terça-feira, 18 de agosto de 2020

Giornate del Cinema Muto de Pordenone 2019: Dia VI

Dia 6, 10 de outubro, quinta-feira

Entro na reta final da Giornate del Cinema Muto de Pordenone do ano passado (quase um ano e uma quarentena mais tarde, dirão os haters...), pouco depois de saber que o evento deste ano terá uma edição limitada, totalmente remota. A sensação é agridoce. Ter a oportunidade de acompanhá-lo de forma online é um presente inesperado para alguém que sabia que seria impossível estar nele pessoalmente este ano, com ou sem pandemia. Mas, a Giornate é feita de uma série de rituais: da chegada na cidadezinha pelos comboios que saem de Venezia Mestre; do enveredar pelas vielas do burgo antiquíssimo e, não obstante, tão moderno; de esperar pela próxima sessão no “Posta”, bar situado diante do Theatro Verdi, bebericando uma spritz e beliscando um dos pequenos sanduíches ou pizzas sempre prontos no balcão, para os clientes apressados. As interações digitais só são possíveis porque nos restam as lembranças da vida lá fora.

No "Posta"
No "Posta"

Vielas de Pordenone


Praça diante do Theatro Verdi


Feira livre ao lado do Theatro Verdi

Mas, vamos ao sexto dia do evento.

A manhã da quinta-feira pertence ao cowboy William Hart, acompanhado ao piano pela sensível, precisa, deslumbrante Maud Nelissen. O programa é composto por um filme de propaganda de venda de bônus de guerra, da parte dos Estados Unidos recém ingresso na conflagração. O cinema norte-americano, como sabemos, transformou sua indústria em máquina de propaganda, rodando, além de obras de ficção tematizando a conflagração, filmes como este “All Star Production of patriotic episodes for the second liberty loan” (Marshall Neilan, 1917); no qual surgem em cena as principais estrelas do período a venderem os tais bônus de guerra, como Mary Pickford, Douglas Fairbanks e Hart.

A seguir, um curta de 1915 e um longa de 1917, ambos dirigidos por William Hart. O primeiro é “A Knight of the trails” (1915). Hart é o cavaleiro andante do título. É, no entanto, um sujeito dúbio, novamente a equilibrar-se entre a lei e o crime. Embora seja de saída tomado como um outlaw, a sua cara comprida de cavalo manso (que o confunde com a sua montaria, um e outro indissolúveis) denuncia que ele no fundo é um bom sujeito. Está de casamento marcado com a garçonete de um saloon, que desconhece o “emprego” do noivo. Molly – esse é o nome da mocinha – descobre certas joias que ele roubara e trata logo de pender a um outro partido, que ela não percebe tratar-se de um mau caráter vindo do leste ao oeste para fazer fortuna. Hart, claro, não apenas devolverá as joias à polícia como se engalfinhará com o outro, para subtrair-lhe as economias que este roubara de Molly. Ferido, mas vivo (ele dá cabo de seu opositor), se reunirá à mocinha, para o que se anuncia dali por diante como a felicidade eterna.

Nessas obras em que trabalha também como diretor, Hart segue esculpindo a imagem de cavaleiro – para tomarmos o título do filme acima – do Velho Oeste, fiel como um cachorro (ou um cavalo...) a um ideal, a uma mágoa do passado ou a uma mulher. Premiado ou punido à medida que se aproxima ou se afasta da moralidade cristã que Hollywood preza e esses westerns mimetizam tão bem, ele será, no entanto, sempre a estrela, sempre o herói de seus filmes. Outro exemplo disso vemos na terceira obra do programa, “The Silent Man” (1917), na qual a citada moralidade aparece materializada na pele de um pastor protestante que era amigo dileto da personagem de Hart – aqui, um bandido sem coração que acaba enxergando o caminho da justiça depois de ver a casa e a igreja do pastor em chamas, incendiada pela terrível gangue dos desperados de Pressley (essas histórias invariavelmente requerem a existência de alguém pior que Hart, para que a sua iluminação se efetive).

O programa do meio dia traz a primeira das três partes de “The Great Gamble” (Joseph A. Golden, 1919), reconstrução digital, realizada pela Cineteca di Friuli, de um filme-seriado norte-americano da Pathé. O catálogo do evento informa-nos que a obra original possuía 15 partes. Embora as três partes nas quais ela foi dividida para a exibição na Giornate sejam bastante mais longas do que costumavam ser os episódios dos seriados da época, elas não correspondem à totalidade do filme. Totalidade cuja falta o espectador sente sensivelmente, uma vez que a obra, como corresponde a esses seriados de aventura, é repleta de cenas de ação e desloca-se geograficamente de maneira impressionante (segundo o catálogo do evento, enquanto as imagens de estúdio foram rodadas em Nova Iorque, as externas ocorreram em seis sítios diferentes e distantes uns dos outros, como Lookout Mountain, Tennessee, Miami e Flórida). A presença contundente das tomadas externas estende-se mesmo para as ruas da já bastante populosa Manhattan.

Para o espectador contemporâneo, entre as ausências de material fílmico e os defeitos de coesão na trama (percebidos pela imprensa contemporânea, como o catálogo destaca), a compreensão fica bastante prejudicada. Hitchcock (parênteses) de certa feita afirmou que, no cinema silencioso, expedientes como a tonalidade das roupas das personagens ou a existência ou não de bigodes eram elementos fundamentais para o público perceber quem era quem nas tramas. Pois bem, em “The Great Gamble” a trama gira em torno de um casal de irmãs gêmeas idênticas (!) (Anne Luther), sendo que uma delas foi tirada de casa pela mãe quando esta fugiu com o amante, e a outra ficou sendo educada pelo riquíssimo pai. Anos mais tarde, com a morte da mãe, o amante procurará sequestrar a outra jovem, colocando a gêmea “má” no lugar dela, para dilapidarem o patrimônio do pai. Os espectadores que lutem para saber quem é quem enquanto corre a ação!...

À tarde, mais um programa dos Weimar Shorts, filmes situados entre a ficção e o documentário, rodados pela República de Weimar neste interregno que vai do fim da Primeira Grande Guerra à ascensão do Nazismo. Para além do interesse estético que apresentam, por sua bela fotografia e pendor inequívoco à montagem tributária ao Primeiro Cinema (em plenos anos de 1920), esses filmes servem de testemunho dos esforços de reconstrução do país antes de seu mergulho no terror nazista. Exemplos são “Markt in Berlin” (Wilfried Basse, 1929), que tematiza uma feira livre situada no coração da capital alemã, a qual dá ares de cidadezinha à “metrópole” tratada sinfonicamente na obra de Walter Ruttmann; e “Zeitprobleme, wie der arbeiter wohnt” (ou “Problema contemporâneo, como vivem os lavradores”, de Slatan Dudow, 1930), crítica social aguda às condições precárias vividas por esta classe de trabalhadores.

"Chushingura". Fontes: National Film Archive of Japan/ Catalogo.

No último horário do período da tarde, às 18h00, um dos grandes acontecimentos desta Giornate: a exibição de “Chushingura” (Makino Shoko, circa 1910-17), acompanhada por um benshi e um ensemble japonês. O benshi é um acompanhador tradicional de filmes silenciosos japoneses, que dá voz às figuras das telas – são, muitas vezes, os responsáveis pela autoria da narração e dos diálogos da história. Trata-se de um trabalho de cunho artesanal, que se destaca do cinema industrial do período. O responsável pela empreitada em Pordenone foi Ichiro Kataoka, respeitável artista e pesquisador da arte do benshi – ele foi o responsável pela localização do nitrato de “Chushingura” que foi fonte principal da restauração exibida no evento.

Ichiro Kataoka (à esquerda) e seu ensemble
Fotografia: Valerio Greco

O título da obra remete a um gênero de contos cuja base histórica é um evento ocorrido no início do século XVIII: o senhor do castelo de Ako promove um ataque sanguinário contra Kira Yoshihisa, que constantemente o depreciava em público. É sentenciado à morte pelo Shogunato, e sua esposa instila os seus vassalos à vingança, elaborada de forma detalhada e requintes de crueldade pelos agora ronins (vagabundos), os quais, após conquistarem seu objetivo, são todos condenados ao ara-kiri. Trata-se, portanto, de uma saga de vingança de cunho transcendental, tão intrinsecamente ligada à comunidade japonesa que essas histórias eram compostas, muitas vezes, pela aglutinação de episódios rodados anteriormente por diferentes realizadores (daí a este “Chushingura” juntar tomadas rodadas ao longo de sete anos). A súmula de texto original (criado por Ichiro Kataoka) e música típica a conduzirem essa costura de episódios rodados num lastro consideravelmente amplo de tempo originam uma obra de impacto inigualável.

Depois do jantar, juntamo-nos novamente para mais um programa dedicado ao adorável Reginald Denis. Programa composto por duas partes principais: pelo filme de propaganda “The city of stars: a reporter’s visit to the Universal Studios” (H. Bruce Humberstone, 1925), versão cinematográfica do conteúdo das revistas e sessões cronísticas especializadas nas celebridades da “Arte do Silêncio”; e pelo longa-metragem “What happened to Jones” (William A. Seiter, 1926), acompanhado pela excelente Zerorchestra – já tradicional na Giornate.

Exibição de "What happened to Jones" na Giornate.
Fotografia de Valerio Greco

“What happened to Jones” é o elo perdido das screwball comedies. Farsa teatral de George Broadhurst (1897), foi cinematografada um par de vezes por Hollywood antes que Seiter encontrasse esta versão final, diabolicamente ágil e absurda, tão amalucada quanto as comédias depois rodadas por Howard Hawks e companhia. A música jazzística da Zerorchestra cai como uma luva na euforia e no humor desse gênero cinematográfico. O grupo abusou de sonoridades a meio caminho da música e do ruído, tão bem aproveitadas pelas jazz-bands, para a elaboração dos sons incidentais que tingem a partitura do acompanhamento: o riso jocoso do clarinete, a gravidade do trombone, a deslizar da buzina ao rosnado, do riso ao choro.

A trama gira em torno dos esforços da personagem de Denny para passar incólume à noite que antecede o seu casamento. Conduzido a um jogo de poker clandestino, estourado pela polícia, foge dali para acabar, juntamente com um colega, numa clínica de emagrecimento feminino, donde ambos escapam vestidos de mulheres. A tolice da trama só não supera o seu humor – glosado com bastante eficiência pela orquestra: o filme se resume na corrida da personagem rumo à sua casa, com o pouco de dignidade que lhe resta, seguido de perto pela polícia; e nos quiproquós envolvendo trocas de roupas e um parente clérigo (a ruptura da ordem é lei nesse gênero, daí à igreja ser constantemente metida à bulha). O público é colocado de bom grado na barafunda geral em boa medida devido à performance de Dennis, que faz tudo parecer crível. Evoé ao cinema clássico! Precisamos dessa embriaguês nos dias sensaborões que nos restam.