonista é também aquela dos ritmos musicais modernos, bastante criticados na entrada dos anos de 1920, perfeitamente incorporados ao gosto do público cinematográfico no final da década. 


À noite é o momento de revermos “The lodger” (1927). O filme, que encerra oficialmente a Giornate – com acompanhamento pela Orchestra San Marco e regência de Ben Palmer – também marca a comemoração dos cem anos de Alfred Hitchcock. Tivemos acesso à nova restauração da obra realizada pela BFI, orquestrada pelo grande Neil Brand. Imagem deslumbrante como eu, hitchcockiana desde criancinha, jamais imaginei possível. 


Neste filme de 1927 já observamos a consolidação de alguns traços característicos do mestre do suspense: no âmbito técnico, os primeiros planos altamente significativos, a decupagem cuidadosa – Hitchcock costumava se guiar por storyboards rigorosamente preparados antes de começar a filmar –; e, no temático, a fascinação pelos desvios de personalidade, o interesse patológico pelas louras (a grande temática deste filme, cujo enredo gira em torno da literal eliminação dessas mulheres). Seria um filme melhor se o diretor não tivesse de transigir com o star system e aceitasse transformar Ivor Novello (ídolo das matinês, então) em mocinho, ele que fora conduzido ao longo de toda a obra como se fora o vilão. Não podemos ter tudo. 

Hoje começa a Edição Limitada da Giornate, realizada de modo integralmente remoto. É uma substituta possível ao evento presencial, considerados esses tempos bisonhos. Embora a Giornate seja muito mais que os filmes que nela se exibem, é um refrigério podermos acessá-la virtualmente. Vamos então a ela!

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