sábado, 18 de junho de 2011

Festival Varilux de Cinema Francês 2011: várias boas realizações e uma obra-prima

Nessa semana, um pouco da cultura francesa desembarcou no Brasil no Festival Varilux de Cinema Francês 2011 - que nos trouxe 10 filmes recentemente produzidos e alguns nomes consagrados que deles tomaram parte.
Em Campinas, o festival encontrou seu espaço de divulgação no Cinema Topázio, que graciosamente se divide entre a exibição da produção cinematográfica comercial e da alternativa - algo cada vez mais difícil de se ver - e, aleluia, está fincado logo na entrada da cidade, bem perto daqui. Não dá para falar da mostra sem mencionar a casa que a hospedou - que é, aliás, minha segunda casa, como a de tantos outros cinéfilos que temporariamente se mudaram para lá junto com os filmes franceses. O resultado foi proveitoso - salas cheias, algumas vezes lotadas, ajudaram a contrariar a crença socialmente consolidada de que o público está hoje preferindo o download pirata às salas de exibição.
O cinema - enquanto espaço de congregação de pessoas no âmbito público - mostra que não vai morrer tão cedo, e aqui assino publicamente embaixo da simpática propaganda do Telecine projetada antes dos filmes: não há nada como o cinema no cinema.
Isso dito, passo agora a dar uma notícia das novidades francesas. Notícia breve e que ainda se ressente da overdose de trabalho dos últimos tempos - o que, infelizmente, me afastou daqui por mais tempo do que desejaria. Espero que a desamarração geral das linhas abaixo não diminua o desejo dos leitores de passar os olhos por algumas dessas produções - especialmente por "Potiche: Esposa Troféu", a obra-prima do título, comédia protagonizada por uma irresistível Catherine Deneuve. No entanto, não vamos pôr a carroça antes dos burros. Primeiro, uma referência às boas realizações, ao menos àquelas que tive a oportunidade de ver (a lista completa está aqui).

Audrey Tatou em "Uma doce mentira"


Os dramas

O primeiro, "Copacabana" (2010, direção de Marc Fitoussi), protagonizado por Isabelle Huppert, injeta um riso ao mesmo tempo ácido e estapafúrdio na situação dramática que toma como base. Huppert desempenha uma mãe atípica, hippie extemporânea rejeitada pela jovem filha que está prestes a se casar. Depois de ser desconvidada para o casamento da filha, a mulher viaja à Bélgica atrás de um emprego de vendedora de apartamentos time-sharing (sistema segundo o qual se adquire um imóvel em conjunto com outras pessoas, desfrutando-se do direito de ocupá-lo por um breve período de tempo todos os anos). O motivo real da viagem nem mesmo ela sabe ao certo, impulsiva que é: provar à filha que poderia ser uma mãe convencional?; viver outra aventura noutra terra estrangeira? A fortuidade impera no roteiro, estendendo-se para o título e a trilha-sonora da película - canções brasileiríssimas ritmam malemá as andanças da mulher pela gélida Bélgica - coadunando-se com as excentricidades do conjunto (excentricidade impressa até mesmo no colorido cartaz).
A história é surpreendente: a viagem desde sempre anunciada ao Brasil - mas nunca realizada empiricamente - desdobra-se numa original vivência da protagonista com o país que ela tanto ama (ama, aliás, o estereótipo do Brasil, o que nem por isso deixa de ser interessante, já que dá consistência ao papel da mulher avoada e calorosa); o percurso até o insólito clímax (que não vou anunciar para não perder a graça) é marcado por encontros da protagonista com personagens igualmente incomuns.
O mote da trama é doloroso e Huppert parece mais uma vez se deleitar desempenhando com desprendimento outra personagem surda às imposições do mundo, vivendo somente para seus instintos (vi-a pouco tempo atrás em "Minha terra: África", igualmente correta). O filme não alça nenhum maior voo, porém, é interessante pela forma como rejeita expressamente qualquer convenção - o que pode até acarretar na dificuldade de o público se identificar com a personagem principal, mas nem por isso diminui o interesse da história.

Os outros dois dramas seguem o mesmo saudável percurso que faria muito bem ao cinema norte-americano standard dos dias de hoje: roteiros despretensiosos, limpos e seguros, e atuações de uma naturalidade quase documental.
"O pai dos meus filhos" ("Le père de mes enfants", 2009, direção de Mia Hansen-Love) toma como tema a indústria do cinema a partir do ponto de vista de um pequeno produtor que tenta se equilibrar entre os sucessos comerciais e os artísticos. Que a luta é infausta todos nós sabemos. O problema é que as produções que se dedicam ao assunto insistem em desfechos upbeating - nos quais a qualidade vence o dinheiro e o artista lutador vê finalmente seus esforços recompensados. Aqui não há disso.
Acessamos flashes da vida familiar e profissional de Grégoire Canvel, pai amoroso e produtor cinematográfico dedicado que acaba digerido pelo sistema. A soma dos âmbitos público e privado, todavia, não prenuncia o desfecho que o homem terá: por isso tal desfecho é tão surpreendente.
A principal riqueza do filme está no modo como as duas partes da história são contadas. Na segunda, a virilidade - marca principal da personalidade de Canvel, transferida para o ritmo frenético da filmagem - é suplantada pela delicadeza das mulheres da família. A forma como o percurso se dá é bastante bonita: Multiplicam-se os primeiros planos dos rostos das frágeis mulheres e a velocidade dá lugar à lentidão; enquanto isso, através de velhas cartas do homem e da defesa de seus ideais, mãe e filhas tentam repor sua presença. O resultado vale a pena ser conferido.
Igualmente original é o modo como o thriller Simon Werner desapareceu... ("Simon Werner a disparu...", 2010, direção de Fabrice Gobert) é narrado. O mote é simples: numa escola de Ensino Médio, três jovens misteriosamente desaparecem. As soluções comuns ao gênero são, no entanto, deixadas de lado em prol de uma narração reiterativa, que teima em (re)contar tais desaparecimentos a partir dos pontos de vistas dos colegas de escola dos jovens. A escolha igualmente diminui a importância dada aos momentos de surpresa, e os sustos comuns ao gênero dão (viva!) espaço para uma leitura muito mais cerebral do caso narrado. O final é surpreendente e só faz ressaltar a potencialidade de uma narração em primeira pessoa: a câmera ganha os olhos de várias personagens; a subjetiva direta apresenta o olhar de cada um sobre o fato. Quem faz o balanço é o público, que, nesse sentido, participa do desvendamento do caso.
Algo curioso - e que menciono só de passagem, já que não consigo cogitar em suas razões - é que o filme tem um sopro nostálgico que se estende para as outras duas produções das quais me ocupo a partir de agora. Nele aparecem debates sobre o tabu do homossexualismo, a AIDS e a camisinha. Além disso, pululam walkmans e os toca-discos ritmam as festas estilo "Barrados no Baile" - o divertimento ingênuo com que as personagens dos anos 80 comemoravam a saída dos pais de casa ganha aqui tom lúgubre, mareado pelo aparecimento de um corpo. Parece que o nosso dia-a-dia marcado por celulares e demais dispositivos de localização imediata diminui o mistério das coisas, e que para novamente encontrá-lo se é preciso mergulhar no passado...

As comédias

O festival acertou em cheio na escolha das comédias: ambas leves e adoráveis. "Uma doce mentira" ("De vrairs mensonges", 2010, dirigido por Pierre Salvadori) permitiu a Audrey Tatou revisitar a personagem que eternizou em "O fabuloso destino de Amélie Poulain".
O filme está distante da obra-prima de 2001 no que toca à temática e o cuidado com a fotografia - de uma sofisticação e singeleza ímpares, como raramente vemos nesses dias. Porém, ainda podemos ver uma Audrey Tatou luminosa como um raio de sol - sim, a comparação é tolinha, mas é exatamente nela em que pensava sempre que o rosto da atriz era enquadrado pela câmera - demonstrando cabalmente que, embora se desincumba bem de papéis dramáticos, seu elemento mesmo é a comédia leve.
O enredo é simples, mas rende múltiplos achados cômicos: Emilie é dona de um estiloso salão de beleza situado num canto da Riviera e tem como empregado um jovem charmoso que nutre por ela uma paixão recolhida. Uma carta romântica anônima escrita pelo rapaz à moça dá início a peripécias que acabarão por envolver também a mãe dela - mulher desgostosa da vida depois de ser abandonada pelo marido.
Nada muito inovador, porém, a história é contada de um modo tão gracioso que se torna imperdível. Para isso, contribui enormemente uma trilha sonora dos anos 80 - não localizei os nomes das canções para dizê-lo com certeza, mas os arranjos me parecem bastante tributários dos 80 - que são um deleite para os ouvidos dos nostálgicos (para mim, essas canções combinavam com a piscina do clube onde eu passava despreocupados verões, tanto tempo atrás...). Elas caem como uma luva na história, dando credibilidade aos bobinhos desencontros amorosos encenados - já que estão envolvidos por aquela pátina do tempo que torna tudo mais charmoso. Imperdível, assim como "Potiche".

A surpresa do festival foi, para mim, "Potiche: Esposa Troféu" (Potiche, 2010, dirigido por François Ozon). Por causa dele, Catherine Deneuve acabou de ganhar um espaço de destaque na minha prateleira de musas.
O filme segue de perto o melhor da screwball comedy. Não conheço a filmografia do diretor e conheço pouco a de Deneuve. Então, ver o filme me proporcionou a deliciosa descoberta de que é ainda possível reencontrar na tela grande o ritmo que tanto me deleita naquelas maravilhas dos anos 30 e 40 dirigidas por Capra, Lubitsch, Cukor, La Cava... E isso pelas mãos de uma atriz que, embora experiente, mostra que pode ser lépida como uma garotinha - o que multiplica o charme da história.
"Potiche" mergulha romanticamente no passado - no final dos anos 70, aurora da luta da mulher pela igualdade social. Deneuve é Suzanne Pujol, a esposa enfeite.
Casada com um homem de ferro da indústria do guarda-chuva, a mulher de meia-idade (embora a atriz tenha quase 70, passa facilmente por uma mulher de 50 - ou menos) precisa se contentar com um espaço módico na vida pública e privada do homem. Como as bonequinhas dos anos 70, Suzanne se dedica a ninharias. Ela escreve poesias... A sequência que abre o filme, da mulher correndo no bosque e interagindo com os pequenos animais silvestres, é um primor da graça, tolice e poesia (não é quase impossível juntar bem tudo isso?).
A viagem ao passado é acompanhada de um olhar num só tempo amoroso e analítico. O filme constrói, com riqueza de detalhes, tipos e estereótipos dos anos 70 - o próprio pôster faz graça com isso, rotulando todas as personagens logo de cara, influenciado em grande medida pela produção cinematográfica e seriada da época. Porém, cabelões armados, calças bocas-de-sino, laquê e companhia emolduram personagens algo complexas. Os estereótipos vão caindo na medida em que a esposa-troféu vê-se obrigada, devido à doença do marido, a sair da estante e enfrentar a fábrica dominada pelos funcionários insatisfeitos. E aí, o filme é todo de Catherine Deneuve, que conduz o protagonismo com uma maestria igual a qual é raro vermos. A dignidade que a atriz experimentada imprime a cada cena faz o filme a todo momento deixar a sátira e esbarrar na poesia: seu encontro com o velho amor na boate da moda; sua relação suis generis com o marido - contada por uma câmera que a todo momento beira o kitsch mas vitoriosamente escapa dele.


Sem contar as referências à sétima arte - não só a produzida nos anos 70. Sabem que sou amante assumida do cinema clássico. Por isso minha emoção ao ver Catherine tratada com um respeito quase reverencial pelo diretor - a alusão a "Os guarda-chuvas do amor" não está só na fábrica de Monsieur Pujol, mas na canção que a própria personagem entoa graciosamente no clímax do filme. O respeito é merecido, porque não só a atriz mostra ter se esbaldado em cena, nós também nos esbaldamos com ela.

Como esse post é mais um convite para que os leitores conheçam as produções que uma análise cerrada de cada uma delas, paro por aqui para não estragar as surpresas. Aqui em Campinas, nos movimentamos e ganhamos de presente "Potiche" por mais um par de semanas. Desejo-lhes a mesma sorte!

14 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Dani, acompanhei o Festival em Natal. Vi COPACABANA (vejo tudo da Huppert!), POTICHE (fiquei meio chocado com o rosto plastificado de Deneuve) e UM GATO EM PARIS, o melhor de todos. Bela animação, clássica e sensível. Abraços.

O Falcão Maltês

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Como gosto é uma coisa maluca, não, Antonio?

Infelizmente não pude ver "Um gato em Paris". Pena. Queria ter visto todos, mas a correria não me deixou.

Bjs
Dani

Edison Eduardo d:-) disse...

Oi, Daniiiii!!!! Puxa, estou tão desatualizado do cinema francês... SEMPRE adorei!!! Uma época, tinha um cinema aqui em Copacabana que só passava filmes franceses...

Fiquei interessado no filme da eterna Amèlie (ehehe) e o "Potiche"... Já tinha ficado nesse quando vi a entrevista da Cathèrine no Fantástico...

Enfim, listinha crescendo e o tempo livre diminuindo!!!

Aquele bjão! Adorei as diquinhas da postagem! Edison

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Edison!

Menino, você com certeza vai gostar de ambos. Fique de olho na programação - se Potiche estreou na grade normal aqui, é possível que estreie por aí também. O filme é adorável e Catherine está ótima.

Bjinhos - e sorte pra dar conta da correria.
Dani

PS: Sempre que eu encontrar coisas legais, mando-as pra você.

Isabella Batista disse...

Adorei saber as novidades francesas, bem que eu estava precisando, haha.
Parabéns pelo blog!
um beijo!

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Isabella!

Menina, quanto tempo não nos falamos! Como vai a faculdade?
Então, qualquer um desses filmes vale a pena. Eles são um sopro de vida na programação abarrotada de enlatados dos cinemas de hoje.

Bjinhos e obrigada pelas palavras e visita.
Dani

Edison Eduardo d:-) disse...

Claro!!! Mande, sim...
Vc tem MUITO bom gosto, vou adorar!!!!
Ah, os dois filmes já estão em cartaz aqui!!!! Tempoooo, cadê vc????

Bjão, querida! Mande uma bjoka pra sua mãe!!!! Edison

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oie, Edison.

Que máximo que já estão em cartaz! Não perca especialmente a Catherine Deneuve! Dá um jeitinho de ir no cinema que você vai curtir muito muito "Potiche".

Pode deixar que mando o beijo pra mami.

Bjinho
Dani

Danilo Ator disse...

Danielle, infelizmente perdi o Festival Varilux por incompatibilidade de horários com meu trabalho. Espero ver os filmes mais tarde na telona ou baixados. Quando vi que você escreveu sobre o festival, fiquei logo curioso para ler o que iria escrever sobre Vênus Negra; parece que esse você não viu ou preferiu não ver; o filme tem machucado muita gente melindrosa e acostumada a histórias bonitinhas; estou doido para ver. Abraço.

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Danilo!

Menino, minhas escolhas foram feitas por puro acaso. Tinha dois dias livres e vi tudo o que pude neles. Calhou de eu não conseguir ver Vênus Negra. Mas já há um pôster dele lá no Topázio, o que significa que ele re-estreará na grade da programação daqui a algumas semanas. Quando isso acontecer, volto aqui pra deixar minha impressão sobre ele.

Bjs
Dani

Felicidade Clandestina disse...

A correria do dia-a-dia não me deixou pegar as sessões =|


Que blog maravilhoso.
Gostei de um bocado de coisa daqui :)

Abraços

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Felicidade Clandestina, muito agradecida pelas palavras sobre o blog! É um prazer tê-la por aqui!
E sobre o Festival, fique tranquila que os filmes estão começando a compor as programações dos cinemas.

Bjs e até logo
Dani

Edison Eduardo d:-) disse...

Dani, A-DO-REI o "Potiche"!!! Realmente é um grande filme, uma bela surpresa... É um filme bem... CINEMA!!!! Que vc sonha com o que vê, torce, se indigna... Fico imaginando ele sendo feito e exibido nos 70, época em que rola a história... Seria uma revolução!!! A Cathèrine Deneuve arrebenta, ehehehe... O filme é dela! Não tinha como não ser... A cena final, dela cantando é RETUMBANTE, inesquecível! ADOREI pra valer! Falta-me agora a Tatou e sua "Doce Mentira"... Bjão!!!!

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Edison, meu amigo, fiquei muito feliz em saber disso! "Potiche" me fez descobrir a Catherine Deneuve (demorou...).

Como você, fiquei fascinada pelo filme, pela personagem da atriz e pelo que ela conseguiu fazer com o papel que lhe deram. Em Paris, passei em frente à casa dela naquele melhor estilo "On the street where you live" sobre o qual comentamos... Enfim, uma revelação - não só pra mim mas para o público campineiro, que o deixou em cartaz por 7 semanas e saía no cinema cantando "C'est beau la vie".

Como você disse tão bem, é um filme "bem cinema" - uma soma de ingredientes para envolver o público na história sem, no entanto, deixar de lado o olhar crítico. Tô aqui imaginando ele sendo exibido para as plateias dos anos 70. Acho que não seria entendido!

O filme da Tatou é gracioso mas nada espetacular. Porém, voltei ao cinema com a D. Nelly para vê-lo e ela o adorou - mais que Potiche...

Bjs e inté
Dani