sexta-feira, 26 de março de 2010

O grande Gatsby (1974): revisitando "The good old days"



"O Grande Gatsby" (1925) entrou em minha vida primeiro pela pena de Scott Fitzgerald, há uns bons 10 anos.
Entrou e não saiu mais - curioso como alguns livros que a gente lê passa a fazer parte de nossas vidas. Li-o num verão na praia - o ambiente e a história se misturaram, e eu já não era a estudante de Letras passando as férias com a família no litoral paulista, mas uma personagem daquele romance feito de festanças e charleston, amor e ressentimento, e de uma luz verde que brilhava insessantemente através da baía de East Egg (de novo a luz verde...), convidando o mocinho romântico à ilusão. Naqueles dias de leitura, eu tinha certeza de que, se forçasse as vistas, enxergaria numa daquelas ilhotas de Itanhaém a mesma luz verde que enredou Gatsby, obrigando-o a se fixar do outro lado da baía da mocinha que ele amava.
A prosa de Fitzgerald tornou-se pra mim ainda mais fascinante com o tempo. Clara Bow, a adorável e espevitada IT girl, ajudou-me a conhecer Daisy Buchanan, pródiga em beleza, sex-appeal e leviandade. Ambas são marcas do tempo, daquela época em que os carros iam ficando cada vez mais velozes, as mulheres mais liberadas e o Deus Todo Poderoso ia sendo substituído cada vez mais frequentemente por simulacros terrenos (pelo "Money, money, money" do "Cabaret", ou então, pelo moderníssimo outdoor com os olhos que tudo veem, de "O Grande Gatsby").

"The Great Gatsby" (1974)

Mas, em "O Grande Gatsby", a existência capitalista dos ricos trazia em seu fundo elementos invisíveis à superfície. Admiro em Scott Fitzgerald como ele consegue descamar seus heróis ao longo de suas histórias. A intangível "feiticeira ruiva" do conto homônimo, que dá razão à vidinha burguesa de Merlin Grainger, não passava de uma bailarina escandalosa; o metódico e centralizador Monroe de "Último Magnata" era, afinal, um romântico, enredado por uma mulher comum por ver nela a esposa amada que morrera; mais romântico ainda era Gatsby, o ex-soldado e, agora, arrivista social, que construíra nome e fortuna para entregá-los numa bandeja à fútil Daisy, cuja paixão por ele depois descobriremos não passar de um flerte (o flirt, tão na moda naqueles good old days).

Scott Fitzgerald

Scott Fitzgerald era um romântico numa época de perda das ilusões (pela Grande Guerra, pelo capitalismo selvagem) e desejo frenético de se experimentar experiências fugazes. Gatsby é um retrato disso: os scrapbooks que faz de Daisy são prova de que ele desejava parar o tempo que corria cada vez mais furiosamente e tentava impedir que as pessoas cultivassem relacionamentos duradouros. Quer mais romantismo que o modo como ele enxerga Daisy - tão bonita e (moralmente) quebradiça quanto a flor que lhe dá o nome - que sempre vê à distância, filtrada pelo grande amor que tem por ela, o qual apaga seus inúmeros defeitos? Isso tudo construído numa prosa elegante e, em certo sentido, clássica, que ousa no conteúdo e não na forma.

Redescobri o escritor sensacional ao ver, no final da semana passada (o atraso do post é culpa da correria de início de semestre...), a versão cinematográfica do romance rodada em 1974 e estrelada por Mia Farrow e Robert Redford, a terceira de suas quatro versões (as outras são de 1926, 1949 e 2000).
É um belo filme: boa escolha de elenco, trilha sonora, locações, fantástica fotografia e figurino, tudo contribuindo para a reconstrução do high-life de Long Island tal qual Fitzgerald o via. Mia Farrow é uma formidável Daisy. Os trejeitos artificiais que faz quando a câmera a toma pela primeira vez - momentos antes d'ela ser apresentada a Nick Carraway, o narrador - apreendem bem a mocinha fútil que ela, no final das contas, se provará. A personagem representa um tipo que é em si artificial - uma boneca moldada para o deleite dos grã-finos, cujo maior atributo é enfeitar as reuniões e festas por eles organizadas. Daisy até demonstra alguma consciência ao rogar para que a filha seja suficientemente bela e tola para encarar a vida que a aguarda ("Garotas belas e tolas podem usar as roupas que elas escolherem", ela consola a filhinha). Porém, no final o que subsiste é seu papel de flapper na extravagante peça de teatro em que ela entrou desde que teve idade para flertar.
Gatsby se apaixona por uma ilusão e deseja tomá-la para si. Porque sabia bem que mulheres como Daisy não se casavam com homens pobres, constrói um império maior que o homem com o qual ela havia se casado. E dá festas e mais festas em sua mansão, esperando pela personagem principal, sempre convidada mas que nunca aparece (afinal, ricos tradicionais não se misturavam aos novos-ricos).

Gatsby e Daisy se veem pela primeira vez depois de muito tempo, e através de uma moldura circundada por flores. Novamente a ilusão se sobrepõe à realidade...

É sintomático, portanto, que o reencontro de ambos seja cercado por aquilo que os separou: dinheiro. Fantástico, aliás, como Fitzgerald escreve nesse momento uma poesia do dinheiro. Gatsby, numa ansiedade que trás de volta o jovem oficial que ele foi, embeleza o jardim de sua casa para receber a moça e faz cair sobre ela uma simbólica chuva de camisas importadas (como essa cena, que nem me lembro existir no livro, fica bonita no filme!): inunda-a com dinheiro.

No final, porém, o que permanece é uma consciência de classe bastante forte. Gatsby perde sua ambiguidade para se parecer bastante com Nick, o primo pobre de Daisy, narrador da história. Ao contrário dos ricaços, que têm uma caixa registradora no lugar do coração, o herói de Fitzgerald acaba assumindo a culpa de um crime cometido por Daisy, morrendo por ela (o que há de mais romântico?). A canção que fecha o filme é uma balada irônica dessas diferenças sociais: Ain't we got fun (Whiting, Kahn, Egan, 1921).

In the winter in the Summer
Don't we have fun
Times are bum and getting bummer
Still we have fun
There's nothing surer
The rich get rich and the poor get children
In the meantime, in between time
Ain't we got fun?

Porém, o narrador fica do lado do protagonista e é, de certa forma, aquele que o redime, afinal, é através de seus olhos que conhecemos o que há de pérfido na sociedade dos roaring twenties.


9 comentários:

Tertúlias... disse...

Um filme que definitivamente marcou minha vida... e minha geracao... todo mundo passou a amar os anos 20... todas as atrizinhas da Globo passaram a usar estas "boinas" de cristal como Mia... Como ese filme foi incrível... Sam Waterston, Lois Chiles a magnífica Karen Black como Myrtle (que grande papel). E que producao... e as músicas... Voce me inspirou: um bom programa para o fim-de-semana!

Tertúlias... disse...

Eu gostaria tanto de ver as outras versoes... quem trabalhou nelas?

Adoro (teatralmente) a primeira e a última fala de Daisy: "Nick, I'm paralized of happiness to see you" e "You know how I love to see you at my table"...

Danielle disse...

Humm, Ricardo, é um filme lindíssimo, não é mesmo?!
Há tanto pra se dizer sobre ele (gostaria de ter tido mais tempo pra rebuscar o post, falar mais sobre a trilha sonora composta por aquelas maravilhas dos anos 20, que desenvolve no plano musical os temas tratados; adorei Robert Redford e não disse nada sobre ele - talvez porque minha lembrança do Gatsby da obra de Fitzgerald é vaga, apesar de ser intensa (?)). Karen Black é fantástica, mesmo! Ela é uma flapper muito menos imoral que Daisy. Taí outra diferença que não discuti: as flappers dos anos 20 eram liberadas, queriam diversão fácil mas não necessariamente eram egoístas como Daisy. Clara Bow sempre tem um momento de abnegação - mesmo que ele seja algumas vezes de um moralismo fácil (a propósito, preciso muito falar sobre essa grande moça!).
Adorei os comentários! Obrigada pela visita!

Bjocas e bom fim de semana
Dani

Camila Henriques disse...

Ainda não tive a oportunidade de assistir a "The Great Gatsby", mas ele figura na minha lista de filmes para ver há um bom tempo. adoro mia farrow em "a rosa púrpura do cairo" e sou apaixonada por redford.
E a obra de scott Fitzgerals me é familiar graças ao belo filme "O Ídolo de Cristal", já viu?
Ah, tem também The Curious case of Benjamin Button, escrito por ele - mas esse eu nunca tive a oportunidade de ler, só de assistir ao filme, que não me agradou muito. Achei bastante arrastado.

Danielle disse...

Oi, Camila!
Você vai gostar muito do filme! Sabe que eu não sabia da existência dele até ver um box da Mia Farrow com ele e O Bebê de Rosemary (a que, diga-se de passagem, ainda não assisti...). Ela é uma grande atriz - também acho A Rosa Púrpura do Cairo muito especial!
Não vi O Ídolo de Cristal, mas vou aproveitar a indicação. Sabe que já peguei o filme na mão uma porção de vezes mas não o comprei. Acho que a capa me fez pensar que ele seria muito melodramático.
Scott Fitzgerald é um grande escritor. Não gosto do filme Benjamin Button tanto quanto da história na qual ele foi inspirado. Ela é fascinante - irônica, agridoce - porém, é o tipo de literatura inadaptável para o cinema (dê uma procurada no conto - estou com dó de contar o desenrolar dele pra você e eliminar a surpresa que você terá quando vê-lo). O filme é mais dramático e com certeza se arrasta mais - você não acha que ele seria uma maravilha se durasse só 2 horas?!

Bjinhos. Obrigada pela visita!
Dani

Lorena F. Pimentel disse...

Que idiota que eu sou! Vi a atualização há dias e não me dei conta de que era o seu blog!

Vou me intrometer nos comentários e dizer que eu tenho O ídolo de Cristal, Dani, e que se você quiser, posso incluí-lo na nossa próxima troca. Estou aguardando o box de DVDs da Ginger e Fred, e do Rodgers e Hammerstein que pedi.

Sou louca para ler The Great Gatsby, mas todas as vezes que vou a livraria, ele está em falta. Tentarei assistir ao filme assim que possível.

Camilinha e eu assistimos juntas a The Curious Case of Benjamin Button e partilhamos da mesma opinião; o filme teria sido mais agradável se houvessem cortado pelo menos trinta minutos.

Beijos e um ótimo fim-de-semana!

Danielle disse...

Olá, Lorena!

:D Não se xingue!!

Menina, vou adorar se você gravar o "Ídolo de cristal" pra mim! Pode incluí-lo no pacote, sim!
Procure o Grande Gatsby em algum sebo. Lembro que comprei-o por um preço ridículo - acho que R$ 2,00. Se bem que a "Livraria Saraiva" lançou a pouco uma edição revisada dele que parece ser muito boa - mas que parece ter acabado rapidinho.

Fitzgerald é um grande escritor. Você, que gosta de cinema clássico, vai gostar de ler "O grande magnata", romance que desnuda os bastidores do cinema de Hollywood (que Fitzgerald conhecia bem, já que foi roteirista por um tempo), além dos contos - há sempre neles alguma influência do cinema.

Benjamin Button não é um dos meus filmes preferidos, embora tenha me impactado - especialmente aquelas cenas iniciais, da correria do pai com a criança no colo, da adoção dela pela dona do asilo. Curioso que não há nenhuma dessas cenas no conto, que, aliás, toma o tema de um modo bem mais fascinante que o filme...

Bem, acho que você vai gostar demais do Grande Gatsby de 1974. Dê uma conferida nele e depois me conta o que achou! Humm, você comprou as coleções do Hammerstein e Astaire & Rogers?! Graaandes aquisições. As duas são maravilhosas, embora a de Fred e Ginger seja de longe a minha preferida!

Bjocas. Um ótimo fim de semana pra você
Dani

Anônimo disse...

eu gostaria de saber, qual pecas foram introduzidas na decada depois doo filme o grande gatsby
Obrigada
Estou concluindo meu curso de moda e estou com dificuldades neste assunto.

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Olá!

Não sei se compreendi direito a sua pergunta. Você quer saber das peças de teatro escritas nos anos 20 e 30, depois da publicação de "O Grande Gatsy", ou daquelas produzidas depois desta versão cinematográfica da obra de Fitzgerald?

Nos anos 20-30, uma boa entrada para você creio que seja o teatro de Noel Coward (dramaturgo que além de tudo era compositor de música popular americana). Há uma página da Wikipedia sobre ele, a partir da qual você pode aprofundar sua busca: http://pt.wikipedia.org/wiki/No%C3%ABl_Coward

Não sei se consegui te ajudar. Qualquer dúvida extra que você tiver, deixe-a apontada aqui com o seu e-mail que entro em contato.

Abraço
Danielle