quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story, 1940)

“Núpcias de Escândalo” é conhecido como o filme que salvou a carreira de Katharine Hepburn. Kate, que no início dos anos 30 fora considerada uma das maiores promessas de Hollywood (recebeu o Oscar de Melhor Atriz por uma de suas primeiras incursões na tela grande, quando interpretou a também atriz iniciante em “Morning Glory”, de 1933) teve, no fim da década, colada à sua imagem o rótulo de box office poison, o qual a obrigou ao exílio das telas e à dedicação ao teatro – retornando ao meio do qual ela se afastara no início da década, depois de uma série de produções mal-sucedidas.

Quis o acaso, no entanto, que a atriz subisse à cena guiada pelo texto primoroso de Philip Barry e secundada por dois sólidos atores, que o grande público conheceria bem nos anos subsequentes: Joseph Cotten (que pouco tempo depois seria apresentado por Orson Welles no “Cidadão Kane”) e Van Heflin (ao lado de quem Kate já havia atuado em “A woman rebels”, 1936). Acima de tudo, a atriz tinha nas mãos um papel que era um desdobramento de si, como ela faz questão de sublinhar no ótimo “Katharine Hepburn: um auto retrato” (que integra a versão dupla do DVD) – em que ela nostalgicamente guia o público pelos seus 60 anos de carreira. “Eu a entendia”, diz a atriz referindo-se à aristocrata mimada e intransigente Tracy Lord. Acompanhe o leitor as fugas de Miss Hepburn de repórteres bisbilhoteiros e seu desprezo pela maquinaria de Hollywood para perceber o quanto a atriz se aproximava da personagem.
O sucesso da peça na Broadway (foram 417 performances entre março de 1939 e março de 1940) fez com que a atriz arguta convencesse o bilionário Howard Hughes (essa fase da vida conjunta dos dois é narrada em “O Aviador”, 2004) a lhe comprar os direitos da peça; direitos que ela depois vende à Louis B. Mayer, obtendo em troca a garantia de que repetiria nas telas o papel que a consagrara no palco.
Dito e feito. Meses depois Kate dava vida novamente à Tracy Lord, desta vez secundada por Cary Grant e James Stewart e em frente às lentes de seu querido diretor George Cukor.
O resultado é antológico. A peça de Barry, adaptada à cena por Donald Ogden Stewart (vencedor do Oscar de melhor roteirista pelo trabalho), é brilhante. Mas é ainda um tanto quanto teatral, portanto, o sucesso da empreitada coube igualmente a George Cukor, cuja batuta competente fez com que o elenco baixasse o tom nalguns diálogos pomposos, o que só fez o filme ganhar em realismo e em poesia.
Kate, Cary e Jimmy usam bem o texto eloquente, com laivos de romantismo rasgado, mas isso também porque as palavras altissonantes recheiam ideias densas. Tracy reencontra o ex-marido e ex-bebedor convicto C.K. Dexter Haven (Cary Grant), um nome que derrama aristocracia, um dia antes de seu casamento com um novo-rico. Na superfície, o homem parece querer ir à forra: “Quando eu descobri que meu papel não seria de um marido amoroso, mas sim o de um alto sacerdote para uma deusa virgem, aí minhas bebedeiras começaram a ficar mais profundas e frequentes.” - eis o nivel da prosa.
Miss Lord (aristocrata também no nome), a "deusa pálida e fria" que, segundo o ex-marido, certa noite se embebedara e subira nua no telhado – “com os braços apontados para a lua, uivando”: “aquilo foi muito importante e revelador. A lua também é uma deusa... Casta e virginal.”, ele completa – surpreendentemente será degelada por um tipo pouco convencional: o cronista mundano e escritor sério nas horas vagas Macaulay Connor (James Stewart).
Connor vitupera seu ganha-pão. No entanto, movido pelas circunstâncias a cobrir o casamento da aristocrata, não demorará muito a descobrir que a armadura de frigidez empunhada pela moça encobre uma alma muito parecida com a dele. Tanto que, tocados pelo álcool, ambos protagonizam uma das cenas românticas mais sensacionais do cinema, com direito aos ditos mais grandiloquentes, que se tornariam uma patacoada se não estivessem envoltos num contexto tão arrebatador. Nos braços de Mike, Tracy se torna uma “mulher de ouro”, “de carne e osso”, “iluminada por dentro por labaredas e holocaustos”. A deusa de gelo finalmente é derretida – o fogo restante do incêndio será apagado pelos dois num banho de piscina...
Mas o filme é antes de tudo uma comédia – e talvez seja por isso que a censura não lhe tenha retalhado cenas como a acima. É um dos últimos exemplares das screwball comedies – filmes que conjugavam com maestria a agilidade dos diálogos, das ações e dos movimentos de câmera, sem deixar de lado a nobreza dos caracteres. Mesmo as sequências mais românticas são acenadas com piscadelas cômicas. E não só quando há o choque entre os caracteres e ways of life distintos: Mike e sua amiga fotógrafa bisbilhotando a casa da ricaça pela primeira vez (“Você não sabia que é preciso ser podre de rico pra morar numa bagunça dessas?”, diz a moça vendo os bibelôs da casa); Tracy fazendo pose de boa moça para impressionar o jornalista e a fotógrafa que ela é obrigada a receber; C.K. Dexter Haven fingindo-se de marido ofendido ao ver a ex-mulher nos braços do jornalista; Mike entoando canhestramente “Over the rainbow” para uma Tracy ébria e de roupão, sob os olhos do ex e do futuro marido da moça. Isso sem contar a inesquecível sequência inicial, flagrante jocoso dos momentos que antecedem o divórcio do casal, quando ambos resolvem sua diferença no braço e um taco de golfe leva a pior...
E enquanto romance e comédia se enlaçam do jeito mais delicioso possível, não é só Tracy que deixa a torre de marfim para encetar um corpo-a-corpo com o mundo errático: Mike reaprende a enxergar os endinheirados, tomando para si a lição do personagem de um dos contos que escrevera: “Sempre tenha paciência com os ricos e poderosos”. O único a passar incólume pelo dia de exceção é C.K. Dexter Haven, munido desde o princípio daquela sabedoria que só o sofrimento consegue construir. No final das contas, ele é quem melhor entende a jovem Tracy Lord, desde o princípio. Porém, ela precisará fazer logo sua escolha entre o novo-rico, o intelectualizado jornalista e o ex-marido. Os convidados já estão esperando.


16 comentários:

As Tertulías disse...

Um dos meus sternos prediletos!!! "Mamá, Mamá"... Kate está belíssima, engracadíssima, cheia de humor... "I love english literature... Shakespeare, Cromwell, Jack the Ripper.... " e a direcao de Cukor... coisa de genio... Grant é um pouco fraco como ator ao lado de tao forte elenco mas "dá conta do recado"!!!! Sabe do que? Vou reassistí-lo hoje a noite!!!!!
Se lembra que uma cena deste filme ficou imortalizada em "Radio Days" de Allen???? Nao é por menos.... Bravo Dani!!!!!!

Danielle Carvalho disse...

Oi, Ricardo!

Ah, eu amo apaixonadamente este filme. Kate como sempre está explêndida, assim como Jimmy. Cary Grant parece mesmo meio tímido perto do elenco tão firme, mas acho a personagem dele tão linda... O filme é ótimo nos mínimos detalhes: os vários ditos cômicos (quando Tracy diz para Mike que os textos dele são quase poesia e ele responde: "Não se engane, eles "são" poesia"; ou "Cuidado, você sabe o que acontece com meninas que leem coisas como essa? Elas começam a pensar..." - tão arrogante, merece a pecha de "intelectual snob" que depois ela lhe dá...). E a interação entre o grupo - com que naturalidade caminha tudo até que, no final, todos abandonem suas diferenças. E a fotógrafa (que ótima a Ruth Hussey!) então. Pé no chão, durona mas, no final das contas, romântica como todos os outros. Bons tempos em que Holywood fazia maravilhas como essa. E pra ganhar dinheiro!!

Querido, fico muito feliz pelo feedback carinhoso. Veja o filme por mim também, que o revi na noite de ano novo e já estou com saudades...

Bjs
Dani

PS: Sabe que ainda não vi Radio Days? Mas ele está aqui, então vou fazer isso logo!

Danielle Carvalho disse...

Ricardo, querido, recuperei o post que escrevi sobre outra obra-prima de Kate Hepburn-Cary Grant, "O Boêmio Encantador" (http://www.ofilmequeviontem.blogspot.com/2009/06/o-mundo-pode-ser-maravilhoso-holiday.html), e lá você me escreveu que tinha acabado de encomendar o filme. Conte o que você achou dele!

Bjinhos

disse...

É uma obra-prima! Embora eu tenha tido o azar de ver a péssima versão dublada, é inegável que esse trio está maravilhoso. E pensar que Kate queria, no início, contracenar com Spencer Tracy e Clark Gable, mas eles não estavam disponíveis...
A versão musical "Alta Sociedade" tem, na minha opinião, como ponto alto o dueto de Celeste Holm e Frank Sinatra. Ruth Hussey está em 1940 tão apagadinha e Celeste dá um show!
Beijos!

Danielle Carvalho disse...

Oi, Lê!

Obra prima absoluta! Você tem razão sobre os atores serem segundas opções. Mas acho que eles caem como uma luva nas personagens que desempenham! Diz a trivia de Hollywood, inclusive, que Jimmy Stewart não se julgava merecedor do Oscar de melhor ator por sua interpretação porque se sentia ocupando o lugar de outro; e que ele sabia só tê-lo ganho como homenagem a posteriori por seu trabalho em "Mr. Smith goes to Washington" (estupendo trabalho, por sinal).

Quanto a High Society, acho que não consigo gostar tanto dele porque a história é demasiado colada na deste. Mas concordo contigo que Sinatra e Holmes são o par mais empolgante. Sinatra e Crosby também. Menos a Grace Kelly, que até agora só me convenceu de verdade como atriz nos filmes do Hitchcock...

Bjinhos
Dani

Anônimo disse...

David Libeskind Sirota disse:

Li o seu artigo sobre Núpcias de Escândalo e devo confessar que nunca assisti a esse filme (que pecado) mas o texto consegue iluminar uma época tão importante para o cinema americano!! Só teria um reparo a fazer sobre Kate, que mesmo sendo poison box office não deixou de fazer pelo menos uma obra prima chamada Mary Stuart de John Ford (1936) e que passou no ano retrasado na mostra promovida pelo CCBB e se encontra disponível em DVD!!

Danielle Carvalho disse...

Oi, David!

Menino, então corre já ver esse filme! Mas, olha, eu também tenho que fazer um mea culpa, porque nunca vi "Mary Stuart", embora já tenha visto quase tudo o que Kate fez...

Sobre a pecha de box office poison, ela foi dada à atriz enquanto ela fazia um filme bom atrás do outro. O colapso final foi bem em "Levada da Breca" (1938. Depois que o filme fracassou nas bilheterias ela decidiu se retirar do cinema. Mas esse rótulo parece ter colado à atriz porque ela não se dobrava às obrigações das "deusas das telas": não dava entrevistas, não respondia cartas dos fãs, não dava autógrafos, etc. Ridículo, não? Como se seguir o esquema da indústria fosse determinante pra se desempenhar um bom papel...

Bjos e inté.

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Grande Obra Prima Do Cinema Americano, sem Duvidas. Não sou muito fã de George Cukor mas tiro o chapéu para ele em algumas produções. Hepburn e Stewart já valem a pena.
Ótimo post,
Parabéns...

Abração

garoto enxaqueca disse...

Danielle acabei de ver o filme e só depis decidi ler seu texto e de antemão digo: primoroso como sempre. O filme é encantador e Kate está lindíssima (que estrutura óssea o rosto dela tem!)a deusa gélida é interpretada de forma delicada e espontânea salvando a interpretação de Kate de um lugar comum que o personagem poderia levar. Destaque para James Stewart afiadíssimo e Cary Grant no auge de sua beleza. Irei assisti-lo uma segunda vez para degustálo mais! vc e suas sugestões salvando as minhas férias!

bjs

Faroeste disse...

Que me perdoem os fãs de Cary Grant. Mas, raramente vejo um filme com ele. Acho-o insuportável, intragável e um ator que só sabe fazer uma coisa; desagradar. Ele não tem jogo de cintura, é um boneco, uma coisa sem qualquer graça. E, apesar de adorar ver Jimmy e Hepburn estrelando, até que tentei ver esta fita. Porém, Grant me desfez da vontade de ir até o fim.
Lamento, mas é coisa minha.
jurandir_lima@bol.com.br

Danielle Carvalho disse...

Garoto enxaqueca, muito feliz por ter ajudado a animar as suas férias!
A Kate era lindíssima. Ela tem de cabo a rabo os traços aristocráticos de sua personagem, por isso o papel lhe cai tão bem: o nariz fino, o porte ereto, a elegância do caminhar, além de uma prosódia sensacional - meio musicada e carregada de um sotaque sulista que ela felizmente não perdeu durante toda sua vivência em Hollywood.
Fico agradecida pelas palavras sobre o texto e, especialmente, por eu ter sido a responsável por te apresentar a essa maravilha da sétima arte.

Faroeste, entendo você porque tenho também dessas coisas, mas definitivamente não com o Cary, de quem já vi quase tudo...

Bjs
Dani

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Concordo com Lê, a vantagem de ALTA SOCIEDADE é a participação de Celeste Holm e as vozes sublimes de Sinatra e Crosby. Mas NÚPCIAS DE ESCANDALO é obra-prima absoluta. Gosto demais. O refinamento e a inteligência do cinema de Cukor sempre me tocam.

O Falcão Maltês

Suzane Weck disse...

Ola Danielle,teu blog está demais.Que bom que te achei.Voltarei sempre.Grande abraço.

Danielle Carvalho disse...

Obrigada, Suzane!! E eu fico contente em receber sua visita.

Abraços e até logo.
Dani

Edison Eduardo d:-) disse...

Oi, Dani... Não vi e sua resenha já me fez gostar... Não dá pra dar uma diquinha do que acaba acontecendo? Ehehehee, bjão! Edison

Danielle Carvalho disse...

Ah, não vou contar não, especialmente para você procurar o filme na locadora e vê-lo!