terça-feira, 10 de novembro de 2009

Do "Boulevard du Crime" para o mundo: influências do burlesco francês do século XIX

O título é mais pretensioso do que o tratamento que pretendo dar ao tema... Na verdade, quero lançar aqui apenas alguns apontamentos sobre ele, movida por um questionamento da minha amiga Cristina sobre o estilo de Dita Von Teese, stripper que há pouco causou furor aqui no Brasil. A moça, que inegavelmente é bem bonita, disse ter sido influenciada pelo burlesco norte-americano dos anos 40 e 50. Eu recuaria essa data uns bons 100 anos, e diria que ela descende das dançarinas de cabaré e café-concerto que arrasavam os corações dos homens de todo o mundo.
Algumas delas vieram para o Brasil em meados do século XIX, com a abertura, no Rio de Janeiro, do Teatro Alcazar, como a francesinha Aimée, que, nas palavras de Machado de Assis, era "um demoninho louro - uma figura leve, esbelta, graciosa, uma cabeça meio feminina, meio angélica, uns olhos vivos - um nariz como o de Safo - uma boca amorosamente fresca, que parece ter sido formada por duas canções de Ovídio - enfim a graça parisiense toute pure.". Até o cronista conservador é enredado por aquela mulher que considera tão ambígua: meio anjo, meio mulher, o nariz de Safo... É também no hibridismo que Henrique Fleiuss, caricaturista da Semana Ilustrada, se apoia para narrar a passagem da artista pelo Brasil. Desta vez ela é uma cadela (que apelido irritantemente simbólico...) que sai do Alcazar perseguida por inúmeros cães.

João Roberto Faria - aliás, a imagem saiu de suas Ideias Teatrais - afirma que as mães de família comemoraram o retorno da atriz a Paris... Por quê?
Sabe-se que a carreira teatral só foi reabilitada há muito pouco tempo. Já Dercy Gonçalves disse ter precisado mudar de nome para não envergonhar a família. Em meados de 1800, os palcos eram tomados como vitrines para que as moças se expusessem em busca de amantes ricos. Se era assim quando Sarah Bernhardt ingressou na Comedie Française, imagina-se então no teatro de Boulevard, que tinha uma liberdade muito maior na escolha do repertório. Isso é apanhado com muita perspicácia por Marcel Carné em "Les enfants du Paradis", (1945) que toma como cenário o "Boulevard du Crime", área da Paris do começo do XIX onde concentravam-se os teatros especializados nas comédias musicadas e nos melodramas (esses últimos apresentavam invariavelmente espetáculos sangrentos, que puniam os vícios e premiavam a virtude apenas no último ato, daí o nome atribuído ao local). Naquelas ruas espaçosas, comprimidas por curiosos, vendedores, artistas de variedades e circundadas por grandes teatros, podia-se ver um pouco do que se espalharia pelo mundo nos anos subsequentes. Quando chegaram ao Brasil, os malabaristas, os treinadores de animais, os palhaços, e as dançarinas de can-can concentraram-se nos teatros alegres das cidades mais importantes. Apresentavam pequenos números cômicos ou musicais e trajavam e dançavam com uma liberalidade desusada para a época - na época em que era escândalo uma moça mostrar o tornozelo. Esses números breves podiam ser frouxamente costurados compondo uma peça maior, e daí nasceram os vaudevilles, operetas, burletas, peças que tinham como objetivos alegrar e seduzir as plateias. Muitas atrizes faziam juz ao rótulo que lhes era imputado - a exemplo de Aimée, cujo nome já diz tudo - outras não, mas todas sofriam tremendo preconceito por parte da sociedade conservadora - e boa parte dela ia aplaudir as moças no teatro - daí a não conseguirem se casar com alguém que não fosse do teatro.
Na entrada do século XX, os costumes se modificaram drasticamente, em especial no que se refere ao espaço ocupado pela mulher na sociedade. Elas penetraram o mercado de trabalho, passando a exercer funções antes exclusivamente masculinas, e, com isso, puderam circular as ruas livremente. Com isso, também o rótulo de "sexy" começou a anunciar produtos mais ousados. Isso fica claro com um passeio pelo fascinante Fora do Sério: um panorama do Teatro de Revista no Brasil, de Delson Antunes. Conforme foram passando as décadas, as vedetes foram ficando mais esbeltas e mostrando mais o corpo. Um contraponto cinematográfico do fato é a cena de "Amor de dançarina" ("Dancing lady", 1933), na qual a jovem atriz burlesca interpretada por Joan Crawford é presa pela polícia no meio de um striptease. Outro é o conhecidíssimo Gilda (1946), em que a personagem de Rita Rayworth é arrastada do palco por Glenn Ford enquanto apresenta um número semelhante.

Joan Crawford - "Dancing lady"


Rita Hayworth - "Gilda"

Aliás, fica claro aí que o cinema foi influenciado pelo teatro desde o princípio. As atrizes que pululam nos filmes usando nada além de meias calças, collants (ou as 2 peças separadas), muitas plumas e paetês (por exemplo, a aspirante a atriz burlesca de "Ardida como pimenta", 1953) tiveram vida ativa nos palcos de todo o mundo naquela mesma época. Um exemplo é a vedete brasileira Berta Loran.
Berta Loran, 1948 (Cedoc-Funarte)

O tipo da mulher sedutora era tão recorrente que Oscarito chega a parodiá-lo em 1942 (a foto anterior e as duas próximas estão no livro de Delson Antunes).

Na mesma década de 40, Dora Vivacqua, a "Luz del Fuego" (outro nome sugestivo...) dedicava-se a números exóticos com serpentes.

Dita Von Teese bebeu nessa fonte popular velha e barbada. Percebeu que a beleza e o sexo sempre deram dinheiro - e ouso pensar que sempre darão - e construiu uma personagem que representa cabalmente esses atributos. É exuberante como a Marilyn Monroe, mas não tem sua sexualidade explícita - aquela mesma que afastou Hitchcock da loira, já que em sua testa a palavra "Sexo" estava escrita em neon e com letras garrafais... Ao contrário, a embalagem em que ela se deixou fotografar no Brasil - o vestido preto discreto e sóbrio - que tão visivelmente contrasta com suas apresentações, denota a esperteza da moça em construir em torno de si uma aura de mistério. A stripper marca uma nova época do teatro de variedades: é o retrato bem acabado da sociedade de consumo do século XXI, que ama a imagem acima de tudo e toma a beleza como uma poderosa moeda de troca. Como membro da geração Doutor Hollywood que é, moldou seu corpo de cima a baixo, a silicone e bisturi, para construir uma personagem desejável. Ela não representa uma mulher fatal, é a própria - no jeito de andar, vestir, falar e manter os olhos entreabertos enquanto fala, (sua entrevista ao Jô Soares diz tudo). A repercussão da visita da artista no Brasil é prova do poder que a imagem exerce: ela fez um show de 7 minutos (pelo qual cobrou um valor superior a $100.000,00) e apareceu 50 vezes esse espaço de tempo em diversos órgãos da imprensa nacional. A bolada é paga pelo conjunto, o striptease é, digamos, o seu climax. Dita merece o que ganha pela percepção que teve sobre o valor que têm as coisas na sociedade. Assim como mereceram tantas outras vedetes que povoaram o imaginário das pessoas nos séculos XIX e XX. Um brinde a ela, e um bem grande... naquela enorme taça dentro da qual ela dança...


9 comentários:

Tertúlias... disse...

Interessantíssima postagem! Estou no momento a trabalho em Colonia mas volto amanha a Viena, assim poderei ler tudo com mais calma... Adorei ver "Luz del Fuego". Será que voce se esqueceu das "Irmas Paga"???? (estou sem acentos aqui, um "tio" faltou em "paga") Acho que se chamava Elvira Paga e depois de muita fama acabou pobre e gorda vendendo um livro sobre sua vida indo de bar em bar... coitada! Vamos pesquizar sobre ela?

angela disse...

Uma aula e tanto, gostei muito.
A Dita é bem bonita e sensual, mas na minha opinião ninguém tira a luva como a Rita.
beijos

Tertúlias... disse...

Voltei!!!!!!!!!!!!!

Danielle disse...

Olá, pessoal!

Fico feliz que tenham gostado deste post. Tenho muito interesse no teatro alegre. É curioso como um gênero que nasceu nas feiras e era voltado especialmente aos setores menos favorecidos da população tenha se transformado hoje num divertimento da elite. Ricardo, sabe que nunca ouvi falar das irmãs Pagãs? O Delson Antunes faz um belo levantamento fotográfico dos artistas do teatro alegre de fins do XIX e começo do XX, mas não me lembro de ter visto as 2 irmãs lá. Vou procurar saber a respeito delas! E Ângela, concordo totalmente contigo. A Rita é hors concours!

Psique66 disse...

Finalmente vou postar meu comentario :)
Danielle expert em musicais e Cinema mostrou que esta por dentro do mundo artistico.
So deixo uma ressalva para a primeira sex symbol Lillian Russel que era cantora e atriz de teatro, que talvez tenha sido do movimento Burlesco.
Tem tambem as Pin-Up, tem quem diga que Rita Hayworth faz parte dessa trupe. Eu pensava que a Dita se inspirava nas Pin-Up dos anos 40', mas na entrevista do Jô ela so fala em movimento Burlesco que eu nao conheço, por isso pedi a grande Danielle um artigo com este tema.
Gostei muito do artigo, muito interessante quase antropologico hehehe. Muita gentileza da Danielle fazer esse artigo, Ameiii.

Psique66 disse...

Atraves desse artigo tambem entendi por que a 'familia' nao queria que a filha seguissem a carreira artistica, esse estigma ficou enraizado no inconsciente coletivo da familia por varias geraçoes.
Essa mulher sensual que seduz os homens e a todos que a assistem. Me lembrei das Vamps do cinema mudo como Louise Brooks dançando com leque de plumas em Caixa de Pandora, as vamps foram um sucesso em termos de seduçao e de interpretaçao tbm, das Virgens so se eternizou a Lilian Gish que é foi e sempre será maravilhosa.
Acho que esse estigma ou preconceito de que mulher que faz cinema ou teatro nao eram pra casar (hahaha) so melhorou nos anos 70, decada da liberaçao e libertaçao da mulher.
Como o ser humano é tragicomico, se prender em bobagens, e colocar a culpa na ''moral dos bons costumes'' pra extirpar seus medos e inseguranças :)

Danielle disse...

Cris, concordo totalmente contigo! A relação entre as atrizes do teatro alegre do século XIX e XX e das atrizes que interpretam personagens do tipo no cinema é bem clara. No cinema, os exemplos são inúmeros. A Lilian Russel, a Marilyn Monroe em "Como agarrar um milionário", Greta Garbo em "As you desire me", a Marlene em "Blue angel". A ênfase na sexualidade é comum a todas, por isso a crença geral de que as atrizes desse gênero eram muito "livres" - nesses filmes há sempre o personagem que joga na cara delas de onde elas saíram e para que serviriam. Realmente é ridículo o preconceito, que demorou muito tempo pra acabar. A Dita está numa situação bastante confortável quando comparada às outras atrizes alegres, pois vive num tempo em que já se conseguiu comprovar o caráter "artístico" do que ela faz e, além do mais, comumente não mais se considera que a mulher que se despe nesses contextos é uma libertina: Luiza Brunet, capa da Playboy várias vezes, é o melhor exemplo disso.

Bjinhos e obrigada pelos comentários!!

Darci Fonseca disse...

Olá, Danielle, este é o primeiro post seu que eu leio. Excelente matéria enriquecido por fotos muito boas. Até a ex-vedete Berta Loran... Um abraço.

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Olá, Darci!

Fico muito feliz por você visitar o blog e pelas suas palavras a respeito do post! As fotografias dos artistas nacionais saíram do belíssimo "Fora do sério", livro ilustrado que recomendo a todos os amantes do teatro nacional.

Abraços e até logo
Dani