quarta-feira, 17 de junho de 2020

A gripe espanhola entre a imprensa e o cinema

Gazeta de Notícias, 5 nov. 1918, p. 3.
Fonte: Hemeroteca Digital da BN
Três meses depois do início da quarentena, vi-me diante da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional buscando informações sobre a gripe espanhola, exegese já realizada por alguns órgãos de imprensa no princípio da pandemia do coronavírus. Reprisei os recortes de minhas pesquisas até agora, voltadas ao cinema mudo, às suas relações com as artes e à imprensa carioca da época. 
Voltei-me, além de à Hemeroteca, a algumas bases de dados de conteúdos audiovisuais e impressos: o IMDB, a Fondation Jerôme Seydoux Pathé, a Gaumont Pathé Archives, a Huntley Film Archives, a Filmografia da Cinemateca Brasileira, os diários e revistas ilustradas cariocas Jornal do Brasil, Gazeta de Notícias, Fon-Fon e O Malho. Quem se debruça em arquivos desse tipo sabe que a pesquisa se trata de um trabalho de formiguinha, vagaroso. Procurei simplificá-lo e abreviá-lo, deixando-o nas dimensões e no formato de um post mais resenhístico que exaustivo. O caráter detetivesco da busca (que é o que desde sempre seduziu à pesquisa acadêmica esta leitora devota da Agatha Christie) também aparecerá aqui. 
Em primeiro lugar, os termos da busca: gripe espanhola, ou melhor, grippe hespanhola. Por que tão poucas referências há sobre ela no Jornal do Brasil (duas dezenas entre as décadas de 1910 e 1920)? A pesquisa pela variante “influenza” amplia o resultado a pouco mais de quatro dezenas, poucas, ainda, considerando a hecatombe que ela representou no Brasil à época. Mais prolífico, o jornal Gazeta de Notícias elucida o silêncio com verve irônica. Em 16 de outubro de 1918, publica em letras garrafais, na primeira página: “Um mar de rosas”, e como subtítulo, “É a opinião do governo, diante do ‘mal de Seidl’: As providências tomadas contra a...”. O artigo justifica o uso da antonomásia no título da notícia. O governo acabara de instaurar a censura a respeito da doença, dando mostras, ainda uma vez, do histórico autoritarismo de nossas instituições. Mas, o recente batismo do mal igualmente aponta para o desbunde carnavalesco da cidade: Carlos Seidl era, até exatamente aquele dia, quando foi destituído, o Diretor de Saúde Pública do governo de Venceslau Brás, figura tão inócua no enfrentamento do vírus que, mesmo tendo caído, acabaria por batizar a doença pelos próximos anos. 
Fonte: Hemeroteca Digital da BN
Malgrado a censura, o jornal não silencia. Traça, naquele e nos próximos dias, o percurso da gripe espanhola pelos interiores do Brasil: pelos caminhos do paquete a vapor, do mesmo modo como hoje o coronavírus penetra o país por via aérea. Vindos do Norte do país e da Europa, respectivamente, os navios Amazonas e Garona desembarcavam doentes nos portos da cidade. 
Em meados de outubro de 1918, a transmissão comunitária da gripe espanhola já se estabelecera no país. A leitura dos próximos dois meses e meio do jornal dá calafrios. O noticiário, as entrevistas e os anúncios oscilam entre a informação de 600, 800 mortos diários (40.000 ao cabo de dois meses e meio, segundo a folha) apenas na cidade do Rio de Janeiro; a apresentação de panaceias de naturezas variadas, da autoria de médicos formados, e de elixires que nada devem aos feijões abençoados e outras absurdezas que circulam hoje em dia como profilaxia ao coronavírus: da celebérrima Emulsão de Scott aos purgativos, velhos como Moliére, receitados pelo Dr. Teixeira Coimbra (cuja insólita receita, que mistura, entre outros, óleo de rícino e sal, pode ser encontrada na p. 2 da Gazeta do dia 22 de outubro de 1918, abaixo). 
Fonte: Hemeroteca Digital da BN
A Gazeta é uma das folhas que mais rapidamente atualiza seu maquinário, logo, publica, entre as notícias, copiosas imagens do dia a dia da cidade: as aglomerações (tantas e tão mortíferas) diante das instituições de caridade e nas procissões que pedem saúde aos santos do dia... E, nos artigos de opinião, não poupa farpas à atuação pífia do governo no combate à epidemia, responsável pela morte sobretudo de habitantes das periferias, caminhando a contrapelo de uma orientação história da folha, que era o alinhamento com a situação (mais informações sobre isso se encontram no link da FGV, aqui). 
Médico examinando, no Morro da Mangueira, um homem acometido pela pneumonia.
 Imagem de Arthur Moncorvo Filho. Fonte: Fiocruz.
As revistas ilustradas cooperam no registro visual da passagem da “Hespanhola” pela cidade. Em 20 de outubro de 1918, a Fon-Fon publica uma série de instantâneos da outrora buliçosa Avenida Rio Branco – onde ficavam os principais cinemas da cidade – deserta, bem como das procissões e dos órgãos do Estado voltados à prestação de serviços assistenciais repletos de gente que, a contar pela variedade de vestimentas, pertencia a todos os estamentos sociais. 
Embora deixasse de frequentar as casas de diversão, o povo seguia se aglomerando, no Rio de Janeiro como em dezenas de cidades ao redor do mundo, colaborando na multiplicação dos doentes. A certa altura, a Gazeta de Notícias louva as políticas públicas francesas de enfrentamento da gripe espanhola, responsáveis por baixar os mortos diários a um décimo das mortes dos cariocas. 
Fonte: Hemeroteca Digital da BN

Encontramos, entre os registros audiovisuais remanescentes da época, no fragmento de um "Gaumont Journal" datado de 1919, vestígios da implementação de algumas dessas medidas em Paris. Ao longo de pouco menos de um minuto, a câmera estática, em quatro planos, explica pedagogicamente a importância da máscara na proteção contra o vírus. Com a costumeira habilidade fotográfica dos homens do primeiro cinema, o filmete faz as máscaras brancas ocuparem um invulgar primeiro plano, contrastando com o cinzento do quadro invernal.
"Peu elegant, mais pratique, voici, comme a paris, le masque contre la grippe espagnole" (Gaumont Journal, 1919)
Fonte: Gaumont Pathé archives 
Num diapasão mais lúgubre, a fotografia de um soldado mascarado aparece num filme em inglês rodado aparentemente em 1918, disponível na Huntley Film Archives. Além dele, a câmera, tal e qual lanterna mágica, funde e dá movimento a uma série de imagens estáticas representando uma fileira de pessoas caminhando num local inóspito; uma notícia de jornal comunicando o fechamento das escolas devido à influenza; a aglomeração de pessoas diante da igreja; a mãe e o filho que, numa xilogravura, lamentam a morte do pai de família.
"Spanish Flu". 
 Fonte: Huntley Film Archives. Disponível para visualização . 

Usada eventualmente em contexto estrangeiro, a máscara não parece ter sido adotada no Brasil (mesmo entre os médicos). No britânico “Dr. Wise on Influenza”, não é ela, e sim o isolamento do doente, que é defendido. O sisudo filmete apresenta, em pedagógico estribilho, a alegoria da sabedoria (um velhote de dedo em riste) frente a duas situações, ambas tomadas em planos frontais, após as quais o Doutor Sabido reage criticamente. Na primeira, um amigo abraça outro que tosse: “Observando que Brown estava gripado, Jones não deveria se associar a ele”, o médico diz. Ambos entram num ônibus lotado. O Dr. Wise: “Brown está provavelmente espalhando germes pelo ônibus e transmitindo Influenza para um grupo numeroso de pessoas”. Noutra situação, toma-se em plano aberto um escritório. Na esquerda baixa, quase ao centro, local de destaque da cena desde a configuração do palco italiano, o homem espirra, se limpa num lenço de tecido. O incrédulo Dr. Wise reclama da falta de ventilação. Poucas horas mais tarde, todo o escritório estará contaminado. “Uma vez gripado, ele deveria evitar se reunir em ambientes fechados”, o médico arremata. 
“Dr. Wise on Influenza”.
Fonte: Huntley Film Archives. Visionamento disponível
Examinando os Bancos de Dados citados no início deste texto, surpreende a pequena quantidade de arquivos audiovisuais rodados nos anos da gripe espanhola. A rapidez e a alta mortalidade da doença (mesmo num mundo acostumado às epidemias); o número avassalador de mortos (entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, até 1920) podem servir de explicação ao recalque. Já no Rio de Janeiro, onde além da mencionada censura ao tema havia um explicitado desejo da cinematografia de se registrarem apenas imagens deleitosas da cidade modernizada, não encontrei referência sobre qualquer registro audiovisual da epidemia. Restam as imagens estáticas, tornadas públicas pelas revistas ilustradas ou integrantes dos acervos dos fotógrafos da cidade. 
Passada a epidemia (ou, entre cada uma das três ondas dela, períodos de calmaria aparente), era o tempo de sua catarse, por meio da farsa, da alegoria e/ou do carnaval, métodos intercambiáveis. "Fritzigli a la grippe" (Export Union Film, 1921), de Amédée Rastrelli, diretor de uma sequência de filmes figurando Fritzigli (André Séchan), apresenta como profilaxia para o tratamento da gripe espanhola o envio da personagem doente à Espanha com um par de castanholas. Ali, Fritzigli encontra “la belle Conchita”, disputando-a com o "terrível" Caramba, multiplicando-se as peripécias. A itinerância proposta pelo roteiro aproxima o filme dos espetáculos cômico-musicados em voga na Europa e no Brasil, a exemplo das peças fantásticas e das revistas de ano (teatrais como cinematográficas).  
Essa lógica revisteira enforma uma pérola de animação produzida em 1920, “Canard en cine numero 12” (Gaumont, Série D), de Lortac e Rigal, na qual a cidade desfila em traços surrealistas: um monstro-farmacêutico aviando a receita de certo cliente após o boletim municipal informar que “A gripe foi vencida”; a gripe espanhola ocupando o longo cortejo dos males recentes, entre os micróbios e a dor de cabeça. 
“Canard en cine numero 12” (Gaumont Journal, 1920)
Fonte: Gaumont Pathé archives 
À guisa de arremate: a estrutura e as alegorias da animação assemelham-se às apresentadas pelo grupo carnavalesco Tenentes do Diabo no carro de crítica “A Espanhola”, do carnaval carioca de 1919 - atentem-se, na imagem superior à direita, às mesmas cabeças agigantadas presentes na animação, tal e qual charges tridimensionais. Para além dos intercâmbios observados entre as diversas manifestações artísticas analisadas, notamos que, no Rio de Janeiro, o carnaval de então salientava o cunho crítico que ele historicamente tivera, a despeito das proibições governamentais.
Revista Fon-Fon, 9 mar. 1919.
Fonte: Hemeroteca Digital da BN

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